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Quarta-feira, 8/2/2006
Não quero encontrar você no Orkut
Ana Elisa Ribeiro

Quando eu quero falar com alguém, eu ligo. Se antes eu discava uns números, agora eu os teclo num aparelho sem fio. Faz tempo que é assim. Pus Bina no meu telefone há alguns anos. Desde então, só atendo quando quero. Ou já atendo sabendo o que vem por aí. Pronto. Para fugir de certas inconveniências, mudei de número três vezes. Beleza. Sem ter que falar nada com ninguém. Sem qualquer espécie de desgaste. Exceto pela demora dos serviços na operadora de telefonia fixa.

Quando eu quero mandar e-mail para alguém, eu mando. Escrevo uma mensagem e pronto. Se não quiser entrar em entreveros desgastantes, simplesmente não respondo. Ou ignoro e pronto. Mando para a lixeira. A pessoa do lado de lá nem sabe. Tanto que achei um tremendo constrangimento quando começaram a mandar mensagens com aviso de recebimento. E agora? Digo que não li ainda. Era um tempo que eu ganhava.

Minha história com chats é antiga. Já. Comecei a bater papo em 1996, na universidade. Usava um programa interno chamado Tellnet. Depois entrei nos bate-papos do UOL. Fiz amigos, alguns até hoje. Descobri aquele universo e uma coisa interessante: sempre fui melhor por escrito.

Minha formação familiar não permite extravagâncias. Não uso maquiagem nem em dia de casamento. Nem por isso me pareço com uma freira. Também não se pode dizer da minha vida que mereça entrar para algum tratado hagiográfico. Pois bem. Se eu tinha vergonha até de perguntar os preços dos objetos nas lojas, os bate-papos me adiantavam muito, já que eu não tinha que me expôr fisicamente. Ali eu podia escrever, apenas escrever, e parecer sedutora, interessante, bem-humorada. Por escrito, eu assumia uma voz que nem era a minha. Não mentia, mas o leitor do lado de lá poderia ouvir a voz que lhe conviesse.

Os bate-papos tinham uma dinâmica engraçada. Tornavam-se vício. Horas e horas de sábado à noite conversando com gente de outros estados. Até que um dia todos se encontravam em São Paulo ou no Rio. Boteco. Tudo gente normal. E ficamos amigos.

O virtual era apenas a sala de encontro. O resto era como tudo sempre foi. Mas eu perdi a vergonha. Não foi rara a vez que um rapaz me achava uma princesa, por escrito. Pessoalmente a imagem mudava. Não era meiga, nem linda, nem modelo fotográfico. Era dentuça, manequim 42, branquela e tinha buço. Mas notei que a escrita construía um personagem que não se desgastava mais. As relações começavam pelo fim, onde outras não conseguiam chegar. Por que eu gostava dos bate-papos? Porque as pessoas podiam saber do que se passava na minha cabeça antes de olhar minha bunda. Era isso. 101 cm de quadril costumam ser convincentes.

Mas os bate-papos enjoaram. Parei de entrar no UOL. Parei de abrir o ICQ. Este era novidade. Não me convenceu. Nem o antigo MIRC, que era feio de dar dó. E o MSN, que há alguns anos não atraía muita gente, hoje é quase obrigatório nas casas e nas empresas.

Fiquei mesmo só no e-mail. Não vivo sem ele. Grande parte do meu trabalho (remunerado) depende dele. Nem sei a quantas reuniões chatas e intermináveis deixei de ir por causa do meu @. O contato com os amigos distantes os fez parecerem vizinhos de porta. Tudo numa boa, sem pressão, sem sincronia.

Abri um blog. Escrevi muito. Não virou livro, mas houve uma época em que isso esteve na moda. Os livros vieram antes. Mostrei a algumas pessoas, hoje conhecidas, como abrir blog e colocar comentário. Fui colunista do Corvo, aberto pelos meus amigos de Bate-papo. Abri a Estante de Livros. Fiz muita entrevista. Depois cansei. Outras coisas dessa minha vida virtual resolveram se precipitar.

Conheci meu marido na internet. Ele me mandou um e-mail para uma entrevista. É jornalista, queria assunto, cumpria uma pauta. Depois desse e-mail, que guardamos até hoje, o papo foi aumentando, mudando de rumo, de tom, de jeito. Engravidamos, casamos. Nosso guri deveria se chamar E-duardo.

Como vêem, sou uma etnógrafa da internet. Eu estava lá. Eu vi. Eu vivi. Desde que as interfaces me permitem acessos. Não tive medo de nada. Nem de conhecer pessoas. Nem de viver uns dramas. Nem de trabalhar. Autopsie. Do francês. Ver com os próprios olhos.

E o que o Orkut tem com isso? Muito. O Orkut foi a única coisa que me deixou irritada nessa história toda. Abri uma página lá, pus uma foto ajeitadinha, charmosa, pus nome e outros dados. Pronto. Bastou. Daí a alguns dias começaram a pintar uns malas que eu não via fazia séculos. Pessoas com quem eu havia me desentendido no colégio, na quinta série. Inimigos declarados. A menina que ficou com meu namorado quando eu tinha 15 anos. O babaca da sala 201. E todas aquelas comunidades me chamando para entrar: amo meu namorado Gugu, eu odeio a Nina Hagen, tenho dois sobrinhos, solteiro fracassado, etc. Que porre! Eu tinha poucos amigos e quase nenhuma comunidade. Comunidade?

Como se não bastasse isso, umas pessoas com as quais eu não queria conversar vinham pedir para entrar na minha página, virar contato, sei lá o quê. E eu tinha que dizer que não! Com um dedão virado para baixo. Nonsense. Explico.

É que sempre tentei ser polida com todos. Mesmo quando a menina ficou com meu namorado quando eu tinha 15 anos, não fiz escândalo, não dei uma de doida e nem de perua. Terminei o namoro na maior classe, parei de falar com a magricela. Pronto. Resolvido. Nasceram um para o outro. Beleza. Na categoria.

Quando me desentendi com um coleguinha de sala por causa de um dever de casa, simplesmente me isolei da convivência com ele. O mal pela raiz. Estancado. Não precisava pôr a mão na cara de ninguém e dizer "não". Difícil dizer não, hein?

O Orkut, além de me expôr exponencialmente, me expunha a um constrangimento que era este: negar a alguém, explicitamente, a entrada na página. Ah, complicado. Ficaram lá os dedinhos esperando que eu dissesse alguma coisa. Não disse nada. Apenas saí de lá e nunca mais voltei. Nem sei mais minha senha. E espero não me lembrar dela.

Para quem aprendeu a fazer bom uso, no entanto, o Orkut deve ser útil. Há quem deteste as salas de chat. Ou os blogs, por exemplo. Agora, detestar e-mail... isso eu nunca vi.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 8/2/2006

 

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