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Quinta-feira, 2/3/2006
Google: aprecie com moderação
Fabio Silvestre Cardoso

Em julho de 2000, durante uma palestra ministrada para o Rumos Cultural do Itaú, o poeta e professor universitário Alckmar dos Santos comentava, a propósito do recente efeito da internet na educação formal, que, na Europa, professores começavam a enfrentar um sério problema relacionado à cópia indevida de trabalhos direto da internet. Dizia o professor, já naquela época, que muitos alunos, de repente, passaram a apresentar seus trabalhos com a exatidão da Encyclopędia Britannica. E o problema era justamente o seguinte: os alunos não apenas consultavam a enciclopédia, mas, graças ao acesso à internet, literalmente copiavam verbetes inteiros para completar seus trabalhos. Nunca mais vi o professor Alckmar. No entanto, lembro dele e de suas palavras, meio que proféticas, sempre que presencio trabalhos clonados da internet. Com uma diferença: a fonte de busca, hoje primária, não é mais a Brittanica, mas o Google - sinônimo e referência na hora de encontrar pessoas, histórias, citações, personagens e suas milhões de páginas correlatas. Um exemplo: para o sentido da vida, o Google dá 2.460.000 resultados.

Ao contrário do que se possa imaginar, a diferença não reside apenas no fato de a ferramenta de busca ter mudado. Isso porque todo o significado dessa busca também mudou. Para ficar no exemplo da enciclopédia, antes era utilizada somente para consulta - salvo o caso dos meninos que queriam colar na escola. Hoje, a consulta é ponta do iceberg. As pessoas querem mais. E o Google, sempre atento, oferece quase o impossível - a não ser que você queira digitar Tibet ou Dalai-Lama na China.

Escrevo isso com a certeza de quem já percebeu como as pessoas, hoje, estão reféns daquilo que o Google tem a disponibilizar. Os leitores me desculpem por mais uma digressão, mas eu vou citar os exemplos que vi com esses olhos que as lentes dos óculos protegem do astigmatismo e da miopia. Como alguns leitores devem saber, além de jornalista, trabalho como professor universitário (sim, é um trabalho, sem mais piadas). E um dos casos mais corriqueiros da universidade hoje é o fenômeno CTRL+C/CTRL+V. Em outras palavras, o famigerado copia e cola, copy and paste, como quiserem. Em poucos anos de docência, não somente os casos de plágio e de cópia indevida têm aumentado, como os próprios alunos já não sabem mais o que é fonte, quando e como se deve fazer citação, e, pasmem, que plágio é crime de verdade, e não apenas chatice de professor que não tem mais o que fazer. Certa vez, um rapaz discutiu veementemente com este colunista teimando que não havia copiado o trabalho que eu, injustamente - não foi bem este o termo utilizado, mas passa - sugeri com meus "comentários levianos". Revoltado, perdi a paciência e o levei até o terminal mais próximo, e mostrei a ele o óbvio ululante: eis a cópia, rapaz, em gênero, número e até endereço de URL. Transtornado, mas não conformado, o aluno saiu-se com a pérola: "Não foi eu quem copiou, professor (sic), foi a minha fonte".

Há algumas semanas, no site Nominimo, o repórter Bruno Garschagen assinou uma interessante reportagem a propósito desse tema e, de acordo com um dos entrevistados, um dos principais problemas era esse: os alunos, seja por omissão, seja por leviandade, já não distinguiam mais o plágio do trabalho original, acreditando, quem sabe?, que o primeiro é uma extensão, uma licença poética, do segundo. Lembro-me agora de uma aluna que me disse quase isso, ao argumentar o motivo do trabalho clonado: "eu ajudei a fazer essa pessoa que assina o artigo original".

O que as pessoas, no caso, não admitem é sua dependência, seu vício, no Google. É como se a ferramenta de busca tivesse se tornado num grande Oráculo. Não um oráculo qualquer, mas o Oráculo. Aquele a que você recorre nas situações mais estapafúrdias, inclusive quando precisa fazer um artigo para a faculdade ou uma pesquisa para o trabalho. Reza a lenda que até mesmo o governo britânico clonou um dossiê sobre as armas de destruição em massa no Iraque a partir de um trabalho escolar. Desnecessário dizer onde é que foi feita essa consulta. Google.

Tomando esse exemplo como gancho, é possível que também o jornalismo encontre-se absolutamente cercado e tomado pelo Google. Arrisco até uma nova Teoria do Jornalismo. Esqueçam Newsmaking, Agenda setting e a periodicidade. Quem dá as cartas agora é o googlismo. Um grande colega da profissão afirma, com todas as letras, que muitos são os que, sem pestanejar, vão atrás de falas e depoimentos no Google. Então, se o repórter, antes, sequer saía da Redação para trabalhar, hoje nem precisa pegar no telefone, pois é capaz de realizar uma matéria ou uma grande reportagem sem nem mesmo sair da frente da tela do seu computador. Entende-se, então, que a crise do jornalismo tem outras raízes...

Mas o objetivo, aqui, não é espinafrar a criação de Larry Page e Sergey Brin. Creio, de fato, que se trata de uma das grandes inovações relacionados não somente à tecnologia, mas, sobretudo, ao dia-a-dia das pessoas, transformando as relações humanas e a maneira como lidamos com o nosso trabalho e nossos afazeres. Entendo, pelo mesmo motivo, que não se deve fazer do Google uma tábua de salvação, uma extensão de nosso ser, capaz mesmo de acobertar nossos deslizes profissionais, como a preguiça e a falta de criatividade de nossos dias. Pois, se o Google é capaz de encontrar as respostas às perguntas que nós mesmos podemos responder, quanto ele não seria útil para os problemas cuja solução nós ainda não temos? Para tanto, é preciso ir além; afinal, o sentido da vida não está no Google.

Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 2/3/2006

 

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