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Terça-feira, 3/1/2006
Glamour e mistério em Belíssima
Luis Eduardo Matta

Foi com alguma expectativa (não nego) que aguardei a estréia da novela Belíssima, da Rede Globo, no começo de novembro passado. Desde O Clone (2001), uma telenovela não me despertava tanta curiosidade. Talvez tenha contribuído para isso o fato de Belíssima ser ambientada no mundo da moda, à semelhança do que acontece com o meu mais recente romance, 120 Horas. Ou, então, o elenco estelar que conseguiu reunir nomes do quilate de Fernanda Montenegro, Glória Pires, Tony Ramos, Lima Duarte e Irene Ravache. Não importa. O certo é que a imprensa já falava muito de Belíssima no início de 2005, vários meses antes da sua anunciada estréia, antes mesmo de sua antecessora, a maçante e confusa América ir ao ar, quando o público ainda se encontrava às voltas com o dramalhão de Maria do Carmo e a sua filha desaparecida em Senhora do Destino.

Fui um assíduo espectador de novelas durante a minha infância e início da adolescência, o que compreende toda a década de 80 e os primeiros dois anos da de 90. Hoje não faço mais do que assistir a alguns capítulos eventualmente e, mesmo assim, só de uma ou outra produção. Embora meu interesse tenha diminuído sensivelmente, eu reconheço na novela um produto cultural de grande relevância. Aplaudo o capricho e o profissionalismo com que elas são feitas, os cenários, o figurino, todo o moderno aparato técnico envolvido, a atenção perfecccionista a todos os detalhes. As tramas, por outro lado, são um tanto repetitivas, envolvem quase sempre os mesmos arquétipos, as mesmas questões dramáticas e acabam muito parecidas, tornando-se inevitavelmente previsíveis, o que é um dos maiores pecados que uma obra de ficção pode cometer. Como quem dita os rumos da TV comercial é o público e o público atual é muito ágil na hora de usar o controle remoto para mudar de canal quando uma atração não lhe agrada, as emissoras têm muito medo de errar e acabam apostando sempre naquilo que já é conhecido e que tem poucos riscos de causar espécie numa assistência desabituada a mudanças bruscas na programação. De qualquer modo, muitos autores, no afã de agradar a esse público, costumam meter os pés pelas mãos e sacrificam a criatividade e a própria trama em nome da audiência a qualquer custo.

Bem, felizmente, esse não parece ser o caso de Belíssima. Desde o início, a novela tem navegado num enredo glamouroso, bem elaborado, fluente e sem atropelos. A impressão que passa é a de que o autor, Silvio de Abreu, a está escrevendo com muita calma e ciente de cada passo dado. Logo no primeiro capítulo isso ficou evidente. Em vez de apresentar todo o elenco de personagens de forma apressada e desordenada como, por exemplo, fez Gilberto Braga na estréia de Celebridade (2003), Silvio concentrou-se na trama propriamente dita, dando ênfase ao conflito entre a heroína Julia (Gloria Pires) e sua avó, a vilã Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e, com grande habilidade, pondo em relevo o caráter de ambas, deixando, dessa forma, claro para o espectador qual seria o principal fio condutor da história. Com absoluta naturalidade, todos os demais personagens foram entrando em cena e os diversos núcleos foram sendo mostrados, sempre a reboque da trama, que é, inegavelmente, o elemento mais importante numa novela e do qual muitos autores, alguns até renomados, costumam se esquecer. Com isso, Belíssima tornou-se uma novela agradável de assistir, bem-humorada, versátil, tensa e sem apelações ou sensacionalismos. Uma novela equilibrada, bem amarrada, que mantém a atenção do espectador e se coloca à altura da sua compreensão, sem, contudo, fazer pouco da sua inteligência.

Para os próximos meses, Silvio de Abreu promete várias reviravoltas, entre elas o desaparecimento da vilã Bia, que dará uma atmosfera de thriller à história. Alguns assassinatos já ocorreram, mas ainda não deflagraram o suspense prometido pelo autor. Com certeza, é uma estratégia. Silvio garante que todos esses crimes estão ligados e que o clima de mistério aparecerá no momento certo. Há muito tempo a televisão brasileira nos deve uma novela que contenha um bom suspense, como ocorreu com O Astro e A Próxima Vítima. Acho que vou mudar os meus hábitos e abrir uma exceção para assistir a Belíssima com mais assiduidade, só para ver de perto o desenrolar dos próximos capítulos.

Uma nova diva para o jazz

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que ouvi a voz aveludada, grave e envolvente de Madeleine Peyroux. Foi há pouco mais de um ano, durante um café vespertino com a minha querida amiga Ellie Koelsch na Livraria Argumento, no Rio. Ellie, ao ouvir a música de Peyroux ressonando pelo salão num suave e agradável som ambiente, prontamente levantou-se da mesa e correu à seção de CDs da livraria, ávida para descobrir de quem era aquela "voz maravilhosa". Voltou com um CD da cantora, Careless Love, recém-lançado, que, por ser importado, lhe custara um bom dinheiro, e com um veredicto: "Não dou seis meses para você se tornar o maior fã dela".

Confesso que demorou mais de seis meses, mas o vaticínio concretizou-se, ao menos parcialmente. Não sei se me tornei o maior fã (acho meio difícil), mas, de qualquer maneira, minha amiga, hoje morando na Noruega, não pôde testemunhar o meu processo de enamoramento pela música de Madeleine Peyroux, processo este que, parafraseando Geisel e Golbery, ocorreu de forma lenta, gradual e segura. Digo segura, porque todo enamoramento, como é sabido, traz consigo uma carga considerável de emoção que, se vier desgovernada, pode nos levar ao colapso nervoso. E esse risco existe concretamente em relação à música desta cantora norte-americana de nome francês, que pode arrebatar de forma fulminante um apreciador mais desprevenido da boa música e é por isso que eu advirto ao leitor amigo: ouça Madeleine Peyroux, mas faça isso com prudência, pois, caso contrário, o seu coração musical poderá ser enfeitiçado de maneira irreversível. Sobretudo se você, como eu, ama o jazz e o blues.

A trajetória de Peyroux é interessante e merece algumas linhas. Ela nasceu em 1973 no estado norte-americano da Geórgia, numa cidade chamada Athens, que também foi berço de bandas célebres como R.E.M. e B-52's. Começou sua carreira na França, para onde se mudou com a família, nos anos 80, munida unicamente de um violão e de sua voz, percorrendo o país com o grupo Riverboat Shufflers. Tinha, na época, em torno de quinze anos. Pouco depois, trocou de banda e passou a fazer parte do The Lost Wandering Blues and Jazz Band, que a levou a viajar pela Europa, cantando músicas de Ella Fitzgerald e Billie Holiday. E foi justamente com o mito Billie Holiday, que ela passou a ser comparada, talvez pela conjugação entre o seu timbre de voz, a sua maneira de cantar e o seu repertório sofisticado, muito semelhantes aos da diva americana, morta em 1959. Peyroux, contudo, recusa a comparação. Afirma que as pessoas reconhecem Billie Holiday em sua voz, talvez porque ela tenha dado os primeiros passos na música ouvindo seus discos. De qualquer modo, a semelhança é inevitável. Ao escutar Peyroux cantando, tem-se de fato a impressão de se estar ouvindo Billie Holiday. Foi exatamente o que eu e minha amiga sentimos naquela tarde no café e que nos causou tanto frisson.

Madeleine Peyroux conta, ao que tudo indica, unicamente com dois CDs lançados até o momento: Dreamland, de 1996 e o já citado Careless Love, que recomendo desde logo, pois trata-se de um bálsamo para os nossos ouvidos, continuamente castigados pela decadência das rádios comerciais, que não se cansam de baixar cada vez mais o nível do seu repertório. Em Careless Love, encontraremos canções como a jazzística "Don't Cry Baby", uma linda regravação de "You're Gonna Make me Lonesome When you Go", de Bob Dylan e uma única faixa em francês, a suave "J'ai Deux Amours", muito bem executada, atestando que Peyroux, que foi morar na França praticamente sem falar francês, aprendeu muitíssimo bem a manejar o idioma de Balzac e Molière.

Não tive ainda o prazer de ouvir Dreamland, mas com relação à Careless Love, a minha sugestão é a seguinte: providencie um ambiente silencioso e à meia-luz, sente-se numa poltrona confortável sob a claridade de um abajur, prepare um drinque, pegue um bom livro para ler e ponha o CD para tocar. Essa verdadeira terapia não só irá deixá-lo(a) mais feliz, como irá fazer com que você nunca mais deseje outra vida.

Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 3/1/2006

 

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