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Sexta-feira, 28/4/2006
Lendas e mitos da internet no Brasil
Julio Daio Borges

Sobre o internauta...

* É nerd - Tudo bem, a internet nasceu no meio dos computadores; e, tudo bem, a internet é fruto de uma rede de computadores. Mas nem todo mundo que faz a internet, hoje, é analista de sistemas ou engenheiro de computação. E tudo bem, também, que, durante muito tempo, a internet só pôde ser acessada através de computadores. Mas, nem por isso, todo mundo que acessa a internet agora é vendedor de hardware, programador de software ou profissional da área de suporte. Você, que ainda pensa assim, precisa saber que a internet hoje é feita pelas mesmas pessoas que acessam a World Wide Web (vide Orkut), e não, apenas, pelos criadores de sites e desenvolvedores de aplicações-web. Depois, precisa também saber que o ciberespaço - esse "lugar" inventado pelas redes de computadores - está acabando: a internet, se você ainda não percebeu, vai estar no seu celular, no seu carro, no seu televisor... Internet, computadores e "computeiros" - deixam de ser sinônimos.

* É adolescente - Eu sei que, até pouco tempo atrás, se você sintonizasse o Marcelo Tas na televisão, parecia que ele falava aos internautas como se eles fossem débeis mentais. Eu não sei se, na verdade, a culpa é toda do Marcelo Tas, mas o Ernesto Varela já saiu do ar e os cadernos de informática, tecnologia e/ou internet continuam se endereçando ao internauta como se ele tivesse entre 15 e 25 anos de idade (ou, algumas vezes, entre 0 e 15 anos). Quando - como disse o fundador do LinkedIn (um Orkut voltado para o mundo corporativo) - a faixa de internautas entre 25 e 65 anos é muito maior! Ou seja, mais da metade dos internautas hoje não lê os cadernos e as revistas "dirigidos a eles" - não só porque estão ficando alérgicos a papel, mas... - porque não precisam mais entregar o "dever de casa" (com ou sem o Google), não são o público-alvo dos pedófilos de plantão (nem acham que o Orkut deve fazer "alguma coisa" - alguma telefônica faz?), nem, muito menos, vão indicar esses suplementos a seus filhos ou netos (estes preferem acessar conteúdo mais adulto...).

* Precisa de (auto-)ajuda - Deve ser um ranço dos cadernos de informática (e das revistas, idem), agora em vias de extinção... Quem cunhou a expressão foi o Sérgio Augusto (numa conversa telefônica, anos atrás): "Pra mim, é tudo auto-ajuda: não importa se é para ensinar o sujeito a instalar um programa ou se é para aconselhar na compra de um computador...". E ele tem razão. Por algum mistério insondável, as publicações fora da internet ainda imaginam que os grandes dilemas do internauta - até hoje - se resumem a qual será a marca da sua CPU, qual será o modelo do seu celular, qual será a resolução da sua câmera digital... Se a internet fosse apenas isso, e se o internauta se restringisse a esse tipo de consumidor, a Web não passaria de páginas e mais páginas de classificados com ofertas de máquinas, periféricos, utilitários e joguinhos eletrônicos. A maior loja virtual do mundo não seria, originalmente, uma livraria (a Amazon); e nem o maior varejista do Brasil (o Submarino) não teria se originado de um site com o sugestivo nome de BookNet...

Sobre o empreendedor (amador) de internet...

* "Eu coloco uma página e pronto: as pessoas, certamente, vão me encontrar" - Ledo e Ivo engano. Se você não estiver no Google, ninguém vai te achar, cara pálida; e você não vai estar no Google se ninguém "lincar" pra você - não é maravilhoso? "Tostines vende mais porque está sempre fresquinho? Ou porque está sempre fresquinho vende mais?" Eu cansei de encontrar pessoas para quem montar um site - e não mover uma palha para a sua divulgação - não significa a mesma coisa que atirar uma garrafa no oceano... Houve um colega de trabalho, ainda, que afirmou: "Já tive um filho, já montei um site... Agora posso até escrever um livro!". Sinto lhe informar: não é a mesma coisa. A internet tem hoje entre 10 e 100 vezes mais páginas do que pessoas no mundo. Se você acha que basta nascer neste planeta para se tornar globalmente famoso, saiba que para tornar conhecido um site na internet é, estatisticamente, de 10 a 100 vezes mais difícil. Se eu fosse você, eu tentava, antes, ser presidente do Brasil ou dos Estados Unidos. (É mais rápido e menos custoso.)

* "Eu compro um mailing, faço alguns disparos... e - voilà - as pessoas já me encontram" - Todo mundo reclama de spam, de fraudes e de trotes eletrônicos, mas, na hora de realizar uma "ação de marketing" pela internet, muita gente ainda acredita em cadastros da Receita Federal, vendidos no camelô mais próximo, e não hesita em distribuir milhares (milhões ou, sei lá, bilhões) de mensagens eletrônicas não-solicitadas... e ainda espera, no meio do tiroteio virtual, "acertar" alguma coisa. Não vai acertar nada. Embora as reclamações por spam continuem (mais por inércia do que por qualquer coisa), os filtros antispam estão cada vez mais poderosos e, tão logo um grande servidor de e-mail (Hotmail, Gmail, Yahoo) detecte um padrão, ele replica isso para toda a Rede e a sua mensagem (para milhares, milhões, bilhões) será imediatamente descartada antes de atingir o destinatário. Público-alvo? Para isso, existe um negócio - profissional - chamado e-mail marketing (e custa caro).

* "Eu aposto em 'marketing viral' (ou em 'marketing de guerrilha') - e as pessoas vão me encontrar, tenho certeza" - A internet foi palco de grandes idéias, é fato, que se espalharam como em nenhum outro lugar; com uma velocidade nunca antes vista... Mas foram idéias geniais! Você tem alguma genial no bolso, como a do Hotmail, por exemplo? O gênio que inventou o Hotmail apenas preferiu o meio internet, mas poderia, se quisesse, ter sido genial em qualquer outro lugar. A internet apenas está revelando outro tipo de gênio - mas, igualmente, genial. Tente bombardear os grandes portais, para ver se eles te dão bola; tente, então, os grandes sites; tente, ainda os "grandes" blogs... Guerrilha é coisa de Che Guevara: ele deu sorte na primeira; deu azar na segunda; e morreu na terceira - é assim que você quer acabar? Fora que "marketing viral" tem de começar de algum lugar. Sem o pontapé inicial, sem o "primeiro motor", sem o Big Bang, não tem Einstein que resolva.

Sobre os produtos e serviços... (e prestadores de serviços)

* "Se eu acesso 'de grátis', então todo o resto deve ser 'de graça'" - Camarada (ou Companheiro), o socialismo é muito bonito na teoria e a internet até se inspirou, sem querer, em alguns aspectos (ou, pelo menos, os ideólogos estão tentando sempre uma amarração), mas você saiu da tela e... There's no free lunch! Alguém está pagando a conta. O escambo era aquele negócio, muito feio, que vinham aqui fazer com os índios, séculos atrás... Então não me peça para pendurar seus banners no meu site, "de grátis", só porque você é legal! Na boa, eu nem sei quem você é, mas eu custei a trazer as pessoas pra cá, foram anos... não vou deixar você cobrar pedágio na entrada principal ou encher a paciência dos meus convidados. Sério, agora: tente sugerir a mesma coisa, de novo, para um grande portal. Tente pendurar seu banner na homepage do Google. (Prometo que, se você conseguir, eu te deixo, tá?)

* "Portal para site: 'A era do conteúdo já passou'. Site para portal: 'Então, faça o seguinte: coloque o seu logo numa página em branco e veja se as pessoas vão lá...'" - Aconteceu de verdade. O site era o Cocadaboa; já o portal... Há anos que eu escuto essa lorota de que a "era do conteúdo" já terminou, mas, desde então, o conteúdo só faz aumentar na WWW (!). Além dos webmasters, dos webwriters... hoje qualquer navegante de primeira viagem pode começar seu blog. Aliás, o sucesso de um site, atualmente, se mede pelo grau de participação dos internautas nas suas páginas. O resto é número. Mas o papo-furado do "fim do conteúdo" foi muito útil nos anos pós-Bolha, quando os portais, além de não quererem pagar, não queriam nem hospedar, exigiam conteúdo exclusivo (embora não valesse nada também) e, por último, se metiam a pautar os sites (em troca de uma - possível - inserção na sua homepage super-poderosa...). E alguns publishers sem escrúpulos não fizeram diferente, prometendo mundos e fundos, apenas porque alguém já publicava on-line... Pense comigo: se não valesse nada o conteúdo, o Google (sempre ele) não estaria procurando indexá-lo cada vez mais.

* "Se eu pagar, então, é porque espero um milagre" - Milagres acontecem... Na Bíblia. Durante o processo de canonização de algum santo (ou papa)... Em nenhuma outra época ou ocasião. (Que eu saiba.) Assim, se você vai fazer uma "ação" via internet - desde montar um site até lançar uma campanha no maior portal da América Latina - não espere por milagres. Atrás da tela da internet, apesar dos números (que igualmente me impressionam), não existem mágicos (ou magos), existem pessoas. Seres humanos. E eles reagem das formas mais inusitadas. Uns te odeiam. Outros te adoram. Alguns simplesmente te ignoram... Who knows? Outra coisa: a internet, em certos sentidos, é uma mídia como qualquer outra. Se você anunciar num jornal, numa revista, numa estação de rádio ou num canal de televisão, eles te garantem a impressão, exibição, a veiculação... - nunca o resultado, a venda, o lucro. O retorno depende de tanta coisa... Milagres, quem foi mesmo que falou?

Julio Daio Borges
São Paulo, 28/4/2006

 

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