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Quarta-feira, 20/7/2005
Escrever bem e os 10 Mandamentos
Ana Elisa Ribeiro

Os 10 Mandamentos foram escritos numa coisa parecida com uma lápide, um naco de pedra marcado com ranhuras e cheio de regras sobre coisas que o bom senso poderia apitar, caso o indivíduo tivesse uns impulsos meio endiabrados.

Não matar e não desejar a mulher do próximo podem soar como versões da mesma coisa em determinados contextos. E nas páginas policiais de certos jornais, soam como o mais irreversível e contíguo dos cotidianos.

Se eu começo a escrever um texto e meto nele cinco ou seis expressões dessas que lembram os 10 Mandamentos, fico tão óbvia que passo a cometer um "pecado" do texto: o clichê. Os "erros" de ortografia ou de concordância podem ser ajeitados com um dicionário ou com uma consultinha numa gramática. As regências mais singulares podem ser consultadas numa obra específica, mas o clichê, não. O clichê é na cabeça do escritor. Alguns temas, tanto em vestibulares, quanto em concursos, e até mesmo nas escolas, são lançados para "pegar" quem não consegue produzir linhas menos óbvias. Falar de tabagismo e de aborto é tão difícil quanto falar de miudezas do genoma humano. Não é a linguagem técnica que oferece mil e um obstáculos ao entendimento e à produção, mas também a coisa comum pode colocar pedras no caminho. Como escrever um texto sobre fumantes e cigarros sem cair nas tarjinhas do Ministério da Saúde? Como falar em álcool sem dizer que embebeda e faz mal ao fígado? Como defender ou condenar o aborto sem falar em bebês despedaçados? É tão difícil que muita gente não consegue passar da segunda linha do caderno de pautas.

Mas existe originalidade? O que é ser criativo afinal? Bom, certos vultos da lingüística, assim como pensadores da linguagem e do discurso, defendem que todo discurso é permeado por outros discursos, portanto, a rigor, é impossível dizer algo que ninguém nunca disse ou tirar da cartola coelhos novidadeiros. O que existe é certa maneira peculiar de dispor palavras e idéias de forma a dar passos à frente, na direção de uma coisa que poderia ser o estilo. Também outros pensadores dizem que todos nós estamos incluídos demais na linguagem e nos discursos e, portanto, estamos contaminados das idéias, ideologias e até mesmo de uma forma de pensar que nos faz membros de uma comunidade. Assim é que ser original é ficção. E nem mesmo a ficção é original.

Mas entre ser criativo (no sentido possível) e ser plagiador há muita diferença. Plágio é quando alguém se apropria do texto do outro sem sinalizar ou sem deixar claro que aquilo é citação, apropriação, comentário, paráfrase. Plágio é evidente, assim como cópia. Já a citação e os outros meios de trazer à minha voz o discurso dos outros são iluminados com aspas, ironia ou um tom diferente do meu, mas que me ajuda a construir o meu discurso.

Entre os profissionais que trabalham com a linguagem são conhecidos e reconhecidos os jornalistas, os publicitários e os redatores em geral por fazerem uso dela de maneira a torná-la pública, dada a interações e a julgamentos. Os políticos são conhecidos pelo uso persuasivo e mentiroso dos argumentos e das explicações. Os poetas e escritores em geral são conhecidos pelo uso estético da mesma argamassa. Já os professores, especialmente os de Português, trabalham com a linguagem sobre a linguagem, são metalingüísticos por tradição, embora nem sempre o devessem ser. E os advogados também entram nesta categoria das pessoas que fazem da língua e da linguagem verbal seu ganha-pão e seu objeto de estudo.

E assim como vêem seus objetos de estudo por lentes específicas, cada um desses profissionais tem uma compreensão sobre o que seja escrever bem. É claro que um escritor, quando lê um romance, tem uma experiência estética que pode ser avaliada pela forma imprevisível com que o colega fez uso de certas expressões e da maneira pessoalíssima como expôs certas idéias. Já o jornalista quer ser claro na maneira de narrar, quer ser ajustado às necessidades de um espaço que lhe é imposto. O publicitário quer resultados bem-delimitados sobre o texto que produz. O professor de Português quer que os alunos saibam taxonomias sobre língua. E os advogados podem querer mostrar que escrevem difícil como se isso fosse garantia de que escrever bem.

Mas o que é escrever bem? É escrever com jeito alguma coisa que soe compreensível e relativamente clara para o leitor que se tinha em vista. Escrever é saber para quem, para quê, fazer um "como" pertinente e equilibrar conhecimento partilhado e alguma novidade. Não são necessárias expressões em latim ou sintaxes do século 18. Uma boa dose de bom senso também cabe nesta situação. Quem escreveu os 10 Mandamentos sabia direitinho como redigir uma lista de normas que funcionasse para muitas pessoas. Quem sabe coubesse mais um item: Não complicar quando se pode ser simples e eficiente.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 20/7/2005

 

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