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Sexta-feira, 10/3/2006
Quase uma despedida
Eduardo Carvalho

Esta não é uma despedida definitiva. O fato de eu me afastar temporariamente desta coluna não significa que me desligo do Digestivo ou - muito menos - que vou parar de escrever. Ambas as possibilidades são impossíveis. Foi aqui que publiquei meus primeiros textos. Devo ao Digestivo este espaço para publicar regularmente, onde desenvolvi o hábito e o gosto de expressar com liberdade - na forma o no conteúdo - o que penso. Essa experiência foi fundamental na minha formação.

O trabalho do Julio, editor do site, como escritor e empreendedor, jornalista e empresário, é o exemplo que deveria vigorar hoje em dia. E foi, de certa forma, um exemplo para mim. O mundo anda cada vez mais complexo, interessante, mas vejo muita gente nova se simplificando muito para se encaixar nas personalidades e profissões mais acessíveis, mais compreensíveis. É um desperdício. O Julio ignora esses esquemas fechados. E combina características que muita gente acha que não funcionam juntas: disciplina e método com uma vocação autêntica para escritor, que é uma atividade que exige concentração, introspecção - e que é provavelmente incompatível com o perfil expansivo e executivo do empresário. O Digestivo é resultado, portanto, de uma combinação difícil, diferente - e a prova de que esta combinação pode dar certo.

Quando comecei a ler mais, aos 15, 16 anos, me convenci de que literatura era o meio mais eficiente para aprimorar minha sensibilidade e suprir minha curiosidade. Tive a sorte de ser bem orientado. Li o que queria ler: livros que ampliaram meus horizontes geográficos, explicaram sentimentos que estavam vagos dentro de mim, estimularam meu interesse por atividades que não conhecia e, portanto, me ensinaram a viver mais e melhor. Esse tipo de educação não é cobrada no vestibular, mas seu valor é, para o resto da vida, inestimável. Aos poucos, senti que precisava compartilhar algumas descobertas. Rabisquei contos, versos, artigos sobre tudo. Entrei na faculdade de administração - onde queria entrar - e continuei escrevendo. Pensei em estudar jornalismo paralelamente, aos 19 anos. Foi quando conheci o Julio por acaso, trocamos muitos e-mails, e - pensando melhor - preferi continuar com administração.

Mas nunca parei de escrever. Mantive por pouco tempo uma coluna no jornal da faculdade; ainda hoje tenho um diário; troquei e-mails longuíssimos, cartas mesmo, com amigos, jornalistas, professores. O pequeno contato que tive com o ambiente mais intelectual me incomodou profundamente. Sempre quis viver uma vida mais independente, diferente. O esquema de intelectuais me parecia muito limitado: fechado em poses e jargões, numa arrogância meio patética, vazia. A vida ia se mostrando fascinante - principalmente através da literatura. E este ponto, na verdade, sempre me foi difícil explicar para amigos ou mesmo em outras colunas: como posso gostar de ler e, ao mesmo tempo, não gostar de intelectuais? Acontece que meus escritores favoritos não tem praticamente nada a ver com o estereótipo do intelectual ranzinza, obscuro e comunista. Sempre gostei de ação e nunca me interessei muito por política. Li mais sobre barcos naufragando a caminho de Bangkok, aviões atravessando desertos, amores redescobertos em Fiji, do que tratados políticos incompreensíveis, maçantes.

Me lembro de Joaquim Nabuco, em Minha Formação, dizendo que o estilo de um escritor se cristaliza aos vinte anos, junto com a sua personalidade. Faz sentido: acho que o tamanho do nosso mundo se fecha com essa idade também. Até os vinte anos, tentamos entender o que está a nossa volta; quem são essas pessoas todas; onde começam e onde termina tudo; o que pode estar certo e o que pode estar errado - quase como um bebê aprendendo a andar. É importante pensar em coisas diferentes, imaginar mundos distantes. Se, até os vinte, a pessoa exercitou pouco a imaginação, dificilmente vai viver uma vida mais completa depois. Os vinte anos - dos 20 aos 25, digamos - é a seqüência dessa experiência inicial: são os primeiros passos, os primeiros ensaios. Eles podem negar ou comprovar o que previmos antes. Mas esses ensaios vão estar limitados ao ambiente que estava formado antes. Alguém que nunca se imaginou pescando em Zanzibar, fazendo cooper em Muscat ou morando em Manila dificilmente vai experimentar isso depois sem achar exótico demais.

Escrevi para o Digestivo dos 21 aos 25 anos: durante esta fase de ensaios, de testes, de experiências novas. Não poderia ter sido um período melhor para mim. Foi do começo da faculdade ao fim dela, e coincidiu com experiências - viagens, leituras, etc. - decisivas para a minha formação. Escrever sobre elas foi um exercício insubstituível para a minha educação. Escrever acho que é a forma mais civilizada de se expressar uma idéia ou um sentimento: provavelmente porque é ao mesmo tempo a mais difícil e a mais precisa. Aos vinte anos, esbarrando em novidades, escrever é um desafio particular. As idéias estão incompletas, os sentimentos são inéditos - não que isso mude muito depois... -, e explicar tudo claramente fica muito mais complicado. Mas essa prática apura o raciocínio e a sensibilidade e - se isso não melhora muito também... - a principal vantagem é que, no final das contas, quando você lê o que escreveu, percebe que está quase tudo ali: e descobre como estamos presentes no que escrevemos. Aquela história: o texto somos nós.

Escrever esta coluna foi acima de tudo um exercício de auto-conhecimento. Às vezes sentia alguma coisa sobre um assunto ou situação que não estava nítida; e, escrevendo sobre o tema, minha opinião ia se esclarecendo, se cristalizando. Tentei fazer isso da forma mais limpa e mais bonita que consegui.

Encontrei no Digestivo um espaço para escrever sobre meus assuntos preferidos da forma como eu quisesse. Nunca meus textos foram enxugados ou ajustados. E recebi incentivos e dicas do Julio, com a recomendação de que eu escrevesse sempre - normalmente acompanhada de elogios que não sei se sempre mereci. Fiz o que pude, quando pude. Recebi comentários de todos os tipos. Me correspondi muito com leitores constantes, famosos e desconhecidos. Ignorei os leitores estúpidos. Conheci quase todos os colunistas; alguns são hoje grandes amigos. Fico contente quando temos jantares do site, em que nos reunimos para conversar sobre tudo: cada um tem a sua rotina, o seu trabalho, os seus assuntos preferidos. E todos gostamos muito de escrever. Esse é um hábito que mistura pessoas interessantes interessadas em temas muito diferentes: política no Oriente Médio, jardinagem, cinema, Bach, futebol, quadrinhos, mitologia, oceanografia, etc. Dificilmente se reúnem pessoas assim em outros ambientes.

Em cinco anos, foram mais de 60 colunas. Agora, revendo os títulos, lembrando os assuntos, relendo trechos, fico com saudades. Escrevi sobre assuntos variados: uma justificativa por morar em São Paulo; algumas viagens de carro pelo Brasil, de São Luis a Cuiabá; de férias em Roma, Londres, Viena, Moscou, Nova York, Paris; Bernard Shaw, Raymond Radiguet, Montaigne, Paulo Francis; a liquidação de um sebo, minha formatura na faculdade, um teatro na Moóca; filme sobre músico caipira, exposições, revistas. Escrevi de lugares diferentes: na correria da sala de computadores da GV; na calma do escritório na fazenda; com vista para a praia, no litoral de São Paulo; viajando de ônibus no interior da Hungria; de madrugada num restaurante em Vancouver; cansado, depois de voltar da academia à noite e ler uns parágrafos de Proust para desacelerar; num domingo de manhã num internet café em Barcelona. Sinto, relendo tudo, que estou quase inteiro nas minhas colunas: minhas opiniões, preferências, impressões. O texto somos nós.

Eduardo Carvalho
São Paulo, 10/3/2006

 

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