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Segunda-feira, 16/5/2005
Nós, os escritores derrotados
Marcelo Maroldi

Eu sempre tive pouquíssimas certezas na minha vida. Uma delas era a certeza de que me tornaria um escritor... As primeiras lembranças de minha existência me remetem a sala de aula da primeira série na escola pública onde estudei, e eu lendo a cartilha. E lembro que ia semanalmente à biblioteca municipal aos 7 anos, como já citei aqui no Digestivo. Não sei precisamente quando e nem o motivo, mas os livros monopolizaram grande parte da minha vida, fizeram-me escravo das palavras e minha certeza primeira ia se fortalecendo, crescendo no meu peito sonhador. Não havia nenhuma dúvida! Mas jamais alguém soube disso... só eu mesmo. Era como se tivesse feito um pacto com alguém superior e eu tivesse tanto convicção do que me tornaria escritor que não precisaria correr atrás do meu sonho, não era importante compartilhá-lo, pois ele estava ali me aguardando e era questão de tempo até se consolidar e as pessoas verem o resultado... e ninguém iria assassinar meu maior sonho!

Aos sete anos, ainda, escrevi meu primeiro poema, lembro de um dos versos até hoje... Depois não parei, até que aos 17 anos escrevi meu primeiro livro, já com mais seriedade. Era um romance que hoje classificaria como existencial, e que me fez acreditar no meu suposto destino. Sem ajuda de ninguém e sem que nem um outro ser humano soubesse, imprimi 3 cópias e enviei a 3 grandes editoras brasileiras. Até hoje eu mal sei o que é uma editora, então escolhi pelo nome, pela fama, pelo tamanho. Uma delas jamais respondeu. As outras, sim. Uns 7 ou 8 meses depois, recebi um telefonema de uma pessoa. Queriam conversar a respeito da obra. Disseram explicitamente que iam publicar... E então, ruma à capital o menino do interior, sem que sua mãe desconfie. Na primeira reunião, ouvi: nossa, não esperava alguém tão jovem... ninguém aos 17 anos escreve assim... Hoje rio disso... No começo, pediram para eu mudar algumas "coisinhas", como nomes dos personagens. Concordei, não vi problema nisso. Depois, começaram a querer que eu refizesse parágrafos inteiros... a pressão editorial foi aumentando e já falavam em mudar o final... Um pouco desanimado, mas ainda entorpecido pelo perfume do sonho de escritor, ia aceitando (nessa época, não tinha muita convicção do que desejava publicar). Assinei algo como um pré-contrato que dava prioridade a eles se quisessem publicar meu livro naqueles próximos 5 anos (que tolice a minha!). Até que um dia vieram dizer que, sendo eu jovem, desconhecido e tendo uma obra tão "seca e dura" (isto é, pouco comercial), eu teria que investir na publicação da obra... Eu não tinha dinheiro para um sorvete, e, ainda que tivesse, não sei se teria aceitado. Só sei que virei as costas e voltei para casa, totalmente derrotado. Não é fácil dizer isso, mas um pedaço de mim morreu naquele dia... Até hoje lembro da cara dessas pessoas, mas me permiti esquecer seus nomes, os nomes de suas empresas, etc., e fiquei só, cozinhando meu primeiro grande revés em fogo baixo, em uma chama bem pequena e lenta, eterna... Lembro muito bem dessa volta para casa... (a propósito, a outra editora também quis publicar meu livro, por isso a primeira me fez assinar um pré-contrato).

Os meses seguintes ao fato foram terríveis... Então, recém completos 19 anos, ingressava na Universidade de São Paulo(USP), onde cometi a incomensurável estupidez de estudar ciências de computação. Meu primeiro ano foi difícil, talvez o mais difícil de toda minha vida... Por mais que eu tentasse, só uma lembrança ocupava minha mente, só uma idéia conduzia minha vida, eu era, ainda que debutante na vida, um fracassado. Afastei-me dos livros, das pessoas, do meu próprio livro. Não tinha cópias impressas, apenas no computador, o que facilitou sobremaneira a exclusão daquela prova factível de minha condição (mas, se um dia contar esse fato aos meus netos, direi que o queimei no quintal, pois é muito mais poético).

Um ano depois resolvi reagir. Esqueci dessa conversa de ser escritor... E deixei de ler e escrever. E só voltei a fazê-lo quando me apaixonei, e naquelas separações ordinárias que descreve tão bem o Fabrício Carpinejar, escrevi uns poemas. Terríveis, aliás... creio que meu cérebro fora lesado no episódio supracitado. Fiquei sozinho, com minha predileção pela chuva, pela madrugada e pelas histórias de velhos. Só alguns anos depois retornei a leitura... (ainda na universidade, estive próximo de publicar um livro técnico, mas aquilo foi uma bobeira de minha parte que nem menciono e considero).

Voltei a escrever há uns 2 anos... Precisava voltar a confeccionar frases ou não sei o que seria de mim! Já tinha uma idéia e um título: Confissões de um jovem arrogante. Que belo título! Eu compraria um livro que tivesse um título desses, mesmo que o escritor fosse um derrotado (bem, acho que isso não é possível, pois um escritor derrotado não publica). Mas logo vieram os problemas... as confissões não poderiam ser feitas, pois eram íntimas demais. E eram tão arrogantes! Se escrevesse o livro, teria que mutilar tantas partes boas que desfigurariam toda a obra... Ai, Deus... isso não tem fim?

Outras idéias vieram, novas páginas foram escritas, muitas delas apaguei... e começou tudo de novo. Diferente da primeira vez, não enviei cópias às editoras... Confiei num sonho! Eu, que tenho uma visão freudiana do sonho, tive uma alucinação (ou sonho) que me apontou um nome de uma editora. Puf... foi incrível! Acordei e ela estava na minha mente, prometendo que me levaria as livrarias do país, onde a falsa intelectualidade vai "ler" e bebericar café, citando nas rodinhas escritores arrogantes recém surgidos (sic) e que escrevem em blogs formidáveis que ninguém jamais lê. Não, leitor, não sei dizer se foi a tequila a autora do sonho... Sei apenas que imprimi uma única cópia e enviei. Não precisava correr atrás disso (mais uma vez!), afinal, eu houvera sonhado! Dessa vez sim era questão de tempo... 60 Dias depois recebo uma carta (que, para quem não sabe, já demonstra a derrota de quem enviou um original para análise). Eu não me enquadrava na linha editorial deles. Curioso isso, qualquer coisa que se faça eles enviam a mesma carta. Você pode ser péssimo, você pode não se encaixar na linha editorial deles, eles podem já estar com a programação completa, podem só publicar autores consagrados, não importa! Você sempre está fora da linha editorial deles... O sonho errara! Diabo! Não é possível... Ai, Deus... isso não tem fim?

Todos os dias surgem novos escritores derrotados. Alguns devem ser bons, mas serão sempre derrotados, até que a linha editorial os obrigue a trabalhar em um escritório qualquer ou abrirem uma loja de roupas, esquecendo-se de que um dia ousaram tentar publicar. Infelizmente, são sempre os mesmos que estão na livraria e lá não há espaço para derrotados. Os problemas são muitos e aqui no Digestivo Cultural o assunto é sempre abordado. Alguns escritores derrotados sonham em ter sua própria editora... E, então, daqui uns anos dirão a nova geração de escritores derrotados: venha retirar seu original, você não se encaixa na nossa linha editorial. O ciclo se fecha... E eu me respondo: sim, isso não tem fim. Ah, perdoe-me, leitor, eu nem me apresentei: meu nome é Marcelo Maroldi e eu sou um escritor derrotado... E joguei fora as minhas certezas lá em cima, aos 17...

Nota do Autor
Copiei descaradamente o título dessa coluna do Julio Daio Borges, que escreveu "Nós - os jornalistas de alma vendida" (outra coisa, aliás... só roubei o título mesmo). Ela iria se chamar "Confissões de um jovem arrogante" e ter continuação, mas já não tenho muito a dizer...

Nota do Editor
Sobre o mesmo assunto, leia também "Os desafios de publicar o primeiro livro", de Luis Eduardo Matta.

Marcelo Maroldi
São Carlos, 16/5/2005

 

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