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Quarta-feira, 1/3/2006
Sombras Persas (I)
Arcano9

Londres, 29/10

O mundo inteiro está cansado de ver nos jornais, diariamente. Desde que o Iraque foi atacado em 2003, desde que a estratégia de criar paz por meio da guerra foi colocada em prática pelo governo dos Estados Unidos. O Iraque preenche as manchetes dos jornais, o sangue espirra no rosto das pessoas. O Iraque explode, mas ao mesmo tempo caminha para eleições, e há quem diga que isso já é um sinal de que a invasão valeu a pena. E se valeu, foi a estratégia correta. E se foi a estratégia correta, vai ser repetida. Pelo bem da democracia no mundo. E surge a pergunta: qual será a próxima tirania a cair frente ao esforço reformista à força? Os próprios americanos já admitem a possibilidade. Um país vizinho ao Iraque, igualmente rico em história, igualmente distante do Brasil: o Irã.

O alvo é óbvio há muito tempo. Berço da milenar cultura persa, desde 1979 o país asiático se transformou numa grande pedra no sapato do chamado "ocidente", especialmente a Europa do oeste e os Estados Unidos. Foi em 79 que o então rei iraniano foi afastado em uma revolução que levou ao poder o clero muçulmano. A religião se tornou lei, e tudo associado ao monarca (chamado "xá" no Irã) passou a ser visto como errado. O xá se dizia modernizador, queria ver seu país como uma nação européia. Comprou maquinário das potências ocidentais e esqueceu o povo, menosprezou tradições religiosas, reprimiu. O xá se foi e os Estados Unidos, que sempre apoiaram e exploraram o xá e sua fortuna, os Estados Unidos e suas mulheres seminuas, seu álcool, seu vício, se transformaram no inimigo. Para os americanos, por sua vez, o Irã pós-revolução trouxe uma ditadura religiosa. Um país inimigo dos ideais americanos. Um membro do eixo do mal, que supostamente abriga terroristas islâmicos. Nesse ódio mútuo, só nasceram desconfianças e acusações nos últimos 26 anos.

Ontem, uma grande passeata tomou as ruas da capital iraniana, Teerã. Uma passeata que acontece todos os anos, com o apoio ou talvez por iniciativa do governo do país, para que os iranianos da capital possam mostrar seu apoio aos irmãos muçulmanos palestinos e seu sonho de ter um país em terras hoje ocupadas por Israel. Queima de bandeiras israelenses, gritos de "morte à América" e "morte à Grã-Bretanha" sempre foram comuns no evento, e a TV britânica mostrou as imagens por aqui com grande empolgação. Neste ano, porém, a passeata coincidiu com dois fatos. Em junho, o Irã elegeu um conservador, alguns dizem "ultraconservador", para ser presidente. Dizem que o novo líder, chamado Mahmoud Ahmadinejad, foi o vencedor porque os religiosos do país usaram "a máquina" das mesquitas para apoiá-lo. A passeata pró-palestinos ocorreu na mesma semana que o presidente iraniano, participando de uma palestra sobre um "mundo sem sionismo" em Teerã, decidiu invocar as palavras do pai da revolução islâmica de 79, Ruhollah Khomeini. O aiatolá (título dado a alguns altos clérigos muçulmanos) dissera quando estava vivo que Israel tinha que ser eliminado do mapa, e agora é Ahmadinejad que está dizendo isso. Na passeata, em resposta aos distantes gritos de protesto internacionais em relação a sua intolerância com Israel, Ahmadinejad confirmou, reiterou e reforçou suas palavras, que, segundo ele, são palavras "da nação".

A questão do programa nuclear iraniano tornou a situação toda um pouquinho mais complicada. O Irã tem tecnologia nuclear e exige o direito de enriquecer urânio, dizendo que é para fins pacíficos. Os Estados Unidos desconfiam que o país quer construir uma bomba nuclear, ou várias bombas nucleares. O Irã diz ter um direito inalienável de fazer o que bem entende nessa área, e que quer a tecnologia apenas para fabricar eletricidade. Moradores de Resende, no Rio de Janeiro, conhecem bem esse argumento. É difícil engolir que as potências que têm conhecimento completo de todo o ciclo nuclear detenham o direito de dizer quem pode e quem não pode avançar na tecnologia. Parece que o clube nuclear é o clube do Bolinha. Parece que não querem dividir o doce nuclear com as crianças em desenvolvimento. Se ao menos o governo americano pudesse confiar mais no governo iraniano, as coisas poderiam ser mais tranqüilas. Mas, aparentemente, com Ahmadinejad no poder, não há espaço para tentativas de distensão.

O nervosismo cresce e cresce. Hoje comprei o The Sun, o mais conhecido jornal sensacionalista da Grã-Bretanha. Ele não é conhecido por usar meias palavras e, como no caso de todos os jornais daqui, não é tímido em tratar de assuntos de política internacional. Eis o título do artigo do The Sun sobre o presidente iraniano, tendo em vista o protesto de ontem: "O Homem Mais Diabólico do Mundo". Trata-se de uma biografia de Ahmadinejad, explicando por que, segundo o tablóide, ele quer provocar uma guerra com potencial apocalíptico.

Nesse contexto, entra eu. Em minha jornada pelo Uzbequistão, há dois anos, mais de um viajante que encontrei me falou que, se gosto de arquitetura islâmica e história da Ásia Central, meu destino e o destino da terra dos aiatolás iriam se cruzar no futuro. A velha Pérsia, terra de mesquitas e palácios com cúpulas azuladas em forma de cebola, terra dos xiitas, terra domada por Alexandre, terra de mulheres com véus e olhares insinuantes e homens com cimitarras. A lista de alusões aos contos de Sherazade, o eco de esteriótipos de raízes antigas, se estendem para muito além do que consigo lembrar. Os desertos, o calor. A temível localização geográfica: a oeste do destruído Afeganistão, a leste do letal Iraque, ao sul do enigmático Turcomenistão, do ditador que se diz o grande pai. O Irã do Islamismo radical, mas também do Zoroastrismo, uma das religiões mais antigas do mundo, da qual ouvi falar, o que me parece tão iverossímil, ainda no primeiro grau, em aulas de história quase apagadas das minhas memórias de São Paulo. Quanto de todo esse mistério e dessas imagens se justifica, o que os iranianos querem falar e não podem, o quanto um país tão alienígena para os brasileiros pode ser parecido com o Brasil, tudo isso me intrigou e me fez perder o sono nos últimos meses. Também me atormentou pensar que, como no caso do Iraque, as pessoas no Brasil lêem sobre o Irã e nem sabem do que se trata. Não têm as condições de entender porque o país assume a postura aparententemente beligerante que é reforçada nos jornais que lemos neste lado do mundo. Não conhecemos o Irã, não conhecemos os iranianos, mas eles têm o destino do planeta nas mãos.

Quase em seguida, voltando do Uzbequistão, comprei um guia turístico do Irã. Tanto tempo o livro ficou na estante, me olhando com cara de órfão. Queria companhia para ir para lá, procurei e procurei. Mas o tempo passou, ninguém abraçou a causa, e quem aparecia me vinha novamente com a expressão familiar de espanto de quem não acredita que alguém teria a pachorra de atravessar a fronteira imaginária que separa o mundo onde se fala inglês do mundo onde provavelmente não se fala, e onde você potencialmente está sempre perdido. Também há sempre um fator a mais que impede o surgimento de muitos aventureiros: a preguiça. Após muito digladiar com a minha, comprei a passagem e um kit para aprender a nobre língua dos poetas Hafez e Omar Khayyam. Fiz um pacto com Satanás: pedi a ele que me desse a capacidade de falar um pouco de farsi. Em troca, que o demônio levasse consigo todo o pouco russo que, com esforço, consegui aprender anteriormente. Dois meses depois do pacto, um pouco hesitante, com mochila leve e sapato confortável, adentro o vôo noturno da British Airways para Teerã. Não conheço ninguém no Irã. Se Alá é grande, que prove agora, e que Ahmadinejad não decida testar sua biriba atômica perto de meu quarto de hotel.

(Continua...)

Arcano9
Londres, 1/3/2006

 

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