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Segunda-feira, 26/12/2005
Lost
Marcelo Maroldi

A TV paga não é essa maravilha que alguns falam. Semana passada, num dia "parado", um amigo meu me disse eu poderia ir embora me divertir, afinal, eu tinha TV a cabo em casa! É aquela falsa sensação de que você ligará a televisão a qualquer hora do dia ou da noite e vai ter algo de bom em algum daqueles 50 canais. Olha, se você, leitor, for pensar bem, isto faz muito sentido; não é possível que em 50 opções nenhuma te interesse! Mas, infelizmente, preciso dizer: é possível sim! E acontece. Conhece aquela música do Bruce Springsteen "57 canais e nada passando" (57 Channels (And Nothin' On))? A minha grade eu guardo na cabeça, geralmente. Fora isto, mudar de canal procurando algo que não seja filme é tão difícil como achar uma boa idéia na cabeça do nosso presidente. Até dá para achar, mas eu não contaria com isto se fosse você...

Dentre os tipos de canais da TV a cabo, sabemos, os de maior sucesso são os que apresentam séries, geralmente engraçadinhas como Friends, ou de suspense e investigação. Há uma proliferação indiscriminada de séries de TV americanas similares e somente algumas (poucas) são boas, claro. Sinceramente, não sei como alguém pode acompanhar 6 ou 7 séries ao mesmo tempo. É quase sempre igual! Se você for esperto, consegue até antecipar algumas piadinhas que são ditas. E nem menciono o fato de que elas não são feitas para nós, estrangeiros. São séries americanas feitas para americanos. Mas nós assistimos e até alugamos ou compramos seus DVD's.

Este ano, porém, algumas séries não convencionais foram lançadas com bastante sucesso. São séries que não se encaixam no padrão estabelecido que nossa TV a cabo americanizada insiste em nos apresentar diariamente. Elas diferem das séries anteriores em aspectos básicos, por exemplo, como a total ausência de piadinhas, com mulheres que se tornam presidentes da maior nação desse mundo, com pessoas vivendo em uma ilha perdida, etc. Lost (canal AXN) é uma dessas séries. Uma das que vale a pena conferir. Ah, e já foi imitada.

O enredo é bem simples: um avião cai em uma ilha isolada e estranha (bem estranha!) e alguns passageiros (42, se não me engano) sobrevivem. Ninguém sabe onde é a ilha, o que aconteceu para o avião cair, como sairão de lá, por que a ajuda não chega rápido (nunca chega, na verdade), por que acontecem fatos estranhos. Uma seqüência de mistérios envolve a ilha e os personagens que lá estão. É isso, apenas, e já temos uma série de sucesso. Fácil assim.

Em primeiro lugar, os autores trataram de introduzir um grande número de fatos e eventos inexplicáveis na trama, teorias que beiram o conspiratório (para não dizer totalmente conspiratórios), muitos elementos míticos, alguns absurdos e muitas - muitas mesmo - perguntas sem resposta. Eu ficava pensando: como é que eles vão conseguir explicar isso sem "forçar a barra"? Acho até que não dá, eles vão ter que apelar! Nos EUA a série já está no meio da segunda temporada. Às vezes sinto vontade de procurar na internet para ler o que tem acontecido, que tipo de caminho vai seguir a trama, se vão recorrer a aspectos "superiores" ou se vão manter tudo no terreno do possível, da conspiração do Estado, da experiência militar, etc. Como ninguém sabe de fato do que se trata o enredo (nem mesmo os criadores), diversas explicações aparecem na Internet, vindas principalmente dos fãs que acompanham a série. A maioria das especulações são ruins e eu prefiro acreditar que tudo é teoria da conspiração, o que, aliás, faz sucesso sempre quando bem produzida.

A série é feita com o mesmo processo que se utiliza para fazerem nossas novelas no Brasil. Eles gravam apenas poucos episódios (1 ou 2, para Lost ) e vão verificando a resposta do público, as suas vontades, suas exigências e então direcionam a série para atender a maioria. Isto funcionou bem no começo. Mas, tudo é tão abstrato, tão pouco explicado, que os telespectadores começaram a reclamar (eu ameacei parar de ver!). Nada acontecia. Durante muito tempo, nada acontecia. Alguns episódios inteiros não serviram para nada, acredite! Pelo contrário, mais perguntas eram lançadas, mais o enredo criava tramas menores dentro da trama principal, mais se fechava a história, e nada era explicado. Os diretores, então, prometeram que, a partir do ano 2 da temporada, algumas perguntas iam ser respondidas. Espero que sim. Já está na hora de pararem de engordar o mistério e fazem as respostas surgirem.

Cada episódio corresponde a dois dias da vida dos sobreviventes. Nesses episódios, um dos personagens passa a ser o ator principal, digamos assim, e é a vida dele que terá mais um pedacinho revelado naquele dia. Geralmente, mostra-se quem ele é, o que fazia antes de estar ali e como entrou naquele avião (ah, não é ninguém "normal" como nós, amigo leitor, só tem gente com uma boa (e se for bizarra, melhor) história de vida. A Sol, de América, poderia estar lá tranqüilamente! O Lula também) Isto é uma jogada interessantíssima da série. Cada personagem tem uma história pessoal própria sendo desenvolvida, mas, pelo menos até agora, que não se relaciona com as dos demais personagens (embora eu acredite que o vínculo entre eles será mostrado ainda). A esperteza de fazer isto está no seguinte: eles podem dar mais ênfase aos personagens que o público gostar mais, podem fazer suas histórias crescerem, podem até desaparecer com os que menos agradarem o público, podem fazer as histórias paralelas ganharem força, se tornarem importantes, mudar o rumo das coisas se não estiver dando certo. Eles abasteceram o programa com muitos atrativos, podem escolher o que fazer com eles. A própria vida do personagem é concebida para atrair atenção. Todos, sem exceção, são estereótipos. O médico bonzinho que tinha o pai alcoólatra, o menino com poderes ocultos ainda não revelados, a moça bonita que era bandida, o paralítico que começa a andar quando cai na ilha, o iraquiano ex-militar, a mocinha fútil, e por aí vai. Cada telespectador tem o seu preferido, acredito. (Eu prefiro que todos sejam comidos pelo dinossauro que lá habita!, mas ficarei satisfeito se o urso polar (sic) os atropelar enquanto apanham moranguinhos para o filho paranormal da mocinha loira que namora o roqueiro drogado)

Por tudo isto, Lost tem feito o sucesso que o mundo todo já sabe. Embora às vezes possa te irritar, é uma série muito interessante. O ideal, penso, é vê-la em DVD, assim, você não precisa ficar pensando durante uma longa semana no que irá acontecer no próximo episódio e nem ficar com raiva porque nada aconteceu no recém assistido. Então, assiste-se ao episódio seguinte. A Globo já adquiriu os diretos de transmissão no Brasil, e diz que irá passar em breve, ainda nas férias. É uma boa sugestão, diferente das demais séries existentes.

Marcelo Maroldi
São Carlos, 26/12/2005

 

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