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Segunda-feira, 25/7/2005
Televisão versus Internet: a disputa desnecessária
Marcelo Maroldi

Recentemente divulgou-se uma pesquisa que dizia que o brasileiro tem passado mais tempo na Internet do que assistindo televisão. Embora duvide que esses números estejam corretos e que, portanto, isso seja verdade, é um fato importante e inédito. Quando - e se - isso realmente ocorrer, teremos dado um passo rumo a um caminho novo e abandonaremos (será?) um objeto que tem monopolizado a atenção de milhões de pessoas diariamente em todo o mundo.

Antes de iniciar, vamos analisar brevemente a realidade brasileira frente TV versus Internet. Televisão, sabemos, é um item obrigatório em nosso país (e em muitos outros países, a propósito). O sujeito não tem geladeira, fogão ou o que seja que possa lhe melhorar a vida cotidiana, mas tem televisão (às vezes mais que uma, ainda que não tenha dinheiro para pagar a conta de energia). É o principal divertimento apontado pelas camadas de menor poder aquisitivo. Para essas pessoas, é apenas isso que a TV é: um instrumento de lazer, não de informação. Ela "foi" um instrumento de informação para a classe média e alta. Digo foi, pois, hoje, essas classes migraram para a Internet. Informar-se pela web é mais eficiente e mais rápido, e pode ser no intervalo entre um bate-papo no MSN ou outra atividade de lazer (ou não) que se deseja realizar. Exclusão social... Enquanto o usuário da TV precisa assistir ao Jornal Nacional para se informar, eu posso acessar o site da BBC, do MIT ou da NASA. É um passo adiante na aquisição da informação. Isso é segregação, certo? Sim, isso é segregação...

Enquanto devem existir no país, vejamos, 170 milhões de "usuários" de TV, temos pouco mais de 10 milhões de usuários de Internet. Aliás, esse número é superestimado. Eles contabilizam aquele menino da quarta série da escola pública que acessa o chat na aula de informática (monitorada por alguma ONG, a propósito, que chama isso de "inclusão digital", expressão do momento) uma vez por mês (e que nós sabemos, portanto, não usa a internet!). Mas, tudo bem, voltemos ao tema: por que essas pessoas passam mais tempo navegando do que vendo TV? Porque esse é o divertimento e o canal de informação da classe média atual. Televisão, para estes, está fora de moda. Enquanto na televisão você é um usuário totalmente passivo, na web isso não ocorre. Você pode ter um blog só seu, pode encontrar os amigos virtuais, ver quantos corações te deram no Orkut, etc. E pode, ainda, baixar o mp3 do Elvis cantando "My Way", pode ler o livro novo do Harry Potter (em russo, se quiser), pode mandar um e-mail para o presidente da república (embora ele não vá ler), pode estudar para sua tese de mestrado em neurociência. Você pode fazer tudo isso, mas poucos o fazem. Desses 10 milhões, 9 devem passar o seu tempo na Net batendo papo e repassando correntes sem sentido e veracidade. Pois é, trocaram a TV por isso...

E o que a TV tem feito em resposta? A TV tem investido (e muito) em novos formatos de programas, geralmente que envolvem a participação de quem assiste. Mas, logo verão (se já não viram) que isso é insuficiente. Quanto mais gente ganha a possibilidade de acesso à internet mais a TV fica de lado. Por que? Bom, porque, além de sermos ativos defronte o computador temos, na web, (quase) absolutamente tudo o que temos na televisão. Pela internet é possível saber precisamente o que ocorre na novela, no BBB ou no campeonato espanhol de futebol. E isso a hora em que eu quiser. Eu posso, inclusive, assistir esses programas pela internet, interrompendo quando quiser e continuando, se desejar, outra hora... A televisão só irá reconquistar seu público quando for possível ao telespectador montar sua própria grade de programação. Isto é, permitir que eu assista o capítulo da novela quando eu quiser, quantas vezes quiser e permitir que eu assista no domingo, por exemplo, todos os episódios da semana, sem gravação, apenas selecionando do controle remoto. Isso sim é revolucionário para a TV! E não irá demorar muito, aliás, já está acontecendo. Como tudo, entretanto, o que ocorre de novidade no mundo, alguns privilegiados terão acesso antes e outros, muito, muito depois, quando já tiverem inventando outra coisa mais incrível. Talvez, para usarmos a TV personalizada, precisaremos de um novo aparelho, mais moderno, ou adquirir algum aparelhinho que permita a seleção dos programas, ou, mais provável, pagar uma taxa a uma espécie de provedor de TV. E isso, o usuário atual de TV não poderá fazer... Mas não importa! A TV, ainda que avance outros concorrentes, continuará a existir por bastante tempo, ainda que altere seu formato atual.

Um outro aspecto nessa disputa entre TV e Internet parece ser o status adquirido pelos usuários do segundo. Muita gente diz, arrogantemente às vezes, que não assiste televisão. Isso parece dar um poder de superioridade a essa pessoa, uma superioridade intelectual principalmente, como se TV fosse lugar de gente burra (quem faz e quem assiste). Ok, leitores, eu preciso admitir que há muito mais inteligência fora da televisão do que nela, mas, a televisão é interessante. Ela pode estar péssima (TV aberta, principalmente), mas é uma invenção fantástica, nem tudo está perdido! Ontem mesmo revi um programa ótimo sobre livros (sim, sobre livros!) na TV Cultura. Ora, não é possível que quem não assiste TV não encontre nenhum programa de seu interesse, em especial se essa pessoa tem TV a cabo (opa, apartheid de informação/diversão de novo aqui, infelizmente). A televisão pode ser legal, sim... e esse texto seria totalmente dedicado a isso. Ia dizer, em principio, porque a televisão é legal pra mim e o que é legal, mas isso vai ficar para um outro dia. Mas eu não me acho ruim por assisti-la. Jamais conheci pessoalmente alguém que lesse mais do que eu, e eu assisto televisão! E conheço semi-analfabetos que não assistem televisão, pois dizem que a TV os deixa estúpidos (não é piada, creiam-me). Por que não posso combinar tudo? Televisão, internet, livros, cinema e o que mais eu quiser? (Falsos) Intelectuais rotulam certas coisas como inferiores e um grupo de desavisados abraça a causa, parece. Ir ao museu é bom, assistir Manhattan Connection é bom e cinema brasileiro também é bom. Se você não faz essas atividades, meu amigo, você não faz parte da elite cultural do país... ah, e não ouse dizer que assiste televisão, hein!

Marcelo Maroldi
São Carlos, 25/7/2005

 

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