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Quinta-feira, 2/12/2004
Fondo de Cultura Económica: 70 anos de uma missão
Celso A. Uequed Pitol

O estudante brasileiro que quiser aprofundar-se em sua área carrega, junto às dúvidas inerentes à vida num país instável, uma só certeza: terá de faze-lo em outra língua. A maior parte do que é relevante e novo não tem edição em português e, quando tem, costuma trazer erros de tradução que obrigam o pobre acadêmico a aprender uma língua o mais rápido possível, se quiser estudar melhor. Enquanto isso não acontece, a saída é buscar auxílio nos vizinhos, que fornecem um produto precioso para aqueles que não dominam outro idioma: as edições em espanhol. A semelhança com o português é um importante atrativo, mas não é o único. Além disso - ou antes disso - há um fato, que indica uma postura adotada pelos hispanoamericanos diante da sua situação cultural e, ao mesmo tempo, boa parte de seu sucesso. O fato é: eles traduzem mais, e melhor, do que nós.

E que postura é essa? Antes de ser a favor disto ou daquilo, ela é contrária ao auto-engano nacionalista, o mais conhecido e antigo subterfúgio ibérico para mascarar o próprio atraso. A nossa proverbial inércia só exige, assim, que olhemos para o nosso próprio umbigo e esqueçamos o mundo, esse mundo que oprime o nosso ego com novidades e gênios renomados que ignoramos. Os resultados todos sabem: isolamento, provincianismo, mesquinharia e, por fim, a imposição da verdade sobre a hipocrisia, quando somos obrigados, novamente, a recorrer à produção estrangeira e recomeçar o círculo vicioso. Reconhecer a dependência é o primeiro passo para saná-la, e se os nossos companheiros no último vagão da locomotiva do Ocidente já podem mostrar o caminho para a primeira classe, é porque, em algum momento, experimentaram mudanças radicais em seus princípios. Uma delas, e talvez a mais importante, tem data e nome: foi a criação do Fondo de Cultura Económica na Cidade do México, em 1934.

A maioria dos estudantes de ciências humanas já ouviu falar dele. Parte significativa das traduções espanholas dos clássicos de história, filosofia, sociologia, economia, estudos literários e políticos que chegam até nós traz na capa a sigla CE entrecortada por um F manuscrito num fundo vermelho. A semelhança com os selos imperiais da Idade Média não é apenas um truque publicitário. Assim como estes garantiam ao destinatário a certeza da ordem real, a marca do Fondo de Cultura Económica é um certificado de boa tradução, edição caprichada e conteúdo rigorosamente selecionado. Um status conquistado aos poucos, com trabalho árduo e a firme convicção no cumprimento de uma missão.

Antes de dizermos que missão é essa, é bom voltarmos um pouco no tempo. Mais precisamente para 1934, na Cidade do México, onde vivia o economista Daniel Cosio Villegas, diretor do Departamento de Estudos Econômicos do Banco Nacional. Apesar da estrutura social ainda semifeudal, o México atravessava o seu primeiro período de rápido crescimento econômico, que aumentava a demanda por profissionais de qualidade. As universidades mexicanas, herdeiras de uma tradição espanhola dos estudos de humanidades, que excluía os cursos tecnológicos, não estavam preparadas para atendê-la. Os poucos técnicos do país eram formados nos EUA ou na Europa, e o próprio Villegas era um deles: graduado na London School of Economics, tradutor de inglês e francês e incipiente promotor cultural, percebeu na prática a distância entre o seu país e o restante do Ocidente. Na recém-fundada Escuela Nacional de Economia, onde lecionava, os alunos não dispunham de livros em castelhano para prosseguirem seus estudos: a Espanha, devastada pela guerra civil, pela fome e pelo atraso tecnológico de séculos, "traduzia pouco e traduzia mal o ruim", nas palavras de um intelectual argentino da época, e os países latino-americanos, com raras exceções, não dispunham ainda de estrutura econômica nem de editoras especializadas.

A imposição do problema fez Villegas agir. O interesse pelas ciências humanas, em especial filosofia, arte e ciências sociais, aliado à experiência no ramo empresarial, político, universitário e cultural lhe conferia autoridade para pôr em prática uma idéia pessoal, alimentada há tempos, de criar um instituto dedicado a divulgar no México as principais obras do pensamento da época. Propôs, assim, uma reunião entre intelectuais, empresários e membros do governo mexicano e expôs a importância política e econômica de desenvolver o lado cultural da nação. Capital privado, financiamento público e gerência intelectual independente: estava criado o FCE.

Nos primeiros tempos, o foco era o pensamento econômico, fazendo jus ao nome da instituição e às necessidades dos alunos de Villegas. Foram editados clássicos da economia política que nunca haviam sido traduzidos para línguas ibéricas, como O dólar-prata, de William P. Shea - primeiro livro publicado pela editora -, além de novidades de autores mexicanos e de fala espanhola. Em pouco tempo, entretanto, o lado cultural falou mais alto, e a linha editorial se expandiu: passou a contemplar filosofia, sociologia, psicologia, história, arqueologia, estudos políticos e literários. Foram editados os principais livros de Marx, Scheler, Hegel, Wittgenstein e outros nomes importantes da época.

O impacto da editora dentro da América Latina foi imediato e o resultado, alentador: era um alívio para o crônico complexo de inferioridade dos latino-americanos, que podiam, finalmente, pôr-se a par das novidades européias e americanas. Ao mesmo tempo, permitia à intelectualidade local publicar seus livros no mesmo passo dos gênios do Hemisfério Norte, colocando um nome fundamental como Alfonso Reyes, um dos maiores tradutores e ensaístas de língua espanhola, no mesmo catálogo em que constava Max Weber, e o melhor: divulgando-os por toda a América Latina. Em 1945, foi inaugurado o escritório em Buenos Aires, em 1954, em Santiago do Chile, e em 1963, em Madrid. Nenhuma iniciativa estatal seria capaz de promover semelhante integração.

Consolidado o seu trabalho, Villegas deixaria o FCE em 1948. Em seu lugar assumiu o argentino Arnaldo Orfila Reynal, que deu novo impulso à atividade do Fondo ao criar coleções específicas para cada área do conhecimento, firmando, assim, a vocação humanística da instituição. Breviarios, Lengua y Estudios Literarios, Arte Universal, Vida y Pensamiento de México, Psicología, Psiquiatría y Psicoanálisis e Colección Popular ampliaram consideravelmente o projeto de Villegas e consolidaram a vocação da editora para liderar, senão em quantidade mas certamente em qualidade, o mercado editorial latinoamericano.

Uma visita à página do FCE mexicano dá uma idéia do porquê dessa posição. A enorme variedade dos temas abordados já constituiria um bom motivo por si só, mas não é o único: antes é a escolha pelo ineditismo das publicações que o diferencia de nossas editoras, cujas maiores atividades quedam, freqüentemente, em traduções requentadas e em reedições de clássicos já presentes em qualquer biblioteca. Mais: com a sua vocação desbravadora e a presença em todo o continente, o Fundo de Cultura Econômica contribuiu positivamente para a criação de um diálogo latino-americano como antes não existia. Argentinos, mexicanos, espanhóis, uruguaios, chilenos e peruanos passaram a conhecer-se ao mesmo tempo em que, munidos de uma bibliografia nova e atualizada, iniciaram um diálogo interno sobre as últimas novidades do pensamento mundial, diálogo a um tempo independente e universalista. Partindo daí, a declaração de Julio Ortega sobre os 70 anos do FCE não parece exagerada: "América Latina no existiría sin el FCE. Quiero decir, sería un hemisferio sin la imaginación que el FCE nos hizo reconocer como el espacio de nuestra nacionalidad cultural. Entre el purgatorio de la historia y el infierno de la política, la cultura sigue siendo el espacio de nuestra humanidad". Aí está a missão do Fondo de Cultura Económica: ajudar a consolidar um espaço cultural em língua espanhola.

Já imagino no leitor a pergunta: "E nós?". Apesar de algumas iniciativas isoladas, como a Fundação Calouste Gulbekian, em Lisboa, "nós" nada temos de semelhante, nem de longe, ao trabalho do FCE. Com um agravante: sabedores do sucesso da empresa do vizinho, não demos nenhum passo na busca por uma solução parecida para problemas iguais. As críticas dedicadas às instituições, públicas e privadas, ligadas à cultura no Brasil primam por abordar um só aspecto da questão. Esquecem que, para a permanência de qualquer projeto desse nível, é necessária cooperação e sentido comum - e não temos nem um nem outro. O FCE, fruto da união do Estado, o setor privado e o meio cultural - num continente onde estes carregam a pecha de corruptos, ineficientes e mesquinhos, nesta ordem -, mostrou o melhor caminho para superar o atraso cultural: em vez de fechar-se em resmungos e supervalorizações provinicianas, o melhor é tentar correr paralelo. Este é o único caminho para superar, em qualquer área, a crônica dependência dos modelos estrangeiros, abrindo caminhos para um diálogo futuro em igual patamar com a cultura ocidental. Fora disso, só resta o auto-engano, a hipocrisia e, com alguma sorte, as línguas irmãs.

Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 2/12/2004

 

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