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Sexta-feira, 9/9/2005
Schopenhauer sobre o ofício de escritor
Julio Daio Borges

"A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele se lapidifica, morre, portanto, mas continua indestrutível, tal como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos."
Arthur Schopenhauer

É moderna a moda de se falar de uma realização — antes, durante ou depois da própria. O tal do making-of. Segundo teóricos da história da arte, no século XX, os artistas, também para chamar atenção, implodiram a própria obra. Então passaram a se concentrar na sua estrutura, colocando-a, muitas vezes, à frente da própria realização. Portanto, nos 1900s, foi comum topar com edificações cujas vigas estavam em primeiro plano, com romances rompendo a linearidade e discutindo a própria feitura, com pintores e escultores questionando o suporte ou abandonando-o, em prol da arte conceitual, de todo. Numa época, como a nossa, em que a produção é mais esmerada do que seu resultado (feito para atingir a todos, assim não pode ser muito sofisticado — embora os métodos e as técnicas o sejam) é natural que os segredos, o behind the scenes, os bastidores despertem uma enorme curiosidade (quem sabe até maior do que a despertada pelo produto final).

Arthur Schopenhauer, que morreu em 1860, obviamente não sabia disso (e, mesmo que soubesse, não se interessaria). Mas, talvez numa crise pessoal, profissional ou de falta de assunto, compôs Sobre o ofício de escritor, dentro de Parerga e paralipomena, uma obra considerada menor, lançada em 1851. Schopenhauer ainda não era, evidentemente, o mestre precursor de Nietzsche, nem uma referência intelectual para Wagner (quando entre Friedrich e Richard havia amizade, eles discutiam longamente sobre Arthur). Amargava a falta de reconhecimento, o quase anonimato e as tentativas falhadas de lecionar na universidade. Ao contrário, porém, do que se poderia pensar, esses escritos menores, dos dez últimos anos antes de sua morte, chamaram a atenção para o seu nome, trouxeram-lhe os primeiros discípulos e consagraram, posteriormente, O mundo como vontade e representação (1819), sua obra magna.

Nietzsche também escreveu sobre o ofício de escritor, em seus derradeiros anos, mas, como os artistas dos 1900s que investigavam o próprio métier, seria esse um esforço comum entre filósofos? É provável que não; mas precisaríamos pesquisar para comprovar. O fato é que o leitor médio pode se assustar com as meditações aparentemente profundas, de escritores monumentais, sobre, em última instância, o próprio ato de filosofar. É um temor equivocado, no entanto. Schopenhauer, em Sobre o ofício de escritor, nunca soou tão acessível, talvez porque, revoltado com a vida, tenha decidido extravasar toda a sua frustração contra o establishment intelectual de então — sendo, inevitavelmente, mais rasteiro, a exemplo do objeto de suas preocupações. (Se você fala mal de alguém ruim, inevitavelmente vai ter de descer no mesmo nível e, em boa medida, se igualar.)

Sobre o ofício de escritor pode, portanto, ser lido como um ataque aos maus escritores. O título, inclusive, poderia ser mudado para Sobre o ofício de não-escritor, ou, mais inteligivelmente, para Sobre como não escrever ou apenas Como não escrever, mais enxuto e direto. Schopenhauer mira e atira de alto a baixo, atingindo boa parte do grand monde intelectual europeu e principalmente alemão. Ele não se conforma que o mundo seja tão injusto e que, no mainstream (para usar uma expressão anacrônica), os valores estejam totalmente invertidos. Se habitasse o século XXI, como nós, ele possivelmente se atiraria de uma ponte ou mandaria cortar a mão. Para que se tenha uma idéia de como pioramos (ou estivemos sempre igual), mesmo para alguém que praguejava tanto contra o seu tempo como ele, Schopenhauer combatia monstros como Hegel, Schiller e Fichte, enquanto se inspirava em Goethe, o amigo de sua mãe.

Schopenhauer abre o volume separando os escritores em duas categorias relativamente conhecidas: a dos que escrevem por dinheiro e a dos que escrevem por amor. Desenvolve seu raciocínio em torno desses dois, centrando fogo, conforme foi adiantado, no primeiro tipo de escritor. Quem escreve por amor, ele nos diz, o faz por necessidade — por ser para ele, escritor, algo urgente e inescapável. Não despeja, no papel, qualquer coisa que lhe venha à mente e, em geral (se pudermos extrapolar o que ele falou), pensa antes. Pois, como registra: "Poucos escrevem da maneira como um arquiteto constrói, esboçando anteriormente seu projeto e elaborando-o até nos detalhes; ao contrário, a maioria escreve da mesma maneira como se jogasse dominó". Dá para perceber, por essa mera sugestão, o quanto Nietzsche herdou da grande capacidade de Schopenhauer de evocar imagens (mais para frente, Wittgenstein, outro leitor seu fervoroso, especializou-se em símiles por ter a mesma poderosa habilidade).

Enfim, não há muito segredo sobre os bons escritores (ou há, mas talvez seja um segredo intangível, fora de alcance), então vamos nos concentrar, avisa Schopenhauer, nos ruins. Vale alertar que Arthur seria extremamente impopular se publicasse essas observações hoje. Afinal, ao perscrutar sobre os motivos daqueles que escrevem por dinheiro, não deixa muito espaço para os nossos escritores profissionais. Schopenhauer acha que, invariavelmente, quem escreve para ganhar algo com isso se corrompe de algum modo. Quem escreve por trabalho ou obrigação, às vezes se vê diante da iminência da página em branco, a ser preenchida, assim espreme pensamentos que não mereceriam, de outra forma, a posteridade e cumpre apenas um compromisso profissional. Para ele, o escrevinhador remunerado não acrescenta nada, por viver "tão somente da tolice do público" — o mesmo "que não quer ler nada além do que foi impresso no dia". Conseqüentemente, define os jornalistas (que também compara aos "diaristas", buscando na ocupação o que ela tem de mais pejorativo).

E Schopenhauer, seguindo essa lógica, acaba com os autores de best-sellers (se o termo já existisse). Arremata: "Ora, a maioria dos livros é ruim e não deveria ter sido escrita". Complementando, como não poderia deixar de ser, com um aviso aos críticos muito complacentes, literários principalmente, uma vez que "para aquele a quem nada é ruim, nada é igualmente bom". Schopenhauer perde até algumas páginas com as publicações do gênero, enxergando (num mercado livreiro ainda incipiente) uma espécie de conluio entre editores e autores que, sem escrúpulos quanto à qualidade, só pensariam em subtrair do público "tempo", extraindo-lhe, primeiramente, claro, "dinheiro". 150 anos depois, essas conclusões continuam pertinentes. Além de se antecipar nisso em mais de um século, combate inevitavelmente os adeptos de pseudônimos — que já na Alemanha e na Europa dos 1800s se valiam do anonimato para criticar ou desmoralizar, quando covardemente não tinham coragem de mostrar a cara. Soa familiar? Como se se dirigisse a um determinado ser dessa subespécie, conclama: "Nomeia-te, velhaco! Pois quem é honesto não ataca sob máscara e capuz pessoas que passeiam com a face descoberta". Encerrando: "Atacar anonimamente pessoas que não escrevem de forma anônima é evidentemente uma infâmia".

Saindo dos termos gerais, e entrando nos específicos, Schopenhauer — seguindo a máxima de Mencken, segundo a qual todo escritor tem a obrigação de falar mal de seu país e de seus compatriotas — aborda o caso de seus contemporâneos e de seu idioma. Para ele, "a língua alemã é a única na qual se pode escrever quase tão bem como em grego e em latim". No entanto, a seu ver: "O verdadeiro caráter nacional dos alemães é a inclinação para o estilo pesado". Mostra-se útil, sobretudo, àqueles que ainda acreditam que o imperativo de se filosofar em alemão seja uma sacada de algum compositor popular... Assinala o prazer que os alemães têm por "períodos longos, pesados e enredados, com os quais a memória, totalmente sozinha, aprende pacientemente, durante cinco minutos, a lição que lhe é apresentada, até que por fim, na conclusão do período, o entendimento esperta, e os enigmas são resolvidos". (Certa vez até houve um auto-intitulado filósofo que levantou a bandeira do português possuir essas mesmas propriedades, mas, como não parece ser uma idéia original, de novo, provavelmente não merece ser considerada.) Schopenhauer se bate com mais força, contudo, contra o que classifica como um empobrecimento da língua, ao assistir à supressão de vocábulos por parte de seus colegas escritores. Para quem conhece alemão, dá o exemplo da preposição "für", que, em inglês, poderia ser grosseiramente aproximada por "for" — quando existem outras muito similares (no uso) mas não iguais: "to", "about", "of", etc. (quem estudou sabe das dificuldades desse tópico). Schopenhauer lamenta que por preguiça ou acomodação os escrevinhadores tenham se rendido ao "für" (para), mais ao alcance da mão, quando, na verdade, deveriam procurar o sentido mais exato e amplo. Analogamente, aborda o caso do passado simples e do passado composto (sem equivalentes para nós).

E quais são os conselhos (entre aspas) de Schopenhauer para quem quer se lançar ao ofício de escritor, mesmo sabendo dos percalços, dos desenganos e das frustrações? (Vale lembrar que o livro não tem uma conclusão edificante.) Primeiro, ter estilo. É dele esta frase lapidar: "O estilo é a fisionomia do espírito". E o estilo, obviamente, se amarra à obrigatoriedade, tão ou mais importante, de se ter assunto: "a primeira regra do bom estilo, que por si só já é quase suficiente, é a de ter algo a dizer" (grifo dele). Schopenhauer condena, como todo mundo hoje, o estilo empolado (embora nem todo mundo hoje siga essa diretiva): "assim como se reconhece o plebeu por um certo luxo no modo de vestir [...], reconhece-se a cabeça comum pelo estilo precioso" (ou preciosista). Alerta: "não há nada mais fácil do que escrever de maneira que ninguém entenda". E coroa: "é sempre a onipresença do espírito em todas as partes que caracteriza a obra do gênio". Depois, ao contrário da vasta maioria dos conselheiros de plantão, não acha que ler muito seja necessariamente bom — e justifica essa assertiva: "quanto mais se lê, menos vestígios deixa no espírito aquilo que se leu: a mente transforma-se em algo semelhante a uma lousa, à qual encontram-se escritas muitas palavras, umas sobre as outras". E para os que reclamam da falta de tempo para ler (mas não para assistir televisão): "Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar o tempo para lê-los". Como fecho, soam belas as suas colocações — mas cumpre voltar ao início e retomar o fato de que esse Schopenhauer, cansado da vida, tenha como impulso maior o desejo de calar os maus escritores e de incentivar o culto aos bons. Ele não era populista; era elitista. Ele não tinha uma atitude inclusiva; mas, sim, exclusivista. E por mais antipática que essa postura soe hoje — um tempo de escritores brotando pelos cantos, como fungos a partir do mofo —, é essa a maior lição a se tirar de Sobre o ofício de escritor.

"O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrigível plebe da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, preenchendo todos os espaços e sujando tudo, como as moscas no verão."
Arthur Schopenhauer

Para ir além





Julio Daio Borges
São Paulo, 9/9/2005

 

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