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Terça-feira, 24/5/2005
Uma questão de ética editorial
Luis Eduardo Matta

Mercado editorial. Seara misteriosa, imprevisível, por vezes hostil, repleta de desafios e obstáculos que podem parecer intransponíveis. O mercado responsável pela consagração de nomes que, um dia, irão tocar o coração e a mente de muitos leitores - e quem sabe até mudar-lhes positivamente o rumo da vida - é o mesmo que, de forma taxativa e impiedosa, fecha as portas aos inéditos, aos desconhecidos, àqueles a quem não foi dada uma oportunidade de aparecer e dizer a que vieram.

Em março de 2004, publiquei, aqui no Digestivo Cultural, um artigo sobre as dificuldades dos novos escritores em conseguir um lugar ao sol dentro do fechado e seletivo mundo das editoras. O artigo encontrou alguma repercussão e, desde então, venho recebendo inúmeras correspondências de pessoas solicitando maiores informações e até pedindo a minha ajuda para publicar os seus contos e escritos. Resolvi revisitá-lo agora, não somente por considerar que o tema merece ser continuamente abordado, como também para levantar um ou outro ponto que, por alguma razão, não foi tratado no artigo anterior.

Tentar publicar no Brasil é, via de regra, uma desgastante via crucis para um autor inédito. As editoras não são tantas assim, a maioria não é suficientemente capitalizada para investir maciçamente em novos talentos, e as que são impõem restrições tão grandes à publicação de escritores desconhecidos, que furar o bloqueio imperante nos seus departamentos editoriais, ser lido por um parecerista preparado e imparcial e conseguir, ao cabo de meses intermináveis, ter o texto aprovado, torna-se quase tão improvável quanto escalar o monte Aconcágua até o topo, no inverno, a pé, de costas e dando piruetas durante uma tempestade. Existe, é claro, um excedente de originais; são dezenas que aportam mensalmente nas principais editoras e, naturalmente, a maioria não será publicada, obedecendo à velha lógica do copo que tem capacidade para receber uma quantidade limitada de líquido; se o volume se exceder, ele transbordará. No caso específico dos originais, pesa ainda o fato de que uma parcela considerável deles - que segundo alguns especialistas ultrapassa os 95% e, muitas vezes, beira a totalidade -, tem uma qualidade que vai de duvidosa a sofrível, o que transforma as suas chances de serem lançados por uma editora comercial em algo bem próximo de zero.

É difícil se firmar como escritor em qualquer lugar do mundo e, mais ainda, num país como o nosso, cujo acanhado mercado de livros ainda está para ser construído. Temos no Brasil, na maioria das escolas, um péssimo ensino de Literatura - um ensino burocrático, maçante, excessivamente didático, que tortura os alunos com a leitura forçada de livros, posteriormente cobrados em provas arcaicas e incompreensíveis. As escolas brasileiras formam, todos os anos, um enorme contingente de jovens com ostensiva aversão aos livros e que, no decorrer da vida, só recorrerão a eles, quase sempre, em caso de necessidade profissional. A escassez de bibliotecas decentes, um letárgico sistema de distribuição nacional e a desvalorização do livro, no seio da sociedade, como opção de lazer complementam o triste quadro. As tiragens, por aqui, são baixas e, na maior parte das vezes, não ultrapassam os três mil exemplares, a maioria dos quais ficará encalhada nas editoras e livrarias sem encontrar comprador. Mesmo autores de renome, consagrados pela crítica e sempre presentes nas páginas da imprensa, vivem o drama da venda minguada dos seus livros e, não raro, precisam de um emprego para sobreviver. Esse panorama desanimador deixa, com boa dose de razão, os editores bem pouco entusiasmados com a perspectiva de descobrir e bancar a primeira edição de um autor novo, cuja consagração não será, com raríssimas exceções, imediata. Um escritor precisa de tempo para refinar seu estilo e consolidar seu nome. Pode levar anos e vários títulos publicados até o seu pleno reconhecimento pelo público e crítica. Quantos escritores não estouraram no seu quarto, quinto livro? Se um editor, lá em algum lugar do passado, não lhes tivesse dado uma chance, eles não teriam tido meios de crescer no seu ofício e jamais atingiriam a maturidade e a fama. Esse grande dilema permeia toda a atividade editorial. O autor anônimo de hoje poderá ser o best-seller ou o mestre de amanhã, mas ele precisa ser descoberto em algum momento. Do contrário, a Literatura não caminhará para frente e ficará se alimentando só do que já existe.

Hoje, com as novas tecnologias, é possível imprimir um livro em baixas tiragens, investindo bem menos recursos e também divulgar e vender de forma mais dinâmica, sem necessariamente precisar recorrer às poucas e caras alternativas que prevaleciam quinze anos atrás. É uma boa opção para editoras que não querem gastar muito e que, ao mesmo tempo, sentem que a Literatura precisa de sangue novo. Afinal, sem essa renovação, ela acabará se convertendo num panteão de cânones, estrelas de um passado que pouco dialoga com o nosso presente cada vez mais veloz e urgente. É papel das editoras lançar novos talentos promissores e, é lógico que, no meio das pilhas de originais que chegam todos os anos há, pelo menos, uma meia dúzia que mereceria ser seriamente considerada e, quem sabe, publicada. Esta, porém, não é uma preocupação dos departamentos editoriais. Conforme eu já tive a oportunidade de dizer no meu outro artigo sobre o tema, os setores de triagens de textos inéditos nas editoras são pouco habilitados para avaliar com eficiência o trabalho de um autor desconhecido e, em geral, os originais são descartados sem que seja empreendida uma análise mais atenta. Muitas vezes, os autores ficam meses esperando por uma resposta que nunca chega. E poucas coisas são mais angustiosas para um escritor do que essa espera interminável, acompanhada de um silêncio que denota indiferença e desprezo por meses de trabalho dedicado a uma obra literária que, para ele, tem um valor enorme.

Por outro lado, há que considerar que uma editora, por ser uma empresa com orçamento, diretrizes e compromissos os mais diversos, não tem, a rigor, qualquer obrigação de publicar um autor inédito e, nem mesmo de ler os seus originais. Afinal de contas, a leitura crítica de um livro, com direito a um parecer, custa dinheiro e nem todas as editoras podem se dar ao luxo de investir uma fatia considerável do seu caixa nessa tarefa. Existe, no entanto, uma questão ética neste caso, que muitas vezes é ignorada pelos editores. Uma editora não existe sem os escritores. Pode acontecer de autores prescindirem das editoras, mas o contrário é impossível. A maioria dos escritores hoje consagrados - e, conseqüentemente disputados a tapa pelas editoras - foram anônimos um dia e tiveram de trilhar um caminho duro até a notoriedade. Ora, se uma editora necessita dos autores para existir e prosperar, o mínimo que se pode esperar delas é uma atitude de respeito pela classe em geral e isso inclui os hoje anônimos que poderão se tornar os futuros notáveis. E é justamente isso - respeito - o que menos se vê por parte das editoras quando o assunto é autor inédito.

Uma editora não quer publicar os escritos de um escritor estreante? Ótimo. Então, por que não deixar isso claro desde logo? Hoje, temos o advento da internet. Muitas editoras mantêm sites e não custaria nada reservar um pequeno espaço para deixar uma mensagem publicada, avisando que não estão recebendo textos não-solicitados (algumas, justiça seja feita, já fazem isso); caso isso não seja suficiente e, ainda assim, o autor decida postar seus originais, a editora, ao recebê-los, poderia responder automaticamente, por e-mail, na hipótese de o autor anexar à sua correspondência um endereço eletrônico (o que não traria ônus algum) ou por meio de cartas padrão, que poderiam ser até xerocadas, agradecendo a remessa do material e comunicando que, no momento, não estão avaliando novos trabalhos. Seria uma despesa irrisória que pouparia muitos meses de expectativa e dores de cabeça aos autores. Afinal, antes uma recusa imediata do que uma espera sem fim.

Tudo isso, longe de configurar um gesto altruísta das editoras para com os candidatos a escritor, sinalizaria um mínimo aceitável de respeito em relação a um profissional do qual as editoras dependem vitalmente para funcionar. Trata-se, volto a dizer, de uma questão ética. O ideal, no entanto, seria que as nossas casas editoriais tivessem um sistema eficiente de avaliação de originais e que o mercado fosse maior e mais dinâmico a ponto de acolher decentemente novos autores de tempos em tempos. Mas, aí já estaremos entrando no terreno da utopia e dos sonhos de um universo livreiro ideal, que ainda precisa ser consolidado por todos nós que trabalhamos, pensamos e nos preocupamos com os destinos do livro no Brasil.

Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 24/5/2005

 

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