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Segunda-feira, 18/9/2006
O soldado absoluto
Rafael Rodrigues

"De um lado, oficiais getulistas que seguiam sua cartilha e defendiam idéias nacionalistas mostravam-se inconformados com a perda de Vargas. (...) De outro, coronéis insubordinados que defendiam a intervenção militar nos temas políticos, graças à - conforme acreditavam - incapacidade civil de administrar o país."

Era assim que se encontrava o exército em 1954, logo após o suicídio de Getúlio Vargas, no mês de agosto mais famoso de nossa história.

"Falava-se muito na unidade militar, o que era uma lenda", naquela época. Foi nesse clima de instabilidade que Café Filho, vice-presidente de Getúlio, assumiu a presidência do Brasil.

Com o "racha" no exército, Café Filho tinha um grande problema. A qualquer momento poderia eclodir um golpe militar para destituí-lo do cargo de presidente. Ele precisava de alguém para apaziguar os militares e acalmar a população, que organizava constantes manifestações públicas, culpando os antigetulistas pela morte de Vargas. Café Filho teria que encontrar um militar neutro, imparcial e sem ligações com qualquer corrente política para assumir o mais importante dos ministérios naquela época: o da Guerra (hoje, do Exército). O único que preencheu todos esses pré-requisitos foi o (na época) general Henrique Duffles Baptista Teixeira Lott.

Esse é apenas o início de O soldado absoluto - uma biografia do marechal Henrique Lott, (Record, 2005, 552 págs), do jornalista Wagner William.

Nascido no dia 16 de novembro de 1894 em Sítio (que depois teria seu nome mudado para "Antonio Carlos"), um subdistrito de Barbacena, Minas Gerais, Henrique Lott não teve uma vida fácil. Primeiro dos onze filhos do casal Henrique Matthew Caldeira Lott (que a essa altura era proprietário de uma olaria) e Maria Baptistina Duffles Teixeira (que era professora primária), Henrique Lott teve uma educação rígida. Seu pai, por exemplo, que era descendente de ingleses, ensinava inglês exaustivamente ao futuro marechal. O pequeno Henrique chegava a cochilar em algumas aulas, de tão cansado. Era acordado pelo pai aos cascudos. O avô materno do pequeno Henrique, o português João Baptista da Costa Teixeira, foi responsável pelo costume que acompanharia o marechal Henrique Lott até o fim de seus dias. "João Baptista costumava dormir muito cedo. Impunha então uma regra aos netos: perguntava qual deles desejava acordar de madrugada, sendo que quem não levantasse não seria mais chamado. O menino Henrique sempre respondia ao despertar do avô. Nunca ficou dormindo. E durante toda a sua vida continuaria acordando de madrugada."

Sempre muito estudioso e dedicado, Henrique Lott foi o aluno destaque em todos os estabelecimentos de ensino pelos quais passou. Tanto nos infantis colégios primários quanto nos rígidos colégios militares.

Aos dezessete anos Lott perde o pai. Além da dor da perda, Lott precisou lidar com a responsabilidade que lhe caía nos ombros. A situação financeira da família não era nada boa, os negócios de seu pai vinham declinando já há algum tempo. Com a morte do chefe da família, o filho mais velho teria de, mais do que nunca, honrar o dinheiro investido por seus pais em sua educação. Para se ter uma idéia, a taxa trimestral cobrada pela escola militar, na época, era maior que o salário mensal da mãe de Henrique. É bom lembrar que o casal tinha dez filhos, sem contar o futuro marechal.

Os irmãos de Lott o tinham como ídolo e "rezavam sempre para que ele tivesse boas notas e fosse o primeiro da turma", mas "havia algo além de amor fraternal naquelas orações. Dona Baptistina estabelecera um prêmio para as crianças que, curiosamente, seria medido pelas notas do filho mais velho: eles teriam direito a uma lata de sardinha, da marca Felipe Canot, nos almoços de sábado, desde que Lott se mantivesse em primeiro lugar na escola. Não houve um só sábado sem sardinha naquela casa."

No exército, a carreira de Lott foi marcada pela sua integridade, dedicação e sucesso - ainda que um pouco prejudicado pela sua integridade. Por incrível que isso possa parecer.

Por ser um homem de opinião forte, honesto e de integridade (insisto na palavra por vê-la tão pouco utilizada e praticada hoje) inabalável, Henrique Lott, já ministro da Guerra, incomodou muita gente. Principalmente os próprios militares.

Em novembro de 1955, Lott liderou o movimento que deu condições para que Juscelino Kubitschek, eleito pelo voto popular, assumisse a presidência da república. (Um golpe militar fora articulado para evitar a posse de Juscelino, mas um outro grupo de militares, liderado por Lott, fez com que o resultado da eleição fosse cumprido.)

A influência dele era tão grande que Juscelino tinha medo de ter Henrique Lott como ministro da Guerra em seu governo. Mas o deputado e seu amigo pessoal Armando Falcão o tranqüilizou:

" - Presidente, o Lott não quer ser nada. Deseja vestir o pijama, e cuidar do jardim da casa que tem em Teresópolis. (...) Mas eu, se fosse você, lhe faria um apelo para continuar à frente do Exército. (...) Não acredite na conversa dos que (...) procuram jogá-lo fora do seu governo como meio de vê-lo nascer enfraquecido. Não hesite. Mande chamar o general Lott e insista para ele continuar na pasta da Guerra."

Durante o período em que foi ministro de JK, o nome de Lott se popularizou, principalmente por causa do "11 de novembro" (nome pelo qual ficou conhecido o "contragolpe"). Tanto que foi praticamente obrigado a ser candidato à presidência para suceder Juscelino.

Uma eleição no mínimo curiosa. Os dois principais candidatos eram Lott e Jânio Quadros (que por duas vezes renunciou a candidatura). Entre os candidatos a vice (na época o vice-presidente também era eleito pelo voto popular), estava João Goulart, que se dizia candidato tanto de Jânio quanto de Lott.

Além dessas curiosidades, havia o fato de o marechal não ser um "bom" candidato. Ao invés de fazer promessas que não poderiam ser cumpridas, Lott mantinha um discurso honesto, e nunca escondeu suas opiniões ou fantasiou suas propostas. A sinceridade rendeu à campanha de Lott pouquíssimas doações em dinheiro e a perda de muitos votos. Sem contar que Juscelino jamais deu grande apoio à candidatura de Lott. Na verdade, JK desejava que ele não ganhasse. Sendo mais específico: que nenhum candidato do governo ganhasse. Para que ele pudesse ser oposição em 1965 e assim ter uma vitória mais fácil.

Assim, Jânio Quadros venceu. Tomou posse do cargo em janeiro de 1961. Sete meses mais tarde, renunciava à presidência. Com esse ato, teve início uma série de manobras políticas e militares para impedir que João Goulart, vencedor da eleição para a vice-presidência, assumisse o cargo de presidente.

E mais uma vez Lott teve papel fundamental na organização de uma resistência contra os militares e na manutenção da ordem política do país. Para tanto, Lott precisou apenas dar alguns telefonemas e indicar a Leonel Brizola o caminho correto de como se evitar mais aquele golpe. Lott também divulgou um manifesto repudiando a ação dos golpistas.

Fonte: Cpdoc

Por conta disso, teve prisão declarada, fato que rende o trecho mais engraçado do livro.

Primeiro, o marechal simplesmente se negou a atender um coronel que desejava fazer ele mesmo a prisão de Lott. Coisa que não poderia acontecer, por causa da patente de Lott ser bem superior à do coronel. Depois, quando enfim um marechal chegou a seu apartamento, Lott o fez esperar por bem mais de uma hora. Enquanto isso, manteve sua rotina: fez exercícios, tomou banho, barbeou-se e tomou seu café da manhã. Quando lhe perguntaram, enquanto ele tomava banho, se precisava de alguma coisa (dando a entender que Lott estava demorando), respondeu que não precisava de nada e que "esses patriotas não sabem que não se invade a casa de um cidadão antes das seis da manhã. Então eles vão ficar esperando para aprender." Poucos dias depois Lott seria solto. Não sem ter dito tudo o que pensava sobre os militares envolvidos no golpe e na sua ordem de prisão, na cara deles. Inclusive na do então ministro da Guerra.

Os capítulos finais dão destaque à Nelson Lott, neto de Henrique, que foi preso e torturado entre o fim da década de 60 e o início da década de 70, por estar envolvido em grupos contra o regime militar.

O marechal, já fora da vida política e militar, nada pôde fazer para ajudar o jovem neto, que tinha apenas vinte anos quando foi preso. Qualquer atitude de Lott poderia prejudicar Nelson. O exército era comandado por pessoas que viam Lott como o maior responsável pelo insucesso das duas tentativas de golpe anteriores. Definitivamente, não seria uma boa idéia Henrique Lott tentar intervir a favor do neto.

Em maio de 1964 o Brasil perdeu um de seus filhos mais notáveis. Seu enterro aconteceu sem honras militares, fato que não tem explicação. O já ministério do Exército tentou minimizar e justificar o fato, mas a imprensa da época divulgou a ausência das honras militares no enterro de Lott.

O soldado absoluto traz uma enorme quantidade de informações sobre um brasileiro que deveria servir de exemplo para qualquer um. Seja quem ou de onde for. E, apesar de a narrativa envolver temas que muitos não consideram (erroneamente) interessantes, Wagner William consegue, de maneira competente, contar a vida de Lott sem causar enfado. Muito pelo contrário. Eu, particularmente, devorei as 300 páginas finais do livro em poucas horas, interrompendo a leitura apenas para tomar um café, que também não sou de ferro.

No enterro do marechal Henrique Lott, seu velho amigo Sobral Pinto dá uma declaração à imprensa que mostra o quanto Lott foi - e continua sendo - importante para a história do nosso país:

"... se tivesse ido para a presidência do Brasil, teria instaurado um governo de legabilidade e de respeito à pessoa humana, e uma vinculação com partidos políticos, porque era um democrata sincero, inteligente e honrado. Com Lott na presidência, não teríamos ditadura militar durante vinte anos, não teríamos a falência nacional. Nada disso teria acontecido."

Para ir além





Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 18/9/2006

 

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