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Segunda-feira, 17/10/2005
Hoje é dia de Maria
Marcelo Maroldi

Hoje é dia de Maria. Iniciou-se a segunda jornada da menina. Quando esta coluna for publicada, a jornada já estará encerrada. As crianças de bem não puderam assisti-la, pois o dia da menina começa muito tarde, quando nossas crianças já dormem o sono dos pequenos, bem antes da minissérie invadir minha televisão. Alguns adultos dormem também, o dia da Maria não os atrai. Os intelectuais também não assistem, só gente burra vê TV. É uma pena... coitado do Câmara Cascudo. Todos os dias deveriam ser dias de Maria. Esse foi, certamente, o melhor programa que assisti em toda a minha vida.

Hoje estou com muita dificuldade em escrever essa coluna. Mas não importa!, hoje é dia de Maroldi, eu preciso escrever... Em 30-40 minutos essa coluna necessariamente deve estar finalizada. Essa semana eu selecionei vários assuntos para comentar, e esse deve ser o mal dos escritores menores: não saberem selecionar um tema.Tem tanta coisa interessante acontecendo por aí, meu Deus, como decidir? Minha cabeça gira, eu não sei o que fazer. De novo.

A primeira jornada da minissérie foi no início deste ano e, apenas agora, muitos meses depois, encontrei alguém que a tenha assistido, além de mim. Embora o ibope tenha sido alto (cerca de 30 pontos), eu não encontrava representantes desse ibope. Ninguém tinha assistido, parecia. Em principio, pensava eu, só pessoas com algum nível cultural - e, portanto, social - se interessariam pela minissérie, afinal, é um produto tão diferente dos produtos televisivos tradicionais que consome a massa, como novelas e programas de auditório. Além disso, na região sudeste do país, pelo menos, o folclore e cultura popular é quase que totalmente ignorado. Por aqui, praticamente ninguém se interessa por literatura de cordel, por literatura regionalista fantasiosa (com exceção dos "consagrados"), ninguém se importa muito com a cultura popular nordestina, a matéria-prima da minissérie. Outra coisa: uma minissérie desse tipo, recheada de poesia, música (cantigas, na verdade) e fantasia não é o tipo de produto que costuma atrair grandes platéias. Tinha tudo, portanto, para ser um fracasso de "bilheteria" (aliás, a Globo esperava isso também) e um sucesso de crítica. Os poucos que assistissem iriam gostar. E, então, acabaria ali o espetáculo, a jornada da Maria. Mas, não foi isso que ocorreu. Felizmente.

É, não houve fracasso, e agora estou pensando no primeiro episódio dessa segunda jornada, a da confirmação do sucesso. Eu gostei tanto daquele pato, marreco, ou o que for aquele bicho! Vejam só: ele queria muito, muito saber voar, até se esborrachou no chão tentando... Mas a menina Maria, sapientíssima, explicou para ele que pato não sabe voar mesmo, não tem jeito, algumas coisas não são para todos! Ela talvez pudesse ter dito que "a pessoa é para o que nasce"... Pato é assim, não voa. Quem nasceu para Paulo Coelho jamais será Érico Veríssimo, seu pato, sinto muito. Aceite a sua condição de pato, seu pato.

Com o sucesso de público, a Globo resolve lançar a segunda jornada. Aproveitadores!, pensei. Bom, eles estão corretos, a Globo é uma empresa e precisa ser lucrativa, fazendo produtos que gerem dinheiro. Eles não são aproveitadores!, pensei. Mas, então, duvido que vão conseguir manter o mesmo nível do primeiro. Na primeira jornada, palpitou um amigo meu, havia novidade, havia surpresa, esse era o encanto. Na segunda, também, não caiu o nível. Os atores foram mantidos, evidente. Eles são parte fundamental de um triunvirato demolidor: história, cenário e interpretação. Os cenários são belíssimos, incríveis mesmo. Para começo de conversa, eles são intencionalmente artificiais, não reproduzem fielmente o nosso mundo. É justamente o contrário: ele acentua os detalhes artificiais (na primeira jornada, por exemplo, via-se os fios que conduziam os pássaros voando), mas que fazem parte do imaginário, naquele contexto. Eles evidenciam as fantasias do cenário. Funciona como um reforço intermitente do conto de fadas. A interpretação completa a fantasia. Os sinais propositadamente exagerados, os gestos repetitivos, às vezes forçados, a entonação da voz, o figurino, tudo é perfeito. Mesmo quando os atores cantam - e estes não são cantores - não há uma preocupação extrema em "consertar" a voz de quem canta, é tudo muito natural. É por isso, inclusive, que algumas vezes o som não é perfeito e deixa a desejar. Por vezes chega a ser difícil entender o que se fala ou canta.

A minha coluna não pode ser artificial como o cenário da minissérie, embora eu o seja quando escrevo. Ora, eu sou um escritor, posso mentir quanto quiser, não devo satisfação pra ninguém. Eu quero mentir! Quero escrever absurdos tão grandes que vão me achar um gênio! Se eu não puder ser artificial, de que vale a minha escrita? Mas, mas, bem, aqui é jornalismo, aqui é diferente. Preciso falar a verdade, ainda que inúmeros jornalistas não o façam. Eu preciso inovar, feito a minissérie. Não posso ser mais um. É sempre (muito) mais fácil escrever o trivial, o comum, escrever sobre algo que outros já falaram, já escreveram. A novidade exige talento,coragem. Verdade!, a Globo foi ousada em produzir a minissérie... devo admitir. A minha ousadia vou guardar mais um pouco.

A história é o eixo central da trama. Diferentemente de novelas, por exemplo, que se apóiam mais em celebridades do que no enredo, mais na beleza dos atores que na narrativa, nos diálogos. É fantasia pura, ao estilo infantil (confirma isso o fato de ter sido escolhida a semana da criança para passar a série, embora as crianças não a estejam vendo). Como a idéia central da maioria dos contos de fadas, sempre existe uma mensagem a ser transmitida. Eu não vou arriscar dizer qual é esta mensagem, até mesmo porque este tipo de mensagem é totalmente subjetiva, cada um entende como quiser, e elas são inúmeras no Hoje é dia de Maria.

Eu adoro conto de fadas, em especial se houver menos fadas e mais contos. Embora haja vários psicólogos que os critiquem, eu não ligo! Ainda mais agora, nessa era de superproduções Hollywoodianas, os caras fazem cada coisa, meu amigo! Mas eu gosto mais dos livros de contos de fadas. Aqueles desenhinhos bonitinhos, as letras grandes, é tudo ótimo! Foi a minha porta de entrada para a literatura, e suponho que para outras pessoas também. Eu lembro que o primeiro livro que eu peguei em uma biblioteca na minha vida era um livro de histórias infantis, feito as da Maria. Mas eu não li, não sabia ler... Fiquei olhando as figuras e pensando se um dia iria conseguir decifrá-los. Mas eu logo vi que eu gostava de fantasia, de mundos que não parecem existir, de animais que falam, bonecos mentirosos, viagens para outros mundos, todas essas invenções malucas que alguns chamam de magia.

Hoje é dia de Maria justifica ter em casa uma televisão. Não irei retomar aquela velha discussão sobre televisão e nem mencionar os que não a assistem por dizerem que nela só temos lixo. Hoje é dia de Maria desmente essas pessoas, fez valer a pena ficar acordado até mais tarde e fez eu me orgulhar da nossa cultura e da nossa criatividade.

Eu não assisto muito a televisão, ainda que sempre escreva sobre ela. Às vezes, tem umas coisas excelentes, como a minissérie que foi o mote dessa coluna. Ah, a minissérie foi sensacional, como é bom sonhar. Sonhos feitos de histórias inacreditáveis e jamais acordar para o mundo feio e cinza. Eu queria sonhar mais. Só sonhar.

Suspiro

Estou cansado demais para escrever alguma coisa. Eu tenho que fechar os olhos, respirar longamente e torcer por algum suspiro aparecer. Somente um ruído poético já me serve. O ar inspirado irriga a mente. Qualquer semente de poesia, de nostalgia ou esperança, melancolia ou alegria, verdade ou mentira. Eu sou o que eu escrevo, se não minto. Mas eu minto, e ainda sou o que escrevo. Eu sempre me autorizo ser o que não sou. E finjo não ser o que sou quando quero adormecer. É durante a noite que a taquicardia se apresenta. Eu abro os olhos para afastá-la. Conheço bem sua imagem. Caço a palavra, já alcancei o sentimento. As letras vão se juntando. Às vezes me sinto bobo, mas não é sempre. Às vezes me sinto importante, mas não é sempre. As horas passam para o mundo. O tempo nunca existiu para mim. Eu me refugio em mim mesmo. Eu me distraio me escondendo de mim. Quando eu me acho já é tarde. É sempre tarde depois que o sol se põe. Enquanto o galo não cantar ainda posso ser eu mesmo. Depois não! Lavo a cara para ser mais ordinário. Comum mesmo. E visto a farda transparente sobre a roupa. As palavras estão distantes agora. Até penso que nunca as tive. Passei pela noite como quem passa pela rua deserta...Talvez tenha escrito as palavras mentirosas.

Marcelo Maroldi
São Carlos, 17/10/2005

 

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