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Quinta-feira, 30/3/2006
As crônicas de Ivan Lessa
Fabio Silvestre Cardoso

No jornalismo brasileiro, a crônica possui talvez a mesma importância que o ensaio tem para o jornalismo norte-americano e europeu. Ainda que por aqui existam textos de natureza mais reflexiva e ensaística, pode-se dizer que, para o bem e para o mal, a crônica é uma das assinaturas do nosso jornalismo, numa tradição que remonta aos viajantes que estiveram no Brasil e fizeram seus relatos históricos (pois a crônica tinha um valor inestimável para poder traçar um perfil dos lugares e dos povos) e que hoje alcança grande da mídia impressa e eletrônica no país. Nota-se, aliás, que há um excesso de crônicas, uma vez que todo candidato a escritor logo se apressa a escrever relatos mais ou menos engraçados sobre os mais variados assuntos.

No entanto, o leitor que não se engane: nem todos têm talento. Na verdade, é correto afirmar que é graças a um grupo seleto de cronistas, entre eles Rubem Braga e Antônio Maria, que o gênero ganhou a importância atual. E é da lavra de um desses grandes cronistas que a editora Companhia das Letras lançou, no final de 2005, uma preciosa coletânea. Em O Luar e a Rainha, o escritor e jornalista da BBCBrasil Ivan Lessa, que já foi da turma do Pasquim e da redação da revista Senhor, mostra por que é um dos grandes autores do gênero, com um estilo marcante, sem ser óbvio ou medíocre. Em outras palavras, o cronista Ivan Lessa entrega mais do que o gênero costuma propiciar aos seus leitores. Vejamos como.

Ao longo de mais de 130 crônicas que foram escritas originalmente para o site da BBCBrasil, onde assina uma coluna três vezes por semana, o autor destila seu humor afiado acerca de assuntos tão diversos quanto curiosos e que, se alguém nos contasse, dificilmente pareceria verdade. Afinal, o que dizer das pesquisas propostas pelos cientistas britânicos a respeito dos acidentes que acontecem em casa, pois para a surpresa de muita gente milhares de tombos domésticos são provocados pelo simples ato de vestir as calças; ou que o Cubismo é fruto não do gênio de artistas plásticos, mas, sim, da enxaqueca (pelo menos é o que afirma o centro da Universidade Médica da Holanda; isso para não mencionar a sondagem realizada junto aos internautas que provava que estes eram ex-usuários da internet).

Sim, leitor, a pergunta cabe, até porque eu não respondi no parágrafo anterior: qual o uso de tais pesquisas? Aparentemente, antes das crônicas de Ivan Lessa, tais investigações tinham um fundo científico. E a graça de toda a história está justamente aí: Ivan Lessa conseguiu extrair de cada tema o ridículo de seus objetivos primários, esse interesse quase obtuso de tão específico por assuntos esdrúxulos e que, ao fim e ao cabo, não têm importância alguma. É esse o método, mas o leitor mais atento há de observar que a fórmula não se esgota por aí.

Para além da ironia, Ivan Lessa escapa de ser a referência para os assuntos escolhidos. Isto é, ele não prega seu ponto-de-vista, como de um obcecado, para os temas que o cercam. Em certa medida, o que se percebe é o espanto de um leitor comum ante as notícias do dia-a-dia, seja na internet, seja na TV, seja nos bons e velhos diários britânicos. Nesse ponto, ele se contrapõe a quase 99% dos cronistas brasileiros, até mesmo dos atuais - como Joaquim Ferreira dos Santos, Ignácio Loyola Brandão e de Mario Prata. Em outras palavras, não é o cronista que delibera se o assunto é ou não estranho aos seus olhos, mas, antes, é porque ele repara uma situação cômica possível por detrás da aparente seriedade da ciência, da política e do factual.

O leitor, portanto, não vai encontrar, em O Luar e a Rainha nada sobre umbiguismo de Ivan Lessa, como suas manias ao acordar ou a sua dificuldade a andar de táxi por Londres. Pelo contrário, mesmo quando ler sobre a experiência de voto do cronista, o assunto em questão será a apatia da política local, carente de representantes viáveis e compatíveis com o perfil requerido.

É forçoso notar, com isso, que Ivan Lessa possui um fôlego e tanto, não somente pela quantidade das crônicas escritas, mas pela concisão e objetividade do texto. Apesar de ser uma crônica, cujo flerte com a literatura, muitas vezes, é a salvação da lavoura, no texto de Ivan Lessa é aspecto secundário, não pela falta de talento do autor, mas, especialmente, pelo fato de ele utilizar como matéria e ferramenta de trabalho o jornalismo (além das pesquisas, os outros temas são pescados na mídia).

Uma única ressalva: o livro de Ivan Lessa, assim como muitos jornalistas fazem, não é uma obra original, uma vez que foi publicada anteriormente em outro veículo, mais precisamente na internet. Talvez a receptividade por parte dos leitores fosse maior caso o livro fosse todo inédito. Ainda assim, é um alento que o texto desse grande escritor e jornalista esteja disponível nas prateleiras, pois é fundamental que os novos leitores saibam que nem toda a crônica possui é sobre o besteirol ou auto-ajuda, do mesmo modo que assuntos mundanos também podem ser dissecados com elegância e ironia. Em uma frase apenas: Ivan Lessa dignifica a crônica.

Baden Powell, ao vivo em Bruxelas
O violão vadio de Baden Powell, o parceiro do poeta da MPB Vinícius de Moraes está disponível em mais uma versão de virtuosismo e talento. É o álbum Baden - Live à Bruxelles, que, como o nome indica, traz uma apresentação direto da capital belga (gravada em 1999). No disco, Baden Powell não faz nada de muito diferente de suas performances nas seis cordas. E isso não é pouca coisa. É o que se ouve, por exemplo, na longuíssima introdução do clássico caipira "Asa Branca," sem mencionar a continuação da música propriamente dita.

O grande destaque, porém, fica por conta de uma versão sonoramente orquestral de um violão só de "Samba do Avião". Talvez seja a única vez em que o piano de Tom Jobim não tenha sido uma ausência considerável. A velocidade que Powell imprimiu tirou o caráter bossa-nova e instituiu uma outra música. Que outras gravações assim apareçam; música de qualidade, mesmo fora de época, é sempre uma renovação.

Para ir além





Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 30/3/2006

 

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