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Quarta-feira, 22/11/2006
Os livros que eu ganhei
Ana Elisa Ribeiro

Coisa mais gostosa é ganhar livros. De preferência, sem mais nem menos, de presente gratuito, sem obrigação, sem pressão. Livro grosso, livro fino, livro de capa dura, até livro comprado em banca de jornal. Eu ganhei tantos livros na vida que nem sei se poderei me lembrar de todos. Provavelmente precisaria de um longo passeio pelo bosque das minhas estantes para abrir capas, sondar páginas de rosto, espiar as dedicatórias.

Quem gosta de livro sabe: não é fácil ganhar livros de presente. Muito difícil agradar alguém que conhece essa seara e vai além das listas de best-sellers. Dar livros de lista dos mais vendidos é fácil, pode-se encontrá-los em lojas de souvenirs. Mas dar bons livros para quem gosta de livro é tarefa dura. Pior ainda é dar livros para quem tem muitos livros. A chance de repetir a prenda é grande como um incunábulo. É preciso pesquisar, sondar, perguntar; às vezes, é melhor dar um vale-presente da livraria.

Ganhei muitos livros quando era criança. E guardei todos. Alguns vinham com disquinhos coloridos. Ouvi tudo até matar minha mãe de enjôo. Criança, vocês sabem, não se comove com a repetição. Coisa gostosa é para viver de novo, de novo, de novo. Criança não se cansa quando o negócio é prazer. E eu ouvi aquelas histórias até crescer e aprender a viver com pressa.

Lembro de quando ganhei alguns volumes da coleção Vagalume, da editora Ática. Talvez tenha sido essa a coleção que formou os leitores da minha geração. Duvido que alguém aí tenha esquecido do Rapto do garoto de ouro ou do Mistério do cinco estrelas. Um clássico: O escaravelho do diabo. E Xisto e suas aventuras em série. Livrinhos encomendados, batidos, repetitivos, mas que fizeram a festa da meninada que gostava de mistério e suspense.

Mais tarde ganhei um O restaurante do fim do universo, de autoria de Douglas Adams. Era um namorado que queria me incentivar a ler umas coisas engraçadas. Mandei brasa. Fiz a coleção, numa época em que era difícil achá-los e eles saíam pela Brasiliense. Estão no alto da estante. Hoje, não tenho apreço pelas histórias, mas ainda me lembro dos risos que dei quando daquela leitura entretida. O namorado se foi, mas a dedicatória carinhosa está lá. A lápis.

No aniversário de 26 anos um amigo, muito tímido, veio me dar um embrulho. Cabisbaixo, ele disse que não sabia se eu já tinha, que poderia trocar e que não sabia se era adequado. Abri com fúria. Era um Luis Fernando Verissimo, Sexo na cabeça. Dei no meu amigo um abraço de afeto e agradeci o presente. Ainda não li, e já fiz 31, mas é que tanta coisa aconteceu de lá para cá que o sexo não pôde ficar na cabeça.

Julio Daio Borges, o editor deste site, vive me enviando caixas de livros. Caixas, sem exagero. Vez em quando me chega um daqueles avisos de entrega. O Centro de Distribuição dos Correios é bem perto da minha casa. Fico ansiosa para ver o que vem. E abro a caixa com afobação. Tanta coisa. Tanto trajeto de leitura. Desta vez, um livro sobre o Stradivarius aguçou minha curiosidade.

Valério de Oliveira, o poeta, é outro que vive me mandando livros em envelopes. São poemas e mais poemas que leio rápido e vão para minha estante ser estrelas. Junto com ele Nelson de Oliveira, Ivana Arruda Leite e Índigo, que envia livros até pro Eduardo, meu filho que ainda não sabe ler.

Joca Reiners Terron me deu dois ou três livros de presente. Uns, dele mesmo; outros, da Adília Lopes. O tesouro maior da minha estante é um que leva o seguinte nome: Quem quer casar com a poetisa?, coisa belíssima, que ele achou importado em algum site. Melhor achado da vida. Depois que ganhei esse, comprei mais uns, já que tendia ao movimento.

Jovino Machado também me deu livros dele. Mas não apenas. Me deu uns livros que pensava se encaixarem no meu jeito. Inclusive uma biografia do Torquato Neto. As dedicatórias de Jovino muita vez emocionavam mais que o livro. Coisa boa de conhecer escritores.

Ebberth, amigo efêmero, me deu, no entanto, um livro pelo qual procurei por anos a fio, A galáxia de Gutenberg, do Marshall McLuhan. É um clássico que eu queria conhecer de perto. Ganhei num embrulho bonito, vindo de um sebo em São Paulo. Os sebos de BH não o tinham. Estavam, de certo, guardados nas estantes das pessoas.

Os livros são os presentes mais imortais que a gente ganha. São assim como se ganhássemos uns dias a mais de vida. Quando alguém nos enterrar, os livros vão dar trabalho. São pesados, são empoeirados, são, no entanto, a materialização do nosso gosto. São o histórico dos nossos trajetos intelectuais. São testemunhos dos caminhos pelos quais passaram nossos olhos. Passamos tanto tempo calados olhando para os livros, tempo que não dispensamos a mais nada nesta vida. Jamais olhamos tanto outra coisa ou alguém. Os livros vão ficar no inventário. Alguma biblioteca (que seja pública, ao menos) há de querê-los, mas isso só no caso de não termos conseguido fazer vingar nos filhos o apreço que temos pelos cadernos encapados.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 22/11/2006

 

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