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Sexta-feira, 18/8/2006
Um presidente relutante
Lisandro Gaertner

Luís chega em casa. Tira o paletó e desafrouxa a gravata que nunca quis usar. Vai à cozinha, pega uma garrafa de caninha da roça e despeja o conteúdo num copinho comemorativo. Lê, com dificuldade, os dizeres no lado do copo:"Parabéns, pela sua escolha para presidente da empresa". Senta no sofá. Liga a TV procurando um programa sertanejo, mas não encontra. TV a cabo só tem cultura, história e programas legendados. Ô, coisa chique, pensa. Marisa, que estava no quarto, chega:

- E aí, Luís? Tudo bem?
- Tudo.
- Como foi a entrevista?
- Que entrevista?
- A entrevista de trabalho pra ver se você vai continuar no cargo.
- Ah, Marisa, nem me fala...
- Foi mal assim?
- Ô...
- Mas o que aconteceu, Luís? Me conta.
- Tá. Vou te contar, mas depois eu não quero ouvir nem uma palavra sobre isso. OK?
- Calma aí. Isso eu não posso prometer.
- Como assim?
- Luís, você ficou vinte anos me enchendo o saco. Vou ser presidente da empresa, as pessoas precisam de mim, só comigo tudo vai mudar, coisa e tal. Agora, que você finalmente conseguiu, só sabe beber, viajar a troco de nada, reclamar da vida e falar mal dos outros. Você acha que eu não tenho o direito de te cobrar alguma coisa a respeito disso?
- Tá, Marisa. Mas, hoje, eu só vou falar disso uma vez. Tá bom?
- Tá. Por hoje passa. Conta, então.
- Bom, a entrevista começou bem, mas eu meio que me enrolei.
- O que houve?
- Primeiro, eu decidi fazer a entrevista lá no meu gabinete.
- Ué, mas todo mundo foi no estúdio da TV corporativa.
- Eu sei, mas, já que eu sou o presidente, achei que ia ficar melhor falar do meu gabinete.
- Pelo jeito não deu certo.
- Não deu mesmo. Acho que pegou malzão.
- E você se preparou?
- Como assim me preparei?
- Teus concorrentes, aquela menina mal vestida e o rapaz com cara de bunda, pareceram bem preparados.
- Bom, você tem razão. Eu devia ter me preparado, mas na hora pensei: "Pra quê eu preciso me preparar? Eu não sou o presidente?"
- Ai, meu Deus.
- O que houve, Marisa?
- Se você não se preparou, aposto que fez besteira, não fez? Não vai me dizer que você bebeu, Luís.
- Como?
- Meu Deus, você bebeu antes da entrevista, não bebeu, Luís?
- Só um pouquinho...
- Luís, desde o problema com aquele rapaz americano da comunicação, eu disse para você segurar a onda.
- Pôxa, mas eu não sou bêbado e ele ficou me caluniando. Todo funcionário da empresa curte tomar o seu gorozinho. Por que eu não posso tomar o meu?
- Porque nenhum funcionário tem a responsabilidade que você tem, Luís.
- Ah, se eu tivesse conseguido demitir aquele desgraçado do Larry... tudo seria diferente.
- Mas não é. E pior, ficou mal à beça pra você.
- Sei, sei.
- Mas e aí? O que você falou de mais? Foi algo sobre os seus amigos?
- Que amigos?
- Que amigos?! Aqueles que tavam envolvidos naquelas falcatruas...
- Ah, nessa eu me dei bem. Eu disse que tinha colocado todo mundo pra fora. Eu mesmo.
- Luís...
- O quê?
- Você mentiu de novo?
- Eu menti? O que tem de mentira nisso?
- Depois das cartinhas que você mandou quando eles foram demitidos, você acha que alguém ia acreditar mesmo nisso?
- Podem pensar o que quiserem, mas fui eu coloquei eles pra fora. E ponto final.
- Tá, vou fingir que acredito. Só falta você me dizer que repetiu mais uma vez aquela história de que não sabia de nada.
- Foi exatamente o que eu disse.
- Ai, Luís. Eu já te disse: essa história não cola.
- Pô, Marisa. Até você tá contra mim?
- Não. Eu não tô contra você, mas, às vezes, acho melhor pensar que você é bandido ao invés de bobo.
- Tá, então, eu fiz papel de bobo. De novo. Desculpa por eu não ser bandido.
- Deixa de drama e fala qual foi o grande problema.
- No final da entrevista, eu comecei a trocar as palavras. Falei que tinha diminuído salários, aumentado os custos. Na parte mais importante eu me perdi e passei o maior papel de otário. Me embananei todo. Sério.
- Ô, cachaça. Ai, Luís. Mas não se preocupa. Vamos ver se semana que vem você resolve essa história no debate.
- Ah, Marisa. Acho que não vou no debate, não.
- Não vai no debate? Você só pode estar brincando.
- O que é que tem?
- Se você não for no debate, todo mundo vai achar que você tem coisa pra esconder e não tem planos pra melhorar a empresa. Desse jeito, você vai perder o cargo.
- Que nada.
- Quer saber, eu acho que é isso mesmo que você quer. Você está querendo é perder esse cargo.
- Como assim? Eu tô na frente em todas as pesquisas.
- Eu te conheço, Luís. Você sempre foi um boa vida. Já tava aposentado quando aquele pessoal veio te meter essas idéias na cabeça. Principalmente o Zé.
- Que Zé?
- O Dirceu. Ele achava que uma empresa cheia de analfabetos só ia funcionar com um analfabeto no comando.
- Marisa, eu não sou analfabeto.
- Sei, mas comparando com o último presidente...
- O último presidente foi um horror, Marisa. Deixou os empregados na pior.
- E o que você fez de diferente?
- Bom, eu...
- Viu? Não fez nada. Só faltou deixar o povo todo que ele tinha colocado na empresa trabalhando. Seguiu tim tim por tim tim a cartilha que ele deixou.
- Calma, Marisa, você nem me deixa molhar o bico.
- Eu já entendi o seu problema, Luís.
- E qual é o meu problema, mulher?
- Você nunca quis ser presidente da empresa.
- Como assim?
- O teu lance era ficar reclamando dos patrões, mas sem fazer nada. Agora que assumiu o poder e teus amigos te deram uma rasteira, se revelando os bandidos que são, você está se sabotando para cair fora.
- Me sabotando?
- É, se sabotando. Eu estou lendo um livro sobre isso. Tem gente que, ao invés de abandonar as suas responsabilidades, começa a fazer besteira para os outros colocarem eles para fora. Sem coragem de assumir que escolheram algo que não queriam, deixam na mão dos outros a decisão de largar o osso.
- Que isso. Tá viajando, mulher.
- Tô viajando? Presta atenção. Desde o começo você só fez besteira. Falava besteira no palanque, defendia o empregado errado, queria mudar o regulamento X, colocava até os pobres dos aposentados pra virem se recadastrar na empresa. Mas, não importava o que você fizesse, ninguém te botou pra fora. Fosse outro, acho que já tinham corrido com ele no ato. Mas, com você, os empregados simpatizam. Então, todo mundo foi relevando, apesar de você mesmo querer sair do cargo.
- (...)
- Luís, o que houve?
- (...)
- Fala, homem.
- É, Marisa. Acho que você tem um pouco de razão. Eu nunca quis essa responsabilidade toda. Só achava bonito concorrer pra presidente. Você sabe, né? Eu, um funcionário pobre e sem estudo, querendo assumir a presidência da empresa. Era até meio poético. Mas quando ganhei e vi o pepino, senti vontade de abandonar o cargo várias vezes.
- E, agora, Luís. Vai desistir de concorrer?
- Agora é tarde demais. Ia ser a maior vergonha. Vamos ver se eu, sem perder a compostura, deixo os outros passarem na minha frente.
- E se não der certo e você ganhar?
- Sei lá, sempre dá pra fazer o que aquele meu amigo de copo fez.
- Que amigo de copo?
- O Jânio.

Lisandro Gaertner
Rio de Janeiro, 18/8/2006

 

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