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Quinta-feira, 1/12/2005
Raul Gil e sua usina de cantores
Félix Maier

O ano de 2001 havia começado péssimo, com os "trenzinhos" funks dos bailes cariocas sendo apresentados em nossa TV. "Um tapinha não dói", "Dominado, tá tudo dominado" eram os hit parades da ocasião. Mas aquele ano acabou ótimo, ao menos na TV Record, com o Programa de Calouros Raul Gil, apresentado aos sábados, que nos brindou com belas surpresas, como o cantor gospel Robinson Monteiro, o tenor Rinaldo Viana e a soprano Liriel Domiciano. O primeiro disco desse dueto lírico, Romance, produzido pela Warner, foi encantador, com músicas escolhidas a dedo, entre o lírico ("Con Te Partiro", "Canto Della Terra", "Adágio"), o popular ("Eu Nunca Mais Vou Te Esquecer", de Moacyr Franco) e um bônus natalino ("Panis Anelicus", "Adeste Fidelis" e "Noite Feliz"), por ter sido lançado às vésperas do Natal. Além desse trio de cantores citados, os primeiros "calouros" a serem contratados por uma gravadora, havia uma constelação de estrelas de ótimo nível, como André Leono, Alexandre Arez, Érika Rodrigues, Leila Moreno e Kelly Moore, que também acabaram gravando seus CDs, pela Luar Music, um selo criado pelo próprio Raul Gil e seu filho Raul Gil Júnior, produtor do Programa (Luar é Raul ao contrário).

Robinson logo arranjou um fã-clube, era apelidado de "anjinho", devido a seus cabelos louros encaracolados, contrariando a previsão da revistona dos Civita, a Veja, a qual, numa rápida reportagem, havia dito que os fãs de Robinson eram compostos por "meia dúzia de cretinos": seu CD Anjo vendeu em torno de 1 milhão de cópias. E teria vendido mais, se não fosse a pirataria, uma vergonha nacional. Rinaldo e Liriel passaram a ser os pontos altos do Programa, que se tornou líder de audiência durante meses, desbancando muitas vezes o futebol do "Brasileirão", apresentado na Globo. Raul Gil recebeu homenagem na Câmara dos Deputados, por levar ao ar um programa sem baixaria, onde toda a família podia assistir sem sobressaltos, sem ver crianças dançando em cima de "bocas de garrafas", e ganhou da Câmara um microfone banhado em ouro que ostenta em seus programas até os dias de hoje.

A respeito do assunto, eu escrevi no final de 2001 um artigo para o site Usina de Letras, chamado "Usina de Cantores", enviando uma cópia para Raul Gil. Coincidência ou não, em 2002, Raul Gil lançou "Usina de Talentos" no seu quadro de calouros, sem me pagar royalties...

O dueto de cantores líricos gravou um segundo disco, Tempo de Amar, em que Rinaldo solta seu vozeirão com "Nessun Dorma" (Que Ninguém Durma) - que o deputado Roberto Jefferson gostava de cantarolar no banheiro, com ironia, logo depois de fazer as graves denúncias contra o governo Lula -, da ópera Turandot, de Puccini, e Liriel nos encanta com a célebre ária de La Boheme ("Quando M'En Vo soletta"), também de Puccini.

Para uma memorável apresentação da dupla lírica na TV Record, no Dia dos Namorados de 2002, Raul Gil Jr. levou Rinaldo e Liriel para gravar algumas músicas na Itália, tendo por fundo os cartões postais mais famosos de Roma e de Veneza. O problema é que o cameraman tinha um sério problema: toda vez que fazia tomadas do duo lírico em frente ao Castelo Sant'Ângelo, às margens do rio Tibre, numa panorâmica à esquerda, logo cortava a cena, para que a Basílica de São Pedro, no Vaticano, não aparecesse na moldura! Ora, uma equipe da emissora do bispo Edir Macedo ir a Roma e não tomar imagens do Vaticano é burrice preconceituosa similar a ir à Índia e não filmar o Taj Mahal. Graças a Deus, Raul Gil mudou-se há pouco tempo para a TV Bandeirantes (Band), onde aparece aos domingos, a partir das 16 horas, com sua antiga equipe de jurados, e certamente a sua produção não precisará mais fazer esse tipo de papelão, provavelmente uma exigência dos talibãs da Igreja Universal. Hoje, Liriel faz sucesso no exterior, como EUA, onde se apresentou com o Coro do Tabernáculo Mórmon, de mais de 400 vozes, e Grécia. Só aqui no Brasil ela é desconhecida, país de botocudos ignorantes, que preferem ouvir o lixo do funk e do rap.

O Programa Raul Gil ficou no chove-não-molha nos anos seguintes, com exceção da agradável descoberta de Toninho Nascimento, porém, neste ano de 2005, voltou aos melhores tempos de 2001. Trata-se do quadro "Jovens Talentos", que reúne cantores com até 15 anos de idade e que é a atual sensação do Programa.

Alguns dos cantores-mirins de "Jovens Talentos" gravaram o CD Jovens Talentos - 40 anos de Jovem Guarda, relembrando os maiores sucessos de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Vanderley Cardoso, Jerry Adriani, Vanderléia e outros. A gravação já recebeu o disco de ouro. Parte do dinheiro arrecadado vai para o Retiro dos Artistas. A meninada também gravou um DVD, num show ao vivo, em São Paulo, que estará nas lojas antes do Natal. E quem são, afinal, esses jovens que encantam milhões de pessoas nas tardes de domingo, a melhor opção para fugir da baixaria de Fausto Silva, da TV Glovo, e da manha de Gugu Liberato, do SBT, e que a mídia teima em fingir que não existem?

Para mim, a mais grata surpresa de 2005 foi conhecer Evelyn Costa, de 15 anos, natural de Sapucaia do Sul, RS. Dona de uma voz de cristal, Evelyn canta os clássicos da MPB com a desenvoltura de cantores tarimbados, com dicção perfeita, pronúncia de todas as sílabas das palavras, os "S" finais, a medida certa para o trêmulo e a sustentação das notas nos finais das frases musicais, em fade off perfeito. O jurado José Messias, um expert em música do nível de um José Ramos Tinhorão e um Ricardo Cravo Alvim, disse que as três melhores interpretações de "Fascinação" que ele ouviu foram as de Nat King Cole, Cauby Peixoto e... Evelyn. E a mídia nem sabe quem é Evelyn Costa, que canta tanto ou até mais que Elis Regina.

Thalita Bardini, também de 15 anos, natural de Curitiba, é a nossa Celine Dion - nem por nada, seus cantores preferidos são Andréa Bocelli e Celine Dion. Desde 2004, o rouxinol curitibano está à frente de uma banda de baile que se apresenta em casamentos e formaturas, Madeira Banda Show. Thalita tem um domínio perfeito da voz, desde o sussurro romântico, como que cantado ao pé do ouvido, até a voz potente e rascante que ela tira da garganta como uma roqueira em transe. Todos os domingos essa moça "arrasa" no Raul Gil, só a mídia ainda não conhece Thalita Bardini.

Entre os meninos, meu canarinho preferido é Adair Cardoso, de 12 anos, natural de Tangará da Serra, MT, apelidado em sua cidade de "passarinho". Cantor romântico, que passa por Jessé, Gonzaguinha, toda a MPB e até sertanejo como se fosse um veterano, arranca aplausos de cantores tarimbados como Fafá de Belém. E os segundos-cadernos dos jornais nada dizem sobre o "tangará" de Mato Grosso.

Você já ouviu falar da dupla Mayck e Lyan? Não? É uma pena que a mídia esteja escondendo de você a maior revelação do ano em música sertaneja, especialmente aquela denominada "de raiz". Quando a dupla de meninos (15 e 13 anos) é anunciada por Raul Gil, o auditório vem abaixo, as meninas entram em delírio, totalmente histéricas, coisa só vista em apresentações dos grandes astros. De Alta Floresta, MT, Mayck e Lyan já impressionaram duplas famosas, como Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Bruno e Marrone, além do veterano Sérgio Reis. Toda a discografia de Tião Carreiro foi dada de presente pela viúva à dupla caipira-mirim, de onde eles tiram canções somente achadas no "fundo do baú". Mayck, de compleição franzina, tem uma voz de baixo profundo, que coloca no chinelo Tião Carreiro e Rio Negro juntos. Lyan é um violeiro como poucos, faz da viola o que bem entende, arrancando aplausos de músicos, maestros e críticos. Só a mídia ainda não ouviu falar em Mayck e Lyan.

E não é que Raul Gil ressuscitou o Ronnie Von, o namoradinho do Brasil dos tempos da Jovem Guarda? Trata-se de Mateus Brunette, de 13 anos, que causa delírio entre a mulherada do auditório, quase configurando um ato de pedofilia... Aos 10 anos, Brunette encontrou num shopping em São Paulo o cantor e músico Toninho Nascimento, que já se apresentou no Programa Raul Gil e gravou um CD, e pediu para cantar uma música com ele. Hoje, Brunette é aluno de Gava, produtor musical do ator e diretor Wolf Maya.

Você queria uma roqueira no elenco de "Jovens Talentos"? Temos Letícia Barcelos Pinto, de apenas 13 anos, conhecida como Twiggy, nome inspirado na magérrima modelo dos anos de 1960. Rock com lírico, ela imita até "violino de serrote", em notas agudíssimas que espantam todo mundo, menos a mídia, que está totalmente surda, cega e muda.

Não poderia faltar um Rinaldo-mirim, por isso Raul Gil tirou do bolso o pequeno Ramon França, de 12 anos, natural de São Paulo, Capital. Cantor lírico, ainda tem que aprender muito, porém tem um potencial que vale a pena investir.

Tanto Ramon, quanto outros meninos, como Adair Cardoso, terão que enfrentar o maior desafio de suas vidas, que é muito maior do que a indiferença da mídia: a mudança da voz. Antigamente, castrava-se cantores jovens, para que eles permanecessem com suas jovens e cristalinas vozes, como já relatado em filmes como Farinelli (I Castrati). Hoje, os cantores-mirins do Raul Gil hipnotizam multidões com suas vozes inconfundíveis, porém, como ficarão essas vozes quando se tornarem adultos? O timbre será tão encantador quanto o de jovem? Obviamente, não vou aqui propor uma maldade como a que fizeram com Farinelli, para eternizar a voz desses talentosos meninos por um simples capricho comum durante a Idade Média. Mas seria triste que esses meninos tivessem um sucesso efêmero, como Joselito (José Jiménez Fernández), o qual, pelo menos, se apresentou em vários filmes que correram o mundo no início dos anos 60 do século passado. Na mesma época, também causaram furor entre os adolescentes os filmes de Marisol.

Tivesse essa meninada sido descoberta pela TV Globo, hoje todo o Brasil estaria festejando um sucesso só comparável ao da Jovem Guarda. O problema foi Raul Gil ter descoberto esses jovens talentos, e não a TV Globo, buraco negro que engole todos os cantores e atores de renome do Brasil - mesmo que seja para colocar muitos deles na geladeira anos a fio.

A qualidade desses jovens cantores é excepcional. Está no mesmo nível dos "calouros" adultos de 2001. Por que, então, a meninada ainda não teve divulgação na mídia, nos segundos-cadernos dos jornais, nos encartes culturais, como seria de esperar que ocorresse em um país que preza e divulga sua cultura? Vê-se tanto cantor medíocre divulgando lixo puro, por que não se dá uma chance aos cantores mirins que se apresentam no "Jovens Talentos"? É só na base do "jabá" que um cantor poderá divulgar sua música? Falta dar iPod aos críticos, para que enfim se manifestem a respeito dessa bela safra de talentos? É necessário que outras vozes se juntem à reclamação feita por gente que entende de música, como José Messias, Marli Marley, Agnaldo Timóteo e o maestro Julio Medaglia, famoso jurado dos festivais de canção da década de 1960, que trouxe a público gigantes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, Milton Nascimento e tantos outros astros de primeira grandeza da música nacional. Por isso, também ergo minha débil voz, de protesto, para exigir que os meios de comunicação dêem mais atenção e valor aos novos talentos que surgem, antes que todos se evaporem no ralo do desprezo e do esquecimento.

Félix Maier
São Paulo, 1/12/2005

 

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