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Quinta-feira, 9/2/2006
Orkut: terra de ninguém
Paulo Polzonoff Jr

Quando recebi o convite para fazer parte da Orkut, senti-me um privilegiado. Naquele tempo nem tão remoto assim, a comunidade era seletiva. A idéia ainda estava intacta. Poucas pessoas de um círculo bastante restrito tinham acesso àquele site. O conceito não havia ainda se vulgarizado.

A história da ascensão e queda da Orkut se confunde com a ascensão e queda da própria internet. Claro que me refiro aqui a uma ascensão e queda de qualidade, e não comercial. Afinal, pelo lado mercadológico, a Orkut continua a ser um excelente banco de dados. E uma amiga minha, especialista nestas coisas do mundo virtual, é enfática ao afirmar que bancos de dados são uma verdadeira mina de ouro neste mundo.

Sem meias-palavras: o problema da Orkut foi que chegou até o povo. O povão, este Leviatã que consegue destruir tudo com seu mau-gosto epidêmico. No começo, as comunidades da Orkut tratavam de assuntos que, se não eram elevados, tampouco eram tão rasteiros quanto a discussão de telenovelas ou a idolatria de cantoras de funk. As pessoas que recebiam convites para entrar na comunidade respeitavam sua principal e mais cara característica: a verdade.

Quando surgiu, a Orkut quis dar uma cara ao internauta. O anonimato, dentro da comunidade, era uma possibilidade que não passava pela cabeça da maioria das pessoas. Mesmo algumas raras pessoas que cultivavam pseudônimos na Grande Rede se sentiam constrangidas e acabam por revelar suas identidades secretas na Orkut. Era nisso que residia a graça da coisa toda: éramos, novamente, indivíduos, com nome e sobrenome, e não nicknames com números randômicos de IP.

Mas daí, com a popularização da coisa, tudo degringolou. Os tão cobiçados convites para a Orkut se disseminaram para além das fronteiras do mundo civilizado. Houve até quem os vendesse pelo eBay. As hordas de bárbaros invadiram o site com desenhos onde deveria constar a foto, nicknames no lugar do antiquado binônimo nome mais sobrenome. E, claro, junto com os visigodos, ostrogodos e quetais, a total falta de idéias e as piores intenções possíveis.

Foi mais ou menos nesta época que cometi meu primeiro "orkuticídio", isto é, apaguei todos os meus dados. Fiquei mais de um ano longe da Orkut. Às vezes, lia reportagens que se referiam à comunidade como um site de relacionamentos cheio de pedófilos e de nazistas. Ri. A pedofilia e os ideais nazistas parecem ser o futuro de toda e qualquer novidade na internet. Aquele clube que até então era exclusivo de pessoas que não tinham nada a esconder (e por isso mesmo usavam o nome e sobrenome em seu perfil) havia se transformado no caos do anonimato, que tornou, já há alguns anos, impossível a convivência nas outrora agradáveis salas de bate-papo.

Foi então que, por mera curiosidade sociológica, refiz o meu cadastro na Orkut. Faz pouco tempo, menos de um ano. Conseguir um convite não era nada difícil. Em quinze minutos eu tinha o meu. Por coerência (?), não apelei para o anonimato. Armado de nome, sobrenome e foto real, me dispus a desbravar aquela terra de ninguém, onde imperava a vontade dos tolos, o mau-gosto, o vácuo de idéias e o desprezo às regras mínimas de convivência numa sociedade, mesmo que virtual. Sim, eu estava entre os bárbaros.

Eis aqui o paradoxo que me encanta, mas só um pouquinho. Por um lado, a popularização (ou vulgarização, como preferirem) da Orkut tornou aquele espaço infestado por gente feia e, sem meias-palavras, idiota. Por outro, permitiu o reencontro com pessoas que, de outro modo, continuariam perdidas na imensidão da Rede e - por que não? - da vida.

Graças à Orkut, em sua fase mais decadente (esta que parece não ter fim), reencontrei várias pessoas que eu pensava soterradas pelo passado. Amigas, amigos, namoradinhas, desafetos. De repente me peguei mergulhando na filosofia das encruzilhadas, tentando encontrar um sentido para tantas vidas que um dia coincidiam e hoje eram quase paralelas. Entrei numa espiral sem fim da memória. E, por fim, angustiado com as máximas possibilidades do destino, acabei por cometer "orkuticídio" novamente.

Saí da hipercomunidade (em tempo: não existe comunidade possível que seja hiper) realizado e ao mesmo tempo desesperado. Ela havia, por fim, se tornado útil. A idéia se concretizara. Já então era (é) possível reencontrar velhos amigos pela Rede. No entanto, para chegasse a este ponto, a Orkut teve de permitir também que a massa se juntasse a ela. Foi preciso abrir caminho no meio de um milhão de pessoas para encontrar apenas uma. Foi preciso ler centenas de mensagens para descobrir aquela que interessava, aquela (rara) que tinha algo a dizer. O "orkuticídio" (definitivo, vale dizer) foi uma declaração de desistência e uma reafirmação da individualidade que ousa dizer seu nome e seu sobrenome; que não se esconde atrás de nicknames. Foi também uma redescoberta da convivência no mundo real, da rede de amigos que se constrói na mesa de um bar, com longos telefonemas e dramas verdadeiros. Uma convivência que não contabiliza os contatos e que tem espaço até para silêncios.

Pode soar pretensioso demais, mas a verdade é que negar a Orkut é afirmar a vida em todas as suas possibilidades. Inclusive aquela que ousei (ousamos todos) desafiar: a possibilidade de desaparecermos, de vivermos nossa vida atual desatrelados do passado.

Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 9/2/2006

 

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