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Terça-feira, 7/6/2005
Cinema brasileiro em debate
Daniela Castilho

Fui assistir ao Primeiro Seminário de Cinema e Marketing, promovido pela Cine Tela Brasil, pela CCR (Cultura nas Estradas) e pela Buriti Filmes, de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi.

Os palestrantes eram: Valmir Fernandes, presidente do Cinemark, José Carlos Ribeiro de Oliveira, diretor geral da Warner no Brasil, João Leiva, da JLeiva Marketing Cultural, Marco Quatorze, diretor de marketing da Claro Celular, Paulo Camossa Jr., diretor geral de mídia da AlmapBBDO, Francisco Bulhões da CCR, Luis Cássio de Oliveira, diretor de marketing da Visa e Fabiano Gullane, produtor de cinema de Carandiru e de Durval Discos.

O evento foi muito bem organizado, o local escolhido (o Museu Brasileiro de Escultura) é belíssimo e tivemos um excelente coffee break com direito a café, brownies e sanduíches de queijo com algas - que salvaram meu dia, porque eu não tinha almoçado, entre dar aula de fotografia de manhã e ir direto para o seminário à tarde.

As palestras foram excelentes - e agradavelmente surpreendentes.

Confesso que não sabia bem o que esperar do evento. Como profissional da área, participante de diversas listas de discussão sobre o assunto - algumas delas só para profissionais - e leitora de diversos blogs de cinema, sei que o debate sobre produção, formas de patrocínio, distribuição e exibição de filmes brasileiros é sempre acalorada, polêmica e cheia de opiniões contra e a favor.

Fiquei "sondando", escutando, anotando - eu queria muito descobrir qual era a opinião real: o cinema brasileito vai decolar ou não?

Valmir Fernandes, do Cinemark, abriu o seminário. Forneceu dados bastante impressionantes sobre o público - brasileiro é mesmo apaixonado por cinema, somos o décimo país do mundo em quantidade de salas de cinema, com cerca de 2000 salas, gerando uma receita de US$ 262 milhões anuais - e depois mergulhou no ponto nevrálgico da questão: por que cinema brasileiro ainda não dá lucro em bilheteria? Por que é tão difícil distribuir e exibir os filmes que ficam prontos?

Valmir - que muito gentilmente me cedeu alguns minutos de seu tempo durante o coffee break para explicar alguns pontos de sua explanação que eu não tinha compreendido bem - lançou várias respostas interessantes: o cinema brasileiro ainda não dá lucro em bilheteria, encontra problemas de distribuição e exibição porque a maioria dos filmes produzidos não têm apelo comercial, não são filmes box office nem filmes de entretenimento. O brasileiro adora filme brasileiro, especialmente fora do eixo das grandes capitais, mas... onde estão os filmes de entretenimento com "cara de Brasil", formatados para divertir apenas, para uma sessão de matinê de final de semana?

O Brasil tem um grande amor pelos filmes de arte - Valmir falou que o Brasil é um dos maiores mercados mundiais do cinema de arte - produz muitos filmes de autor e filmes de arte, mas quase nenhum filme de entretenimento. O que as distribuidoras e as salas de cinema querem são mais filmes box office - o que faz muito sentido, na indústria americana são os filmes de verão e os box office que permitem que os diretores possam também realizar filmes artísticos e de cunho autoral. Os filmes de grande bilheteria dão dinheiro e confiança aos estúdios e aos patrocinadores para que o diretor tenha carta branca para realizar os filmes que quiser. Spielberg não teria feito A Lista de Schindler sem primeiro fazer Tubarão ou E.T., por exemplo.

José Carlos Ribeiro de Oliveira, da Warner, falou do desempenho de bilheteria dos grandes filmes internacionais no Brasil e da questão do merchandising em filmes, deixando muito claro que grandes empresas - ele citou como exemplos Coca-Cola, Pepsi, Nike, Motorola, Apple, Ford e Avon - investem, sim, na produção de filmes e querem investir ainda mais.

Marco Quatorze, da Claro Celular, mostrou exemplos de ações de marketing das quais a Claro já participou e os filmes e festivais nos quais já investiu, reforçando a idéia de que investir em cinema tem sido excelente para a empresa.

João Leiva, da JLeiva Marketing Cultural, falou que existem muitas empresas que querem patrocinar a produção de filmes mas esbarram na dificuldade da falta de política cultural consistente e nas dificuldades do processo de patrocínio. Durante o coffee break ele me disse que o governo precisa estabelecer urgentemente uma política fixa com relação às leis e projetos de incentivo e patrocínio; falou que a grande questão não é se teremos Ancine ou Ancinav nem quais serão as quotas que cada lei de incentivo oferecerá e, sim, estabelecer uma política com regras claras e fixas; que não fiquem mudando de mês a mês, como acontece hoje. Segundo ele, é essa instabilidade que atrapalha e faz com que os patrocinadores tenham dificuldades e dúvidas com relação aos investimentos.

Ainda durante o café eu conversei dois minutos com Ícaro Martinez, da Aclara Produções. Ele me disse que a ampliação desse debate sobre a indústria nacional de cinema é muito importante. A discussão até hoje tem ficado restrita aos círculos de profissionais da área, legisladores e empresas que já patrocinam o cinema: é necessário que todas as pessoas participem do debate, auxiliando a estabelecer que modelo de trabalho poderá ser popularizado. As pessoas comuns, fora desse circuito especializado e restrito, precisam se declarar a respeito do assunto, dizendo o que pensam do cinema nacional e o que gostariam que acontecesse.

No segundo tempo, após o café, Paulo Camossa Júnior, da ALMAP-BBDO, elogiou as produtoras especializadas em formatar projetos de patrocínio; disse que a qualidade dos projetos aumentou muito nos últimos anos, que os projetos têm sido entregues com orçamentos claros, detalhados e objetivos, qualidades importantes para convencer os possíveis patrocinadores.

Luis Cássio de Oliveira, da Visa, contou que os resultados obtidos pela empresa superaram muito a expectativa inicial - quando a Visa se propôs a oferecer a seus clientes que comprassem ingresso de cinema no cartão de crédito, estimava vender 150 mil ingressos em seis meses; vendeu mais de um milhão e meio.

Francisco Bulhões da CCR também declarou que sua empresa está muito satisfeita com o retorno que tem obtido ao patrocinar projetos de cinema e pretende ampliar suas ações. A CCR é a empresa que apóia e patrocina o projeto Cine TelaBrasil de cinema itinerante, projeto da Buriti.

Finalmente, o produtor Fabiano Gullane, em sua vez de falar, enfatizou que agora "é a hora do amadurecimento do cinema como negócio" e que é necessário estreitar o relacionamento com os investidores e trabalhar o mercahndising para que em um futuro próximo o cinema nacional não precise mais depender de leis de incentivo.

O coro é uníssono: cinema é um bom negócio, as empresas querem colocar dinheiro em cinema. Querem fazer ações de marketing, merchandising, patrocínio. Só precisam de uma política do audiovisual mais consistente, com regras claras e que permitam que elas invistam o dinheiro de forma segura - seja através de leis de incentivo ou de patrocínio direto. Cinema é business e um excelente business.

O debate está aberto.

Só para informação
* A China é o maior mercado mundial de cinema, com 34.496 salas de cinema, seguida pela Índia, com 12.000 salas de cinema.

* Bollywood hoje produz mais filmes que Hollywood, liderando o ranking mundial.

* Os USA possuem 36.594 salas de cinema.

Small Talk na pausa para o café
* O filme exibido era Cabra Cega de Toni Venturi. Conversei um pouco com ele sobre cinema - of course - e descobri que Monsieur Toni é um gentleman.

* Valmir Fernandes me impressionou: veja bem, ele nunca me viu na vida nem tinha a menor idéia de quem eu podia ser e o homem é apenas o presidente da Cinemark. Monsieur Valmir conversou comigo mesmo assim e respondeu minhas perguntas com toda a simpatia. Finíssimo, finíssimo.

* Outro que foi finíssimo comigo foi o João Leiva. Adorei.

* Não consegui pescar o Mr. Warner, pena, pena. Eu queria TANTO falar com ele! Mas ele desapareceu.

* Um produtor me segredou que uma das coisas que atrapalha a distribuição dos filmes brasileiros é o esquema das distribuidoras presentes no Brasil, que privilegiam os filmes internacionais, não se interessam pelos filmes nacionais e formam grupos em defesa de seus próprios interesses.

* Outro produtor reclamou dos grandes cartéis de empresas de telecomunicação, apontando esses cartéis como um dos grandes obstáculos ao crescimento do cinema.

* Um terceiro produtor reclamou abertamente dos "esquemas" de patrocínio: ele defende que o cinema brasileiro deveria ser mais comercial, menos "metido a intelectual" e que deveria buscar o lucro, como é em muitos países.

Daniela Castilho
São Paulo, 7/6/2005

 

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