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Quinta-feira, 29/9/2005
Primavera dos Livros do Rio 2005
Cassiano Viana

Terminou nesse domingo (25), aqui no Rio, a quinta edição da Primavera dos Livros, feira anual promovida pela Liga Brasileira de Editores (Libre).

A Primavera não é um evento concorrido, cheio de marra e celebridade como a Flip, por exemplo. Os leitores estão ali pelos descontos; os jornalistas pelas "barbadas"; os autores pelo contato com os donos das editoras; os editores, por um espaço maior do que aqueles reservados nas Bienais de megastands.

Na quinta-feira, a Cristina Warth fez um retrospecto do evento, falando em consolidação. Angel Bojadsen (agora ex-presidente da Libre) foi direto e disse que o grande desafio pra qualquer editora é colocar livros nas livrarias (não é tão óbvio assim, leia os próximos parágrafos), informando que, em São Paulo (a Primavera terá sua versão paulista durante os dias 20 e 23 de outubro na OCA - Ibirapuera), será realizada uma assembléia geral da Liga, onde serão consolidadas propostas que indiquem qual o futuro desse segmento do mercado editorial no futuro.

Já Galeno Amorim, coordenador do programa Fome de Livro, do Viva Leitura e da Política Nacional da Leitura e de Bibliotecas Públicas, disse que as ações isoladas em todo país apontam a necessidade de construir uma política nacional do livro e da leitura. Para o representante do Ministério da Cultura é a pequena editora que garante a diversidade, pluralismo e riqueza editorial. Ele mesmo, em outros tempos, um pequeno editor (logo, um conhecedor das dificuldades dessa fatia do mercado editorial no país), anunciou um plano Pró-leitura que contemplará os próximos cinco anos e a perspectiva de 40, 45 milhões de reais em recursos anuais para viabilizar políticas públicas para o setor.

Tudo isso será anunciado, pelo que entendi, agora em dezembro, junto com uma agenda macro-política e a criação da tal Câmara Setorial do Livro, da qual a Libre já é um dos nomes e assentos garantidos. Essa, uma boa notícia.

Daí veio o melhor.

Os professores Fábio Sá Earp e George Kornis, economistas do Grupo de Pesquisas em Economia do Entretenimento da UFRJ, apresentaram os resultados do trabalho realizado sob encomendada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

A partir de dados comparativos, tanto do Brasil como do Brasil em relação a outros países, eles mostraram que existe sim uma crise (a venda das editoras foi reduzida praticamente à metade, entre 1995 e 2003), mesmo levando em consideração o tal crescimento de 5% da economia e a tão declarada hype literária.

Algumas das causas dessa crise: 1) preço do livro (segundo eles, um livro deveria custar ao menos 1/3 do que custa hoje); 2) queda do poder aquisitivo/renda bruta de quem compra livro com freqüência; 3) Problemas de distribuição. Fora isso, o governo comprando menos a preços menores, pirataria, uso da Internet etc.

Alguém ainda veio me dizer: "a culpa da crise não é das editoras e sim dos poucos leitores".

Se esse mesmo alguém tivesse participado do debate saberia do efeito "Tostines" (ilógico e injustificável) que um dos pesquisadores identificou: segundo as editoras "o livro é caro porque vende pouco. E vende pouco porque é caro". Mané justificativa. É caro porque é caro, e as editoras (pequenas editoras) ainda não sabem administrar seus negócios de forma empreendedora e corporativa, de uma forma que gerem lucro, sem prejudicar o leitor e as vendas.

Os pesquisadores deram exemplos da similar da Libre na França, sempre deixando claro: é preciso aprender, organizar, profissionalizar o setor e abolir a idéia romântica de que a indústria do livro se resume a antologias, romances, livros de contos, poesias, manuais de estilo. Talvez por isso o nariz torcido da maioria. O professor Fábio deu a dica dos livros científicos de pesquisadores brasileiros, que poderiam ser mais baratos e poderiam render traduções para outras línguas. Outro dado: juntos, publicações religiosas e obras técnicas ainda perfazem a maior parte das vendas. Dentro do item "obras gerais", todo o resto: auto-ajuda e ficção.

Rolou um debate, sim. Debate caloroso, com descontentamento e muita gente desconfortável. Afinal, aquele seria dia de festa, certo? O que não deixa de ser produtivo: babar ovo é uma merda (desculpem). E quem baba dono de editora é autor, escritor fazendo lobby, implorando "pelamordedeus me publique!".

Pena que - até agora não encontrei - em nenhum jornal, site, blog, qualquer repercussão para esse debate, que vai além do que eles chamam, na pesquisa, de starsystem.

Parece que o melhor debate ainda é aquele que tem como objetivo confirmar o valor ou não de certos grupos de autores (sempre em detrimento a outros), ou aquele, que repercute a "multiplicação de novos escritores". Picuinhas literárias. Guerrinha de ego. Coisa de mulherzinha.

Alguém escreverá: sempre foi assim.

E eu, mentalmente, fico aqui pensando: é verdade: e é justamente por essas e outras que vivemos essa bosta que é até hoje.

No mais, na mesa sobre D.Quixote para Jovens, que contou com a presença de alunos de várias escolas daqui do Rio, Marina Colasanti foi só delicadeza em suas respostas. Já o Gullar parecia que falava para uma platéia de adultos. "Não: essa sua pergunta já foi respondida e não há nenhuma referência a Quixote em minha obra". Alguém deveria avisá-lo do quão prejudicial uma resposta como essa pode ser nessas horas; João Ubaldo por ele próprio: disse que não fazia mais palestras. Agora só respondia perguntas. Logo, faltou microfone; Borges e literatura fantástica: destaque para o Bráulio Tavares. O melhor (e provavelmente o mais esperado) lançamento foi o do livro de poemas do Chico César. Desculpe: não tenho saco pra isso de palestra sobre "blog é literatura?". (Esse tema realmente ainda rende algum debate?)

A oficina (palestra) sobre encadernação deveria ser melhor divulgada. Alguns (se não todos) debates deveriam ser registrados, sistematizados e disponibilizados ao público, no site do evento ou numa publicação.

É preciso que a Primavera dos Livros tenha vida longa porque é uma resposta de um grupo de editoras ao monopólio das maiores, dos grandes grupos, que, aparentemente, gastam muito repetindo um catálogo de vendas garantidas. O trabalho das pequenas, por sua vez, é garimpar títulos, novidades, apostar, abrir espaço. Não é à toa que essas maiores andam criando selos de "novos" e edições pocket. Eventos como a Primavera dos Livros e instituições como a Libre causam desconforto. Fico imensamente feliz que seja assim.

Cassiano Viana
Rio de Janeiro, 29/9/2005

 

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