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Terça-feira, 30/8/2005
Sobre as ilusões perdidas
Fabio Silvestre Cardoso

O escritor e jornalista Nelson Rodrigues tinha uma frase essencial sobre si mesmo. Frase, não. Era um epíteto, uma espécie de marca que o definia como personalidade. Sem mais rodeios, vamos a ela: "Eu não seria nada sem as minhas obsessões". Grosso modo, arrisco aqui a fazer um paralelo com o Anjo Pornográfico. Assim como ele, eu não seria nada sem minhas obsessões. Sou obsessivo e um obcecado por natureza. Note o Leitor, por exemplo, que já devo ter citado inúmeras vezes o livro que dá título a esta coluna: Ilusões Perdidas, do francês Honoré de Balzac. Como bom francófilo, sou um apreciador da cultura e da Literatura francesas, mas a referida obra do Napoleão das Letras me fascina mais do que qualquer outra coisa. Costumo utilizar suas passagens para definir e/ou ilustrar períodos em que a complexidade pede algo a mais, algo que está fora do meu escasso repertório analítico. Nessas ocasiões, tomo Balzac. É o caso do presente artigo. Na atual conjuntura política, o título "ilusões perdidas" parece cair como uma luva, de modo que não há como não sorrir, ironicamente, para os companheiros e companheiras, em meio ao fracasso que foi o governo do presidente Lula.

Antes que as patrulhas venham dizer que sou apenas mais um a repisar o que já foi dito e escarrado pela "grande imprensa que conspira contra o Lula", afirmo aqui que há tempos que este governo parece ter acabado. Desde quando começou a falar mais do que fazer; desde que começou a viajar mais do que falar (tendo, inclusive, comprado um avião para isso); desde que passou a demonstrar mais inaptidão que as piores expectativas dos críticos mais ácidos; desde quando tornou-se um motivo de chacota (ao dizer, por exemplo, que a "Aqui nem parece a África", ou que "queria aprender com um ditador como é que se fazia para ficar tanto tempo no poder", entre outras pérolas já célebres do bestiário nacional). Em outras palavras, para mim, há muito que esse governo já deu o que tinha de dar (reprisando, em todos os aspectos, a política econômica do seu antecessor, o criticado FHC). Contudo, esse não é a maior de todos os problemas.

As ilusões às quais me refiro não são de ordem administrativa. São, ao contrário, de ordem ética, de ordem moral. Afinal de contas, o Partido dos Trabalhadores era a legenda que possuía um valor no que se refere ao campo ético que nenhum outro partido tinha. Era, inclusive, elogiado por isso, até mesmo por muita gente que sequer era simpatizante da causa. Daí que quando o Roberto Jefferson explode (ele não era o homem-bomba?) e solta parte de um passado e todo um presente que condenavam o partido a frustração é o sentimento mais próximo, para não mencionar num ceticismo geral em relação à política. Num aspecto mais crítico, o PT se igualou aos demais naquilo que mais atacava quando era estilingue: a corrupção. Agora, por fazer parte desse episódio, a legenda que um dia representou a esperança de muitos intelectuais, jornalistas e da classe trabalhadora transforma o sonho em pesadelo, o sorriso em desespero, a comédia em tragédia.

É curioso notar, a propósito, o comportamento dos que são vinculados ao PT. Questionados acerca dos escândalos, nota-se como a reação mudou com o passar do tempo. Lembro-me que quando Roberto Jefferson apresentou as primeiras denúncias à Folha de S.Paulo muitos afirmavam - com veemência, como é de praxe - que o PT era, "mais uma vez, vítima de um complô da mídia para derrubar o Lula. Que a elite tinha excedido; afinal, era impossível ser verdade. Se fosse...não, com o PT não era possível". A soberba não permitia que se pensasse assim do partido do presidente da República, etc, etc, etc. O cenário mudou bastante depois do depoimento de Jefferson à Comissão de Ética, em 14 de junho. O encanto começava a se quebrar. De lá para cá, a ficha caiu para alguns; e, aos poucos, já existe um consenso sobre a gravidade do escândalo, ou seja, já não há como esconder a sujeira para debaixo do tapete.

Para os petistas, as ilusões se perderam nesse momento. Foi o fim da idade da inocência. Eles viram, então, que o mostrengo (ou O Ornitorrinco, como escreveu Francisco de Oliveira já em 2003) era mais feio do que eles imaginavam. Penso, no entanto, que o pior se mostrou tempos depois. Digo, o país ter perdido as esperanças com a quebra de conduta ética do partido do presidente da República, o mesmo que não corrompia nem deixava corromper, não é mais grave do que a condescendência geral à medida que as revelações são feitas. Ora, em meio a tantos escândalos, muitos dos quais foram confirmados, ainda existe quem prefira desqualificar a imprensa e os acusadores, em vez de atentar para a verdadeira raiz do problema. Isto é, fica mais fácil dizer que as informações foram mal-apuradas do que averiguar as denúncias estampadas nos noticiários. Há quem chame isso de cautela, pois um processo de impeachment, ou uma punição equivalente aos culpados, deverá ser severa se tudo for confirmado. Confesso que não me recordo de opiniões, digamos, relevantes das personalidades (os petistas célebres). Ainda assim, a mais notória foi a de Chico Buarque, que estava nas manchetes dos sites enquanto escrevia esse texto, para quem "o Brasil está com a alma ferida". Notem, Leitores, que, mesmo quando é feita, a tomada de consciência ocorre indiretamente, como se as palavras e os gestos pudessem camuflar os crimes (sim, porque erro, como querem alguns, é outra coisa) dessa incúria administrativa.

Assim também para a população, a noção de que nada deu certo parece, enfim, ter chegado. Tanto é assim que as pesquisas mostram a queda de popularidade do presidente da República, algo inimaginável há três meses. E talvez as cenas mais incríveis de tudo isso sejam, não há dúvida, as lágrimas dos parlamentares petistas quando souberam do depoimento de Duda Mendonça na CPI do Mensalão. De lá para cá, óbvio, o petismo deu um jeito de emendar o discurso e fazer a memória coletiva não se lembrar do ocorrido, mas é para lá de simbólico a forma como isso aconteceu. Em primeiro lugar, porque foi a partir das palavras da mesma personagem, o Duda Mendonça, que criou o slogan da esperança; em segundo, porque, até então, o discurso de defesa das acusações era tão contundente que aparecia sempre como um contra-ataque.

Se na obra de Balzac, o provinciano Lucien de Rubempré se frustrava à medida que conhecia a crueza da vida parisiense em contraste com seus sonhos e ideais, o mesmo pode ser dito a respeito de boa parte daqueles que acreditaram na "Esperança" proposta por Lula em 2002. Por hora, essas ilusões estão todas perdidas.

Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 30/8/2005

 

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