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Quinta-feira, 9/11/2006
Uma nota sobre a leveza do ser
Marcelo Maroldi

Em diversos e desgastantes momentos, caro leitor, meu peito pesou tanto que me custava em demasia carregá-lo junto de mim. Nessas ocasiões, as noites eram bastante longas, às vezes duravam dois ou três dias inteiros, e eu ficava ali, solitário, estirado na cama, pensando em tudo (e em todos), contemplando o teto, cozinhando em banho-maria o que nem sempre eu compreendia tão bem, ruminando feito um bovino quixotesco aquele resto de frustração e de indagação metafísica que me sufocava. Mas, isso fora em outros tempos...

Foi em um dia ordinário de primavera. Não chovia, nem fazia frio, pelo contrário. O sol nascente castigava sem piedade a minha pele alva e inexperiente, por vezes tola. A cortina cinza não protegeu meu rosto barbudo como deveria e acordei incomodado com mais um dia em que nada de novo aconteceria debaixo deste céu. Antes de me atentar ao fato, ainda tive tempo de maldizer rapidamente o surgimento do perverso astro-rei, totalmente arrogante, a competir comigo, quase. Quase. No instante em que o relógio marcou precisos 08h12 de uma terça ou quarta-feira qualquer, descobri, pela segunda vez em minha vida, a leveza do ser, da qual confecciono esta singela e descompromissada nota. Eu era outro; leve - levíssimo! - e com o coração tão feliz e transbordante que, acredite, custei a crer que era eu mesmo que lá estava, sorrindo, respirando, e não algum espírito zombeteiro que se apoderara a revelia de meu corpo e mente antagônicos e sonhadores. Ah, eu estava tão lúcido!

Pensei: morri e não me avisaram, desgraçados...

Claro, claro, mantive-me contente na seqüência, não negarei. Porém, não ouso dizer que entendia minimamente o que ocorria. O ser não é leve por natureza, pelo contrário. Os que se julgam assim, eu os tinha por insanos. A vida é complicada, difícil, custosa, não tem absolutamente nada de leveza! E não me canso de afirmar: a ignorância é uma benção, não restam dúvidas. Pensar dói, meu amigo, machuca, estraçalha, veja aí o que sobra dos pobres dos filósofos, por eles mesmos já fartamente descritos. Dá pena olhar aqueles homens, curvados sobre os livros, sobre suas corcundas salientes, barbas longuíssimas e desordenadas, uma cara de pensativo ou louco, um rosto de (alguma) tristeza, um coração pesado. Pensar até mata, sabia? Ignorante não sofre, não bebe cicuta e não se suicida, nem chora, acho. Quem foi que inventou esse negócio de leveza?, dá pra me explicar! Certamente não foi um pensador! (e aquele negócio de existencialismo então, hein? Que maluquice, rapaz, coisa de gente triste, não é? (sic))

Levantei e bebi água. Bastante e de uma vez só. Esta, surpreendentemente, não fervilhou enquanto descia vagarosa pela minha garganta, chegando ao local em que viria a se depositar em seguida de maneira quase natural. Estranhei. Torci o nariz. Eu não tinha dores nas costas, os meus ombros não estavam curvados, o meu cabelo até acordou penteado, acredita? Meus pés flutuaram um instante. E então aconteceu. Estava ali, diante de mim... As nuvens eram azuis, já havia me esquecido da tonalidade exata. As pessoas caminhavam pela rua ligeiras - olhei da varanda, a maioria sorria. Alguns mais estranhos até cantarolavam. Uma senhora magrinha estendia tranqüilamente a roupa no varal, inesquecível a cena. Era uma camisa amarela, ligeiramente surrada, que ficou presa ali por dois pequenos prendedores de madeira de vinte e cinco centavos o par. O cão pulava agitado sobre a senhora, anunciando mais um bom dia. O sol agradava a ambos. E eu não tinha o direito de desafiá-los...

Pensei: afinal, que diabos estou fazendo?

Nenhum deles tinha o direito de agir assim. Ou tinham?, vai saber. Respirei fundo, fundo..., tão profundamente que senti toda a leveza do ser percorrendo minhas entranhas renascidas. O sangue começou a circular. O peito iniciou um formigamento, bem como as demais partes onde o combustível vermelho da vida estivera ausente nos últimos tempos. Como a gente complica a vida, não é? A felicidade é um negócio que existe, é verdade. E então, obter essa leveza torna-se a maior medalha que alguém possa vir a conquistar nessa vida. É encostar a cabeça no travesseiro e dormir, até sonhar pode, se quiser. Depois, é percorrer o dia sem medo que ele se encerre, sem medo que a escuridão se apresente. Mas também sem esperar que o dia se eternize. E, por fim, não temer o dia de amanhã, nem desejar domá-lo ou direcioná-lo. Seguir em frente. Sempre. E de novo. Não, não, não, isso não. Mil vezes não! "O imponderável pertence a Deus, o importante é a gente fazer a nossa parte" (José de Morais, poeta).

Depois, os dias passaram a ser menos custosos. Descobri que os pássaros ainda não haviam sido extintos do planeta. As horas duravam apenas os sessenta minutos pré-estabelecidos. Havia outros poetas que não os sofredores. Mais opções que não a de esperar por ela. Um amigo me explicou que isso era um estágio de evolução pessoal e que aprender a ser feliz era uma disciplina que alguns deixavam de cursar na escola da vida. Aprendiam tarde e depois a praticavam, ou não. A euforia momentânea poderia ser cultivada pelo resto dos dias, e isso deveria ser definido simploriamente como felicidade. E quando se toma gosto pela coisa toda, fica difícil voltar para trás. Feito um vício assassino, passa ela a controlar sua vida, dirigir os seus passos, guiar as suas ações, até te moldar. Irradia aos que te cercarem, contamina-os. Pensar dói, ser sentimental então, nem se fala!, mas ser feliz, sentir e pensar podem ser conciliáveis, parece. Evoluir é preciso para evitar o olhar muito distante e o rosto sempre cansado, e para que seja entendido o que te impedia de sentir a saborosa e consoladora leveza do ser...

Marcelo Maroldi
São Paulo, 9/11/2006

 

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