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Quinta-feira, 26/10/2006
Qual é o seu departamento?
Elisa Andrade Buzzo


ilustra: Tartaruga Feliz

- Shopping West Plaza, Barra Funda!

- Vamô aê, subir a Teodoro!

Indiferentes aos gritos do jovem cobrador da lotação dependurado como banana num cacho, homens esperam ônibus recostados em bancas cheias de calcinhas de oncinha, florais, lisas. Um silêncio de cidade interiorana se materializa assim que o sinal fecha. Escorrem da loja murmúrios de um pagode sentimental enquanto o ruído do trânsito sobe com o ar quente do dia. Em segundos, o tráfego de autos, que parecia descontínuo, se materializa novamente. O corpo-a-corpo entre pedestres, camelôs, femmes fatales, crianças puxadas pela mão, postes, chicletes sedimentados, despertadores incessantes, crianças desgarradas da mãe, carros-de-som irritantes, dondocas em fim de carreira, peões da selva urbana é quase uma luta livre sem placa de pare. Há quem passe na Loja X e verifique vaporosas camisolas mesmo estando fisicamente na rua. Sua entrada funciona quase como uma dobra perpendicular da rua Teodoro Sampaio. É neste apêndice que caroços de azeitona e pedaços de unha malcomida se prendem em busca de caminhos fáceis para o preço baixo.

Daqui ninguém sai triste, nem pelado. Afinal, fazer compras relaxa, torna as pessoas mais alegres. Pelo menos, ao cristalizar a compra, que satisfação em preencher os dedos com sacolinhas finas de plástico branco. É tudo alegria, alegria, porque felicidade é só quando for tudo em dinheiro vivo. Não, dinheiro vivo, não. Nem felicidade. Chique mesmo é quando for tudo em cash. E cabeça desanuviada das dívidas tipo tecido strecht colante.

Miríade de gatinhos, menininhas, bichinhos, frutinhas, lacinhos, travam competição desleal, incrustada nas estampas das roupas da seção infantil. Pé-direito alto, as araras estendem-se quase até o teto em alguns pontos da loja. As roupas pendem em diferentes níveis, preenchendo as paredes de coloridos repetidos aleatoriamente. No miolo do salão térreo superiluminado, mais araras e bancas se misturam entre consumidoras tagarelas. O preço em números brancos sempre está em destaque nas plaquinhas pretas. Dificilmente alguma peça passa dos R$ 30,00.

Mão delicada encontrando mão indelicada no tête-à-tête disfarçado entre as araras emaranhadas de roupas. Mas, tem pra todas... a maioria das peças sai por volta de R$ 100,00. Lá, a loja está cheia, mas transitável. É a Loja Y do shopping Ibirapuera em pleno domingo: reduto de famílias paulistanas e casais de namorados. Caixa vazio. Homens sentados apertadinhos - na frente do provador feminino lotado - como pares de sapatos ansiosos por serem levados dali. Marmanjo esperando mulher em loja de departamento é coisa de dar dó. Eles olham uns para os outros em muda comunicação.

No visual cristalino e moderno, a iluminação é indireta, direcionada às roupas divididas entre os setores feminino, masculino e infantil. Lâmpadas atrás de uma placa de vidro branco semitransparente difundem a luz, tornando o ambiente aconchegante às cifras polpudas das etiquetas escondidas. Neste clima leitoso jazem delicadas baby looks, tricôs, saias extremamente bordadas, jeans lavado em displays de vidro na ampla ala feminina. A moda das batas ainda não sucumbiu (o fato é que elas escondem com estilo a barriguinha saliente, embora alguns estilistas teimem em arrancá-las dos cabides), e o indian style permanece nas prateleiras fashion da coleção primavera/verão 2005.

Ninguém olha para as meias soquetes femininas, cujos preços variam de R$ 11,00 a R$ 19,00. Na etiqueta de bolinha vermelha, um lembrete poliglota aos desavisados: "Alarme". Já nos sapatinhos infantis, o aviso é colado na sola. As roupas de meninas lembram a moda feminina adulta nos sapatos bordados e nos vestidinhos acompanhados de minúsculos boleros.

- Mãe, vem ver, não é pra comprar!

A menina de cabelos loiros e brinquinhos de prata examina uma calça jeans "infantil e unissex", testando o funcionamento do zíper.

- Que bárbara! Amei!

Uma senhora bate a sola da bota marrom de cano curto no ritmo frenético do pop rock internacional. Enquanto isso, pergunta à filha, com ar indiferente: "Achou alguma coisa?" Ao que ela responde: "As saias, as saias..."

Será a música responsável pelo transe? Mulheres rodopiam sem eixo, maridos esperam boquiabertos, sem perspectiva próxima de irem embora. Enfim, há quem não fale coisa com coisa, tamanha a hipnose em que mergulham ao fixar o olhar nas roupas, absortas na iminente (im)possibilidade da compra.

No entanto, a seção masculina da sofisticada loja de departamento está mais tranqüila. Um dos atendentes, terno preto sem gravata, dobra camisas; seus cabelos negros numa geometria de retas que só uma pasta pode firmar no espaço. O rosa é um tom que aparece sem vergonha de se mostrar em finos tricôs ou em camisas despojadamente encabidadas com as mangas arregaçadas. Sandálias de design descolado e solado duro fazem a cabeça do metrossexual, ou ainda, como alguns insistem em dizer, do homem contemporâneo.

No setor masculino o homem compra por R$ 340,00 camisa e calça social. Já o terninho feminino de risca de giz sai por R$ 440,00. Terninho preto, cachos cuidadosamente no lugar emoldurando o rosto de maçãs avermelhadas por um leve blush ascendente - uma das atendentes desfila pelos corredores da loja, a passos curtos, rápidos e duros. Magérrimas morenas, loiras, cabelos lisíssimos, cútis sedosíssimas, borboleteiam em busca dos pedidos de clientes, ou então arrumando a bagunça das roupas nos diplays. Já na Loja X, o conjunto social masculino sai por R$ 73,00 (calça social, camisa, cinto, meia e cueca). Só falta o sapato, mas isso se resolve facilmente em outras lojas da Teodoro. Para as executivas, terninho risca de giz + calcinha sensual + sutiã = R$ 29,80.

Dentre milhões de paulistanos que buscam suprir suas necessidades básicas de consumidor, medita um homem cujo equilíbrio financeiro combina-se com malabarismos dignos de mestre de yoga. O sereno senhor segura com a ponta dos dedos um macacãozinho cor-de-rosa, envolto por um plástico transparente. Nos mesmos dedos equilibra outra embalagem com um babador e dois sapatinhos, estes também rosas. As lentes grossas dos óculos examinam um cobertor rosa. Vira e desvira a maciez da lã sintética. Devolve-o na prateleira, junto aos pequenos cobertores de outras cores e modelos. Uma placa azul, tom calmante que predomina: "Cheque pré-datado - 30, 60 e 90 dias - juros de 6% ao mês".

Pensar é o que mais se faz na Loja X, depois de comprar, claro. Ritual típico da pré-aquisição: pegar a peça de roupa, levantá-la, olhos agudos investigam a utilidade, a relevância, o ajuste. Uma senhora examina um shorts infantil, elevando-o acima de sua cabeça, como se pudesse materializar a criança no nada.

- Trinta dias.

Sua silhueta tesa aguarda os demorados trâmites da compra. Negro, calça marrom e camisa bege no calor afetado de 31º. Por mais uma vez ele volta ao cobertorzinho cor-de-rosa. A cabeça indecisa por debaixo da boina xadrez. Dezenove reais a mais... dezenove reais a menos... Para a nenezinha se esquentar nesse verão vale a pena, vale a pena.

Irresistível o toque no bojo macio dos sutiãs. Elas deslizam as pontas dos dedos no tecido mole, procuram as alças perdidas das taças. Em frente ao ponto de ônibus, elas testam sutiãs nos seios vestidos. Como uma mulher que vê o colar na vitrine e acaricia o próprio pescoço. O bolo é revirado até aparecer o fundo creme do expositor. Elas sorriem ainda, no esforço de meia hora à caça do melhor tesouro.

Indiferentes aos olhares externos do jovem cobrador de lotação dependurado como banana num cacho, dos homens esperando ônibus recostados nas bancas cheias de seios, entranhadas que elas estão em si mesmas. Fogueira que fascina faiscante. A dondoca passa na rua atrás do marido ensacolado, terno pardo, e aponta com o dedo para a baciada de sutiãs: "Ahá!" Põe mais lenha. O fogo-fátuo das feministas não resiste ao mormaço do outubro paulistano... nem ao senso do ridículo. Sua glória volátil é caminho de passagem. Se na revolução sexual as feministas queimavam sutiãs nas ruas, no século XXI simples mulheres os compram a R$ 6,00 cada.

Dali e de lá ninguém se lembra do mundo cá fora. Nos templos do consumo, o que importa é o agora - momento da escolha, do extravasamento. Se felicidade não se compra, estamos quites. Ponto de aproximação entre distâncias.

Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 26/10/2006

 

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