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Sexta-feira, 27/7/2007
Dar títulos aos textos, dar nome aos bois
Ana Elisa Ribeiro

Lembro, como se fosse hoje, das aulas da professora Sílvia, no ensino médio. A altiva professora, formada em Letras, tinha o rosto muito parecido com o da atriz Sílvia Pfeifer, mas vivia de coisa bastante diversa do mundo artístico. A Sílvia da Redação tinha a missão de ensinar incontáveis turmas de adolescentes a escrever.

Naquela época, eu já me dedicava a aprender as tramas dos textos. Fazia tempo que mantinha um diário importantíssimo, que se não tinha nada de grande no conteúdo (nem todo diário pertence a uma Anne Frank), tinha o poder de me fazer escrever pelo menos duas linhas por dia, todos os dias, sem final de semana ou feriado. Se não me falha a memória, o diário havia sido presente de minha mãe.

Em 1987, quando eu contava 12 anos de idade, ganhei uma agenda do Garfield e, por gostar tanto daquele gato, transferi meus apontamentos diários para ela. Travei, então, mais ainda meu contato com a escrita como algo trivial, do dia-a-dia, absolutamente ligado à minha vida íntima.

Quando fui aluna da professora Sílvia, a prática de escrever textos variados uma única vez por semana me parecia trivialíssima. Eu pensava, embora não dissesse, que aquela prática escolar não transformaria ninguém em um bom redator, mas a intenção era nobre e a tarefa, ingrata. Àquela altura, eu nem sonhava que me tornaria professora... de Redação.

A professora Sílvia pediu a todos nós que comprássemos uma pasta com temas de redação. Era uma espécie de "livro didático em lâminas", uma revolução no ensino, cochichavam os mestres pelos corredores. Tratava-se de uma pasta com folhas pautadas em cujos cabeçalhos já vinham as propostas de texto. Nos anos 1980, não faltavam narrativas, descrições e dissertações, sem as condições de produção textual exatas ou mesmo sem sair do lugar-comum. À professora cabia escolher uma "seqüência didática", a tarefa de cada dia, e esperar que fizéssemos. Enquanto nos debatíamos tentando navegar pelas propostas de textos insossos (e insossas), a professora andava de um lado para outro, tal qual o pai que aguarda do lado de fora do bloco cirúrgico para saber se o filhinho nasceu perfeito.

Fizemos nem sei quantas daquelas fichas pautadas. Cumprimos a tarefa do ano. Mais nem sei quantas no ensino médio inteiro, sempre uma vez por semana. No cursinho pré-vestibular, mais Redação. Desta vez, um estilo de professor diferente. Na escola pública de excelente qualidade, tínhamos professores mais "cabeças", contidos, que andavam no ritmo das turmas. No cursinho, caricatos mestres, a maioria homens, desfiavam um tonel de piadinhas ao longo de aulas espetaculares (no mau sentido) para que fizéssemos uma redação por semana. Sentados numa espécie de arquibancada de onde enxergávamos pouco mais do que as cores gritantes das roupas deles, ouvíamos os mestres cantar, dançar, subir na mesa para falar da Segunda Grande Guerra, mostrar suas habilidades no desenho e na imitação. 200 ou 250 alunos-clientes fazíamos redações que eram entregues no guichê da secretaria para serem "corrigidas" por professores de plantão, espécie de "laboratoristas" que tinham em mãos critérios rígidos e davam notas nas margens quadriculadas da folha especial para textos.

Certa vez, minha redação não voltou da correção e fui chamada para conversar com a professora de plantão. Ela me mostrou meu texto, disse que não me daria nota e que queria me alertar de uma coisa: "o texto está muito bom, mas não aconselho você a escrever assim no vestibular. Lá eles querem textos mais padronizados, entende?" Hoje sei, por dois motivos, que aquilo era absurdo. Primeiro porque corrijo redações de vestibular e sei que os poucos alunos que conseguem sair do clichê, se o fizerem bem, têm as notas mais altas e se destacam das vaquinhas de presépio no resto do rebanho; segundo porque aquela professora de plantão provavelmente não sabia como é uma universidade pública... Desde que pus os pés lá dentro, desde o primeiro minuto, tive que discutir, refletir, questionar, argumentar e contra-argumentar.

Lembro bem de detestar as aulas de um professor do cursinho que falava mal da literatura brasileira o tempo todo. Fazia isso de modo divertido, para "ir na onda" da maioria dos alunos da arquibancada. Tal qual em um circo, a moçada se divertia detonando Alencar ou Gregório. E eu, que queria tolamente fazer Letras, me contorcia de raiva. Pensava o óbvio: o professor não valoriza seu próprio objeto de estudo? Mais adiante, percebi que o que ele dizia estava escrito na apostila do vestibular, uma espécie de manual uniformizador de candidatos.

Pois bem, quando passei no vestibular, numa universidade federal, numa colocação de dar inveja a muitos, saiu no jornal a lista dos aprovados como se eu fosse aluna do cursinho! Cursinho que não contribuíra em nada para a minha formação e cujas aulas eu havia freqüentado por 4 meses apenas. A escola pública municipal responsável, em imensa medida, pela minha formação de leitora, redatora e até pela minha escolha pela carreira docente não aparecia em lugar algum.

Também não havia crédito para meus pais, para a invenção da biblioteca pública, para os longos minutos lendo dentro do ônibus que me levava ao colégio, nem para os diários e agendas ganhados de presente de parentes, nem para o namorado leitor de quem ganhei vários livros de boa literatura. Engraçado. Nenhum deles sabia fazer marketing.

Do que aprendi na escola, muito foi aplicado pela vida acadêmica afora. Mesmo assim, a aula em que a professora Sílvia ensinava a dar título aos textos foi contestada e solenemente desconsiderada. Dizia ela, assim como muitos mestres dizem, que os títulos devem resumir a idéia principal do texto. Havia colegas que colocavam título antes de escrever e ficavam ali, trancafiados entre o tema imposto e o árduo desenvolvimento de alguma coisa que não acontecia. Outros escreviam primeiro, sempre monitorando o tema, para depois dar o nome ao boi. Boi de rodeio, vaca de leite ou de corte, cow parade, vaquinha de presépio, para qualquer serventia, havia conversa da professora, explicação, ajuste. E todo mundo achando que escrever tinha que ser "de primeira". Mais tarde, aprendi que esse golpe de excelência não existe. Quanto mais o escritor é escritor, mais ajustes ele faz, mais limas ele usa. Mais ele se lê, relê, revê, revisa.

Quando aprendi as possibilidades do título, achei a professora Sílvia maldita. Os títulos serviam para fazer ironia, dizer o contrário do que se queria, não ser óbvios, ajudar a arrematar a idéia global do texto, entender o texto. Aprendi isso na marra, apesar das aulas do cursinho. Coisa mais engraçada arrancar certos títulos de certos textos. Fazer títulos é uma arte. E, mais tarde, li uma dissertação de mestrado sobre títulos "canônicos" ou "enviesados", o máximo para comprovar minha desconfiança de que títulos são mais importantes do que diziam os mestres do colégio.

E o quanto dói ter um título alterado? Alguém sabe disso aí? Vez ou outra, o editor deste site mexe aqui ou ali num título. E como dói. Há quem brigue por conta disso. Jornalistas sabem disso e aprendem a não se sentir castrados. E o quanto é importante saber dar nome a um livro? O nome da obra pode impulsionar as vendas, mesmo que mais tarde alguém acuse o autor de estelionatário. Alguns títulos jamais nos saem da cabeça. Títulos de teses de doutoramento parecem sempre ter sido arrancados do corpo do texto. Títulos de matérias de jornal, estes sim, a depender do jornal, servem, caretamente, para "resumir a idéia principal do texto". Mesmo assim, é só parar na banca no domingo de manhã para observar as manchetes e perceber: há uma guerra de frases que podem ajudar a vender um jornal.

Depois que já havia me tornado professora de Redação, fui dar aulas para uma turma de Comunicação Social em uma universidade pública. Numa das aulas, trabalhávamos o título do texto. E jamais me esqueci da guerra de manchetes que aqueles garotos promoveram um dia, a partir de um conto de Richard Brautigan, traduzido por Joca Reiners Terron.

O conto, de apenas três linhas, publicado no fanzine Zinequanon, editado pelo poeta Reinaldo Damázio, de São Paulo, era a mínima história de uma moça que descarregava o revólver no vizinho aprendiz de violino. O microconto se chamava "O tilt de Scarlatti". A tarefa dos alunos da Oficina de Textos era transformar aquele conto em nota policial de um jornal popular e promover a guerra de manchetes de toda manhã. Expusemos as manchetes pelo corredor e observamos os resultados das "vendas". Os campeões foram dois grupos de alunos criativos e "engraçados". O segundo lugar ficou para o título "Dó ré mi ta ta ta", de um grupo de meninas. O primeiro lugar, com louvor, vendeu o título "Morreu passando a vara", do grupo cujo líder era um bom aluno chamado... Sílvio.

Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 27/7/2007

 

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