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Terça-feira, 18/7/2006
Rumos do cinema político brasileiro
Marília Almeida

As diversas formas de representação de crimes políticos pelo cinema nacional já foram bastante exploradas, principalmente no que diz respeito ao período mais sombrio da nossa história: a ditadura. A ficção Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, e o documentário Vlado - 30 Anos Depois, de João Batista de Andrade, são dois exemplos e ajudaram a compor a mostra Encontro com o Cinema Brasileiro - Crimes Políticos no Cinema, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo de 22 a 25 de junho.

A Mostra também exibiu pérolas nacionais como Terra em Transe, de Glauber Rocha, além de filmes recentes que fazem alusão ao estado de corrupção que se formou em Brasília, como Brasília 18%, de Nelson Pereira dos Santos, e Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach. Também promoveu, inclusive, uma estréia: Veias e Vinhos, de João Batista de Andrade, prevista para entrar nos circuitos ainda este ano, seguida de um debate com o autor. Atual secretário de cultura do Estado, João Batista pode ser considerado um dos cineastas brasileiros mais engajados politicamente, ao lado de Nelson Pereira dos Santos. Mas levou este engajamento até as últimas conseqüências ao se fundir a ele e ter se tornado um homem público, que vê o atual governo como "democrático, mas com um problema grave de segurança" e que tem "pela primeira vez uma política cultural no Estado, que já distribuiu mais de 200 editais de projetos".

Escritor, roteirista e cineasta, João Batista reúne uma vasta produção de documentários e ficção, todos com temas ligados à ditadura e política. Um deles, Doramundo, sobre o Estado Novo, foi produzido em 78 e premiado em Gramado. Veias e Vinhos faz parte de uma produção própria durante os anos de chumbo, muitas vezes inacabada e adiada. Talvez uma das mais marcantes seja O homem que virou suco, de 81, que apresenta a anistia e a luta por uma identidade nacional. Na esteira desta obra, há A próxima vítima (82), sobre a relativa abertura política, e Céu Aberto (86), que retrata a morte de Tancredo Neves. Na época, João Batista dependia de recursos da União Nacional dos Estudantes (UNE) para viabilizar suas produções até que a entidade foi invadida pelos militares.

Depois de seus filmes terem retratado em 87 o tenentismo e rememorado em 2005 a morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI (com quem, aliás, João Batista produziu o programa da TV Cultura A Hora da Notícia, em 1972), o cineasta volta ao período da ditadura com Veias e Vinhos. Só que, desta vez, retrata a época de sua formação. Adaptação do romance de mesmo nome, de autoria do escritor goiano Miguel Jorge, ele é baseado em fatos reais ocorridos em Goiânia, em 1950. Na época, desconhecidos invadiram uma casa e mataram um casal e seus cinco filhos, deixando viva apenas uma menina de dois anos. Manipulado por políticos, o crime continua sem solução e deixou moradores em pânico ao tentar produzir culpados às custas de torturas policiais.

João Batista enfatiza que o filme foi produzido com poucos recursos, dependente da criatividade do figurino e cenografia. Efetivamente, o longa se passa praticamente em apenas um ambiente: o bar do casal de protagonistas Simone Spoladore e Leonardo Vieira. Mas consegue ser singelo e contornar esta dificuldade ao criar uma narrativa linear, mas tensa, com uma boa fotografia. Juscelino Kubitschek está no poder, que logo será tomado por Jânio Quadros. É uma prévia do que seria o golpe de Estado liderado pelos militares e toda a violência policial que traria consigo.

O nível de inconsciência da população brasileira em Veias e Vinhos é veemente e é ele que João Batista considera o ponto de ligação entre todos os seus filmes da época. O protagonista, representado por Leonardo Vieira, é um típico cidadão brasileiro que sonha com o Brasil moderno e desenvolvido prometido por Juscelino. Ele procura uma casa na beira do lago, na Brasília em construção, e ajuda a todos os subversivos que encontra, mesmo que sua visão política seja reduzida, o que o torna um pouco caricatural.

João Batista explora a metáfora política no cotidiano da família retratada através de um simples e inocente gesto do protagonista. Admirador de políticos, ele ostenta em seu bar o quadro de Juscelino, que teima sempre em pender para o lado e ganha um companheiro com o fim de seu mandato: Jango, desconsiderando-se todas as contradições existentes entre os dois personagens. A vida do casal é abalada por um delegado lacerdista, freqüentador do bar, que remói a derrota para JK e tem os brios feridos pelo quadro exposto. Caçador de subversivos, ele é provocador e quer mostrar serviço ao "alto comando", revelando uma hierarquia e interferência entre poderes que envenenou os anos de chumbo.

O diretor acerta ao criar uma situação dúbia e surpreendente, onde nada é o que aparenta e os fatos podem ser utilizados mais contra do que a favor das pessoas que o envolvem. Desconfia-se de tudo e todos e testamos nossos pré-conceitos da época a cada instante. João Batista não coloca a culpa apenas na polícia, braço de um duro regime, mas retrata a situação econômica e alienação de uma sociedade corrompida e como ambas se fundiam com o novo regime, criando uma situação explosiva. O final já é conhecido por todos.

Marília Almeida
São Paulo, 18/7/2006

 

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