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Quarta-feira, 3/5/2006
Minha história com Marisa Monte
Ana Elisa Ribeiro

Não sou especialista em música e nem faço esse tipo de crítica como se fosse coisa séria. Talvez por isso eu mereça ser lida. Justamente por declarar meu amor e meu ódio ao artista que me definiu como fã, até o dia em que me senti abandonada em meu gosto inocente de ouvinte apaixonada. Talvez por isso eu possa dizer, sem compromisso e sem muita afetação, de um gosto como o de muitas pessoas. Gosto que tem força, mas não é inabalável.

Ainda na década de 1980, eu conheci a voz de uma moça que tinha ares do oriente médio. Sobrancelha grossa, cabelos soltos e ondulados, olhar itinerante, voz de sereia. Lembro até hoje de percorrer as lojas de discos, ainda vinis, do centro de Belo Horizonte em busca de um CD chamado MM. Não encontrava, ninguém tinha, e ninguém sabia direito quem era ela.

Lembro de aprender a pronunciar "E pó che fa", para dizer o nome da música da novela em italiano. Era das piores do CD, como geralmente acontece às "músicas de trabalho". Mas eram interessantes as versões de "Negro Gato" e de "Porgy and Bess". A moça misturava português com inglês, fazia duos improváveis e tinha peito para cantar o que as musas do jazz americano já haviam sublimado.

Essa era Marisa Monte. Garimpeira de repertórios, dona de grande autocrítica e de um sensacional talento de encontrar a música que melhor lhe caía na garganta.

Anos depois de descoberta por trilhas da Globo, Marisa apareceu com um CD autoral: Mais. Havia, nitidamente, se aproximado dos Titãs, e gravava ali as canções feitas por e para ela. "Diariamente", apesar de saída dos arquivos de listas de Nando Reis, tinha um clima de dia ensolarado. Bem-tocado e bem-cantado, o CD era a virada de Marisa do garimpo para o pop. Não foi à-toa que "Ainda lembro" apareceu nas trilhas do rádio e quem nunca ouvira falar na cantora já se sentia seu fã.

"Beija eu" foi o hit que explicitou a parceria, nunca terminada, de Marisa com Arnaldo Antunes. Vale a pena dedicar o próximo parágrafo aos Titãs, que começaram "Titâs do Iê-iê-iê" e hoje quase só vivem de músicas com letras de auto-ajuda.

Os Titãs também começaram sua carreira com discos perdidos entre um som Kid Abelha e uma levada rock'n'roll. Até o Cabeça Dinossauro, que os projetou, só haviam gravado memórias de estúdio. Os Titãs são um desses fenômenos que a sociologia adora estudar. Juntos são muito mais do que suas partes isoladas. Não se explica o que cada um deles faz solo, apenas do que são e, principalmente, do que já foram juntos.

Pois bem, num desses isolamentos dos Titãs, Arnaldo Antunes compôs com Marisa Monte. Bem-sucedida a parceria, mais tarde deu até em Tribalistas, que foi quando resolvi brigar com a cantora até que ela se redimisse a voltasse ao CD-player do meu carro (que é o único lugar em que tenho ouvido música).

Para abreviar o nome, Cor-de-rosa e carvão apareceu para variar a levada pop de Marisa. Nele, era possível ouvir "Balança Pema", espécie de forrozinho que funcionava bem até em festas. Marisa pôs nas paradas "Segue o seco" e "Maria", duas bem-sucedidas canções de fazer clipe. "Segue o seco" abria as portas para Carlinhos Brown, que é bom mesmo nos bastidores.

Mais tarde, eis que aparece Marisa com as Crônicas, transgênero que faz brincarem música e literatura. Daí já não sei mais dizer muita coisa. Foi um CD que ouvi cinco ou seis vezes e nem chegou a entrar no carro. Certo desinteresse intuitivo já me indicava os Tribalistas, cujo lançamento me deixou mesmo lamentosa. Parecia muito um programa de marketing, no mau sentido, em que tudo estava projetado como uma arapuca para pegar quem ainda não havia comprado presente de Natal. Eu sei, eu sei que algumas canções podem até ser bonitinhas, mas não era mais a Marisa Monte das divas do jazz, nem do canto limpo, nem mesmo era o Arnaldo Antunes dos discos ou dos livros. Não comprei.

Eu, como fã de Marisa, era condicional: não compro. Fiz minha greve particular, que sei que não fez a mínima diferença para ela. E nem era esse o meu intento. Marisa seria sempre Marisa. Enquanto eu deixava de comprar, quantos mil outros o faziam para dar de presente com laço de fita. Mas davam, no mesmo pacote e na mesma data, um CD de axé e um de pagode. Um sertanejo brega e um disco de trilha de novela. Marisa, para mim, não tinha mais identidade. Perdera o rigor, assim como a personalidade. Mas também me esforcei para entender que os Tribalistas não era ela. Adiante.

Gostar de Marisa Monte me fazia uma fã sua. Embora ela não soubesse, eu queria mesmo era a voz do primeiro CD. Queria ouvir na voz dela as músicas de Ella. Atrevia-me até a pensar para ela uns repertórios, mas ficavam para mim. Doía-me pensar que os mil compradores do CD de Marisa não a diferenciavam de "uma-zinha" qualquer. Compravam o CD porque uma, e apenas uma, música estava na moda. E para mim, valia mais o amor que eu tinha pela carreira da cantora do que aquele milhar de fãs de minuto.

Não vou à mesma livraria há anos à-toa. Vou porque tenho vivência espiritual lá. Não vou porque está na moda. Vou porque gosto do atendimento, escolho meus livros, leio na mesinha do canto, como uns pães de queijo, tomo um capucino, compro com desconto e saio feliz. Vou porque lá tem um ambiente que me agrada. Não sairá de moda enquanto eu souber o que quero e do que gosto. Já o leitor que compra em qualquer lugar, não sente o que há de especial nas coisas, nas mesas, nos garçons, afora uma diferença micro de preço.

Era isso, para mim, ouvir Marisa: discrepá-la do resto das cantoras. Comprar os CDs sem jamais ler a crítica especializada. Passar meses ouvindo as mesmas músicas, só para formar meu gosto e ser afetada por uma opinião.

E desde os Tribalistas que achei que Marisa não povoaria mais meus alto-falantes. No entanto, na semana passada, entrei numa loja e, sem pestanejar, comprei os dois CDs novos da cantora. Sem dó, de uma vez, sem barganha ou delonga.

Trouxe Marisa para o carro e escondi a capa do CD dentro do porta-luvas. Há semanas venho ouvindo o mesmo CD de sambas, canções cuidadosamente garimpadas pela musa de outrora. E tive, novamente, a sensação de que este Universo ao meu redor cumpre o papel que eu queria: voltar Marisa à mais alta conta do meu gosto musical.

Não sou do samba e nem sei bem do percurso desse gênero musical. Não conheço compositores antigos e nem faço parte de qualquer movimento sambista. Estou é curtindo a idéia de ser apresentada aos sambinhas da época do meu avô pela voz da Marisa Monte. Destaco duas canções, ao menos, que me surpreendem e me trazem arrepios: "Vai saber?" e "O Bonde do Dom". A primeira me deixou pasma quando soube que era composição de Adriana Calcanhoto. E não apenas isso. O arranjo tem lá ao menos uma trinca das cordas dos Morelenbaum. Perfeito. Cantos e contracantos, mil mesmas vozes de Marisa. "Bonde do Dom" é parceria manjada de Marisa, o Arnaldo ex-Titã e Carlinhos Brown, mas nem mesmo se parece com o que se fez nos tribais de antes.

Ainda estou por conhecer o CD gêmeo: Infinito particular, que deve entrar em meu carro daqui a duas semanas. Mais ou menos autoral? Vai saber?

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 3/5/2006

 

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