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Quarta-feira, 9/2/2005
O clássico e a baleia quadrúpede
Ana Elisa Ribeiro

Aprendi a ler porque queria alcançar as letras de um outdoor que existia no caminho da escola. Não aprendi a ler porque uma "tia" me obrigou ou porque era o processo natural de quem estava no "prezinho". Aprendi a ler porque quis. E isso acelerou meu aprendizado, a ponto de haver comentário da professora. Se fosse em Matemática, naquela época, teriam chamado minha mãe e aconselhado acompanhamento com psicóloga. "A menina é superdotada, não podemos assumir esse tipo complicado de aluno aqui". Mas era década de 1980, então não valia muito quem estava prestes a gostar de ler e escrever.

Depois que me ensinaram que b+a dava "ba" e as coisas começaram a fazer sentido, iniciei uma odisséia pela leitura que nunca mais parou. Entrei de sola nos livrinhos que ganhava dos estimuladores (nem todos bons leitores, diga-se de passagem).

Minha família não expunha livros nas prateleiras. As obras que minha mãe lia eram cuidadosamente trancafiadas, por conta de uma mania dela de passar chave em tudo (até mesmo nos armários de biscoito). Meu pai só nos aparecia lendo o jornal, o que não foi pouco para formar o hábito de ler esse tipo de texto. No entanto, livro mesmo, do bom, fui encontrar na casa da minha avó.

As casas de avó de que eu ouvia falar, aquelas de sonho, onde existem avozinhas de cabelos brancos que sabem cozinhar bem não existiam na minha vida. A minha avó materna era (e é) uma mulher linda, roliça, alta e que trabalhava fora. Era uma senhora que assistia à tevê, ouvia óperas e comprava livros de capa dura. E a estante que ela deixou na sala tinha prateleiras abertas para que os netos manuseassem os volumes, com cuidado, claro.

Ali eu mirava, lá no alto, um Dom Quixote e um Os Miseráveis, que eram os mais imponentes, mas também havia Admirável Mundo Novo e 1984. E eu queria alcançá-los, para isso, além de saber que b+a dá "ba", dei um jeito de aprender muito mais sobre a língua portuguesa.

Antes de chegar àquele universo da estante da sala, fiz uma turnê pela estante da minha tia, apenas 11 anos mais velha do que eu e tão minha amiga. Era ela quem me emprestava Pimpinela Escarlate e Jane Eyre pra ler. Também foram dela quase todos os livros infanto-juvenis, exceto pela clássica coleção Vaga-Lume, que ganhei de minha mãe.

Depois que terminei a viagem pela estante da tia, achei que dava conta da estante da avó e me meti entre Sancho Pança e o fidalgo mais adorável que jamais conheci. Ai, Deus, eu é. E então passei a ler russos, franceses e portugueses. Sem pestanejar e sempre entrando nos climas.

Enquanto lia Cervantes, com muito fôlego para aguentar todo aquele volume, tive medo. Não dos moinhos ou dos monstros imaginários, mas de ficar louca como aquele cavaleiro. Minha avó paterna, não a dona da estante, mas a outra, me alertava de que "moça que lê muito fica louca". E eu continuava me arriscando entre as traduções universais.

Enfim, comecei a investir na minha própria estante e passei a colecionar as obras que podia comprar nas livrarias. Não me lembro bem de qual foi a primeira, mas me lembro do dia que comprei um Vidas Secas que muito me impressionou. Baleia passou a ser meu bicho de estimação e Fabiano era meu herói. Aquela tartamudez me deixou em silêncio por alguns dias e eu entendi que o Brasil também produzia seus clássicos universais.

E lia, lia, lia, mas também escrevia, com a mesma sofreguidão. Porque ler sem escrever não faz milagre e aprender a escrever não ocorre por osmose. Mas o escritor treinado por mimetizar, quando deseja. E eu fiquei assim. Andando pelos passos dos outros, até achar minha pegada.

Fiquei muito decepcionada quando soube de uma mesa-redonda do Encontros de Interrogação, evento promovido pelo Itaú Cultural, em novembro de 2004, em que alguns ficcionistas da atualidade brandiam fivelas para dizer que não é necessario ler um clássico e que não há relação qualitativa ou quantitativa entre a leitura de um clássico e a produção deles mesmos. Santa prepotência, Batman! Santa pretensão, Robin! Santa ignorância, meu Deus. Mas é bom pra revelar quem é apenas informado e se julga acima do que desconhece, se acha muito bom justamente porque sequer conhece parâmetros, e quem tem formação sólida e sabe por onde anda.

Não é necessário ler um clássico para viver o dia-a-dia. Não é necessário ler um clássico para cortar tomates e nem para picar cebola. Provavelmente um clássico não ensinará sobre hardware de computador e nem dará diploma de pós-graduado em gestão de qualquer coisa. Mas um clássico dá sustância, dá uma experiência que não é a da técnica, mas é a de saber como o escritor enxerga pelas lentes da palavra bem-tratada.

Li porque quis. Aprendi a ler porque tive vontade. Nem a gravidez de meu filho teve essas características e eu o amo tanto. Dá pra entender o que isso significa?

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 9/2/2005

 

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