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Segunda-feira, 17/4/2006
A ascensão de um novo faroeste
Marcelo Miranda

Há meses, quando escrevi sobre a quase irrelevância do gênero faroeste no cinema americano atual, não imaginava que alguma produção significativa fosse aparecer tão rápido. Claro que o processo é lento, mas certas realizações recentes já deixam claro o que eu tentava dizer naquela coluna desde o título: o faroeste jamais morreu; apenas entrou em hibernação.

Pode ser que esse período de suspensão tenha finalmente acabado. O chamado "gênero americano por excelência" (por lidar com questões tipicamente da história dos EUA, desde territorial até significados sobre a fundação do país) possui espaço garantido no coração de milhares de amantes do cinema há décadas, e era triste ver o caminho para onde ele se dirigia desde Os Imperdoáveis, que, simbólica e aparentemente, sepultara o western em 1992. Pois ao menos quatro obras recentes dão nova perspectiva ao combalido universo das pradarias, dos machos armados, das disputas por terra e dinheiro. Dão olhar diferenciado ao que vinha sendo feito em trabalhos de apelo menor, sendo o razoavelmente interessante Pacto de Justiça (2003), de Kevin Costner, o único de fato digno de nota.

Em todas as tais quatro produções, destaca-se não o elemento da referência, da homenagem ao gênero, da adoração, como muito bem fez Costner. Em todos, há um tom muito mais melancólico, menos reverencial, mais autenticamente dolorido nas relações entre os personagens e no trato com o próprio espectador. São filmes que se utilizam de novas interações e contatos, de linguagens menos "selvagens", para transmitir idéias bastante distintas do que se convencionou como alicerces do faroeste. Exemplicar pode facilitar o entendimento desse caminho: refiro-me especificamente aos longas-metragens A Proposta, O Segredo de Brokeback Mountain e Três Enterros de Melquiades Estrada, e ainda à série televisiva Deadwood.

O primeiro caso é emblemático. Trata-se de um filme produzido na Austrália, enfocando o oeste do continente, mas trabalhando com lógicas e símbolos tipicamente americanos - o pistoleiro, a lei na figura de um xerife, a sede de justiça das pessoas comuns. Só que este filme de John Hillcoat, escrito pelo músico e poeta Nick Cave e lançado apenas em DVD no Brasil, não se fixa nas disputas meramente combativas desse mundo. Importam mais as angústias de cada um. A Proposta é faroeste depressivo. A trama envolve três irmãos irlandeses delinqüentes e um oficial tentando fazer o que acha certo. A tal proposta do título vai colocar tanto o capitão quanto um dos membros do trio criminoso em situações-limite difíceis de serem resolvidas de forma fria e rápida, criando questionamentos genuínos sobre qual a melhor ação a ser feita.

<I>A Proposta
Guy Pearce em A Proposta

Hillcoat prefere filmar lindas paisagens da Austrália a apostar só em cenas de ação e tiroteio. O ator Guy Pearce (Amnésia) anda a cavalo em busca do irmão mais velho ao som de uma música sussurrada, quase distante, mas muito presente. O visual é dos mais sujos, com direito a mosquitos, corpos e sangue - em especial o açoitamento de um prisioneiro, momento dos mais chocantes. As relações humanas são desenvolvidas, e todas destruídas, ao longo da narrativa. Família é o tema central que permeia o filme, e é a família a instituição em jogo em cada decisão e a que primeiro será prejudicada com qualquer atitude dos personagens. Sobra ainda espaço para questões políticas sobre a colonização australiana, na presença de aborígenes que têm função equivalente aos escravos americanos.

Por sua vez, O Segredo de Brokeback Mountain, do chinês Ang Lee e realizado nos EUA, trabalha em outra chave. Deixa de lado a ambientação puramente histórica, abre mão dos pistoleiros assassinos e filma a saga de dois pastores de ovelhas que se vêem surpreendentemente apaixonados um pelo outro. A narrativa abarca vinte anos na vida de ambos, e em meio a encontros e desencontros, eles vão levando esse romance, proibidos de assumi-lo por imposições morais questionáveis e cegamente respeitadas. Lee usa e abusa dos códigos do faroeste para desvirtuá-los e criar algo inesperado. Ele não carrega nenhum tipo de bandeira homossexual nem muito menos toma partido dentro das relações que cria. O diretor simplesmente lança na tela a paixão exacerbada e incontrolável de dois homens que, juntos no isolamento da montanha, não vêem outra saída a não ser se entregarem a esse impulso.

<I>Brokeback Mountain
Amor nas pradarias em O Segredo de Brokeback Mountain

A esperta utilização de planos abertos na montanha e o aproveitamento de suas dimensões naturais (e é justamente ali que os vaqueiros liberam seus instintos de forma mais autêntica, seguindo suas naturezas) contrastam com a ambientação fechada e por vezes sufocante das casas onde cada um vive, espécies de gaiolas a aprisionar a vontade de estarem lado a lado. Nunca foi segredo que o cinema clássico deixava nas entrelinhas relacionamentos íntimos entre cowboys - Matei Jesse James, de Samuel Fuller, e Rio Vermelho, de Howard Hawks, têm insinuações quase explícitas. Pois Ang Lee traz à contemporaneidade o que parece ter ficado guardado e enfumaçado pelos canos de revólveres ao longo de anos.

Três Enterros de Melquiades Estrada, estréia na direção para cinema do ator Tommy Lee Jones e que chega ao Brasil em breve, igualmente aposta nessa melancolia típica do "faroeste pós-moderno", numa premissa que muito lembra Parceiros da Morte, primeiro longa do mestre Sam Peckinpah: no interior do Texas, nos dias atuais, próximo à fronteira com o México, um imigrante ilegal é morto por guarda americano. O melhor amigo do falecido seqüestra o assassino e o obriga a percorrer com ele tortuosos caminhos através das paisagens deslumbrantes da fronteira para enterrar o morto em sua própria terra.

<I>Três Enterros
Justiça e culpa em Três Enterros de Melquiades Estrada

Novamente a natureza é utilizada (e maravilhosamente aproveitada) dentro da linguagem do filme - aqui, para ilustrar o vazio interior em meio à jornada de dois homens com anseios e motivos diferenciados. Um inicialmente busca vingança, o outro tenta se livrar da sina de ir contra a vontade. Ao fim, ambos estarão modificados, resultando num belo e triste painel sobre justiça e culpa. Tudo mais reflexivo e contemplativo do que esperaríamos do gênero em outros tempos. O desenvolvimento é lento, porém jamais arrastado e sempre envolvente; há um respeito e humanidade imensos para com cada personagem, em especial ao Melquiades do título, símbolo de amizade numa terra fria e sem laços fraternos, onde só mesmo o estrangeiro pode trazer alguma alegria de viver - e não por menos, ele não vai sobreviver nesse universo por muito tempo. Melquiades, vindo de fora, não pertence àquele lugar, e também não faz diferença (como fica claro quando a polícia ignora sua morte).

Por fim, Deadwood. Produzida pela HBO, a série criada por David Milch e cuja primeira temporada foi ao ar em 2004, retorna aos primórdios do mundo dos pistoleiros e é a produção mais "tradicional" dessa retomada do gênero. A ação ocorre em 1876, no povoado de Deadwood, Dakota do Sul. Terra sem lei por ser considerada território indígena (ou seja, sem dono), ali convivem os tipos mais variados da fauna do velho Oeste, a maioria com o intuito de explorar o garimpo. Temos um microcosmo de relações, sendo o centro dominado pelo "poderoso chefão" local, dono de um prostíbulo e responsável pelas barbaridades ali cometidas; e a dupla formada por dois ex-xerifes que se instala na cidade fugindo de responsabilidades maiores. Todo a engrenagem da série vai rodar em torno desse trio, em meio a muita intriga e violência - só no episódio de estréia, há o espancamento de uma prostituta, punhaladas, tiroteios e o massacre de uma família no meio da estrada.

<I>Deadwood
Os primórdios dos EUA em Deadwood

Por não contar com parâmetros legais, Deadwood é um caldeirão sempre prestes a explodir, verdadeira terra de ninguém. E Deadwood vai explorar isso ao máximo, e é aí que está o motivo do seriado se destacar: não serão os tradicionais duelos à bala que resolverão as pendências. A verborragia é característica da série, e o choque entre os personagens se dará na maior parte das vezes no corpo a corpo, nas discussões, nos olhares trocados, na selvageria de pequenos gestos, no ódio, no desejo de vingança, na nudez quase nunca sensual. Não há tiros para todos os lados em Deadwood. Importa, para Milch e equipe, desenvolver as raízes de um país nascido sob o jugo da violência e do sangue. E para isso, nem sempre é preciso usar dessa mesma violência na tentativa de representar esse processo controverso.

O novo faroeste que parece surgir aos olhos do espectador atento tem muito a nos dizer. Os realizadores dessas produções não parecem querer diretamente trazer em si essa responsabilidade de colocar o gênero sob um prisma diferenciado, mas cada um, à sua maneira, realiza essa façanha. E não parece ter acabado: Wim Wenders lançou no Festival de Cannes do ano passado Estrela Solitária, que também trabalha com os códigos típicos do western para falar sobre a busca de um filho perdido. E outros dois diretores de peso estão trabalhando em novos exemplares do gênero - um é o italiano Enzo Castellari, responsável pelo excepcional Keoma (1976) e que recentemente anunciou novo projeto; e o outro é o americano Terry Gilliam, que depois do mal-sucedido Irmãos Grimm, tenta voltar a uma posição de destaque com Tideland. É esperar e torcer para fazerem jus aos que parecem ter lhes aberto as portas.

Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 17/4/2006

 

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