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Quinta-feira, 16/6/2005
Blog é coisa séria. Já a Veja...
Rafael Lima

Atrasado mais de uma semana, não vou perder a chance de comentar a reportagem - com direito a chamada na capa, pois não - da Veja sobre blogues. Há dois erros de ponto de vista fundamentais na abordagem adotada. Primeiro, acreditar que os blogues ganharam relevância apenas ao encarnarem o papel de "arma dos dissidentes políticos" e fonte de informação "estratégica" para as empresas. Segundo, por ter se valido apenas de exemplos estadunidenses no levantamento dos fatos; os únicos brasileiros citados foram o Alexandre Soares Silva, além de dois colunistas políticos de um jornal carioca, péssimos exemplos aliás, porque sua relevância jornalística não foi nem depreciada, nem melhorada por causa dos blogues - e desses três, apenas o endereço do primeiro foi dado.

O primeiro erro é conseqüência daquela miopia que só vê valor no que consegue medir: quando blogueiros começaram a cobrir a reeleição de Bush ("apoiaram candidaturas, trouxeram à luz notícias quentes"), interferindo, talvez, na opinião pública, ficou fácil perceber onde essa ferramentinha poderia influir no mundo dos negócios - só que isso acontecia desde antes, desde que as correntes de diálogo se estabeleceram entre os escritores de blogues, comentando qualidades de serviços e produtos, de maneira quase imperceptível, mas clara o suficiente para que Hernani Dimantas ficasse insistindo com aquele papo de "escovar os mercados".

O segundo erro é crasso quando se descobre que a blogosfera brasileira já tem história e relevo o suficiente para gerar uma reportagem própria: por que não falar da denúncia de plágio a Afonso Arinos no discurso de renúncia de ACM, denunciada pelo Catarro Verde; pelos processos movidos contra o Cocadaboa (pela Coca-Cola) e Amarula com Sucrilhos (pelo licor de marula); da chegada dos Wunderblogs ao livro, pela Barracuda, ao invés de ficar tagarelando que "profissionais como o americano Steve Rubel monitoram a internet para saber o que os blogueiros estão dizendo sobre seus clientes" ou que "a General Motors mantém páginas do gênero para estreitar o relacionamento com os clientes", como se os exemplos estrangeiros fossem mais maduros do que os brasileiros? Por que não focar a experiência brasileira, que fez uma brilhante transposição do Blogger, lembrando que o Blogger Brasil quando foi lançado era, na verdade, um upgrade do Blogger, ou notar que existe um sistema nacional que mede a popularidade das informações em blogs, o Toplinks, a exemplo dos citados Technorati e o Memeorandum, e do esquecido Blogdex? Por que não entrevistar gente que conhece o meio há mais tempo e por dentro, como o próprio Hernani, o Hiro ou o Bernardo? Mas como se sabe, o Brasil fica muito, muito longe.

A reportagem em si nem é mal escrita nem mal estruturada, mas escorrega fatalmente aqui e ali - a primeira vez é logo na abertura, ao usar o aposto "diários da internet" atrelado a blogues. Tendo uma chance de explicar de maneira mais inteligente o que é a ferramenta - por que até agora ninguém fez analogia com a seção Tempo Real ou Último Segundo dos jornais on-line? - escolhe por recair no famigerado lugar comum dos diários, uma comparação tão limitada quando a que vê na tela do monitor uma versão virtual da mesa de trabalho (desktop). Que eu saiba, estuda-se McLuhan na faculdade de jornalismo exatamente para entender a diferença entre os meios de comunicação, e não para achar que a internet é uma versão turbinada de jornais, rádios e televisões. Não é, por causa dos hyperlinks e da interatividade; o mais espantoso é que esses dois são citados no texto, mas sua importância não parece ter sido notada. E além de escorregar, entrega-se a platitudes que não chegam a lugar nenhum, como "desde que surgiu, a internet foi saudada como a ferramenta ideal para que qualquer um pudesse divulgar suas idéias", "'Blog é, antes de tudo, atitude' [sic], resume o executivo Marcello Póvoa" ou a simplificações incorretas, como atribuir a invenção dos blogues a Evan Williams e Jason Shellen, que apenas criaram uma ferramenta de atualização instantânea de páginas na internet absurdamente popular, o Blogger, mas não inventaram o conceito de forma alguma. É como dizer que Sílvio Santos inventou a televisão no Brasil - ou assumir que "cada texto postado num blogue vem acompanhado de uma janela para que os leitores façam comentários", esquecendo que muitos dos melhores blogues em atividade não tinham ou não têm janela de comentários. Mesmo a afirmação de que um traço comum "entre os blogueiros que se destacam é a ânsia em falar e ser ouvido" é questionável, tem muita gente que se contenta em falar sozinho na maioria do tempo, ou para meia dúzia de amigos próximos.

Mesmo que vez por outra o jornalista consiga dar uma bola dentro, como na distinção entre linkers e thinkers (ainda que esqueça de dizer que não, não são complementares), o tom geral é de último-a-saber-das-coisas, que só presta atenção quando elas invadem o mundo corporativo, normalmente já assimiladas, típico da Veja - que falta faz a crítica semanal no Mario AV nessas horas. Ao menos, o autor reconhece uma área onde os blogues estão fazendo a diferença: fiscalização da imprensa. A reportagem da Veja está aqui.

O mito da genialidade brasileira
Arnaldo Branco foi o primeiro a gritar: Pede pro cara explicar Cartola.

Depois veio: "A genialidade não é uma questão de educação, mas certamente passa pela influência do meio, do ambiente em que o sujeito vive e do grupo com o qual se relaciona."

A Scientific American está nas bancas com uma coleção chamada Gênios da Ciência, o número atual é o de Richard Feynman. Eu quero saber qual meio, qual ambiente, qual grupo relacional cria um Feynman. Não tem. Ou bem se atribui à genética, à probabilidade, ou esquece: não vai se criar um Feynman assim.

Só que isso não é argumento para esquecer a educação, o meio. A discussão original não era sobre genialidade, era tão somente sobre talento criativo, excelência; sobre a importância de um meio que disponha os recursos corretos tem na geração de talentos. E quando eu falo em geração, é geração em massa. Isso se pode garantir.

Mas aqui no Brasil, gênio é só Cartola, Noel Rosa, sobreviventes, artistas, intuitivos, nunca é um cara que estudou, pesquisou e trabalhou. Ninguém lembra de um César Lattes quando se fala em gênio. E as autoridades, seguindo essa linha intelectual - propositalmente ou não - nunca investem em fornecer os meios mínimos de sobrevivência, sempre apostam na geração espontânea e improvável de Ronaldinhos.

O resultado é conhecido: não aparece um Cartola por geração e ainda se criam centenas de meliantes no processo. Moral da história: vamos parar de esperar os Cartolas aparecerem - porque "gênio não se explica" - e tentar criar 3 Paulinhos da Viola por geração, o que é possível, e é muito melhor do que cem meliantes.

Ah, o Arnaldo. Não precisa bronquear, que eu dialoguei com ele e chegamos aos termos acima expostos.

Nota do Editor
Rafael Lima assina o blog Na Cara do Gol, onde estes textos foram originalmente publicados (reproduzidos aqui com sua autorização).

Rafael Lima
Rio de Janeiro, 16/6/2005

 

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