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Sexta-feira, 19/1/2007
Resenha particular sobre um ano bom
Ana Elisa Ribeiro

Todo ano a gente pensa que o ano vindouro vai ser melhor. Tem que pensar mesmo, senão parece que a vida vai continuar sem graça. Será que algum ano passado foi bom? Ou é que a gente se esquece de avaliar? Ou será que queremos sempre o que não temos? Coloque-se aí um "ainda" que tudo fica bem. E então a responsabilidade fica pro próximo ano.

Eu sempre acho que quando as metas estão bem claras diante de nós, fica fácil ponderar sobre o que aconteceu e o que ficou parado. A meta pode ser um carro, um carro do ano, uma casa, um filho, uma viagem, um emprego X ou Y, um casamento, uma árvore, uma namorada, uma rede, água de coco, emagrecer, engordar, uma coleção de CDs, DVDs, um título acadêmico, o ensino fundamental, um livro, uma língua estrangeira, uma vaga no Itamaraty, na Guarda Municipal, no grupo Arcelor, a carteira assinada, a aposentadoria, uma casa de campo, um apê no Centro, montar um negócio, negocim, negocião, dinheirim, dinheirão, desencalhar, voltar para a doce vida de solteiro, aliança, alforria, não sair de cima do muro. Um ménage, LSD, cirurgia de miopia, redução de estômago, óculos de aros vermelhos, batinhas de hippie, lipoaspiração, terapeuta, marido novo, sair do armário, a Parada Gay, greve, um novo calendário. Cada um tem sua meta e as metinhas que vêm penduradas. Mas se não estiver claro o rumo, o caminhar fica parecendo apagado, esquisito, trôpego. As pessoas, em geral, precisam saber para onde vão. Quando ninguém diz, fica tudo a esmo.

2006 não foi a esmo, como de resto, em minha vida, nada foi. E quando a gente está em cima do salto, achando que tem o poder máximo de construir, escolher e fazer, um corte na fita faz com que tomemos tento, tome tento, como diria minha avó.

O carro usado, o carro novo, o apartamento financiado, essas são as coisas fáceis de enxergar na lista das prioridades. A viagem ao redor do mundo, a babação no Velho Mundo ou nos Estados Unidos da América, a praia e o campo, tudo isso é o óbvio. Mais fácil para uns do que para outros, são as missões de quase todos. Mas o filho que não estava no script subverte a listinha burguesa do final do ano.

Filho faz a gente alcançar coisas que levaria muito mais tempo para conquistar se estivéssemos ainda no ritmo egoísta das nossas torpezinhas. Filho faz a gente assumir contratos e posturas que achávamos que nossos pais tinham a obrigação de suprir para o resto dos nossos dias (e dos deles). Filho dá trabalho, mas ajusta a visão, dá coragem, força e uns desesperozinhos de vez em quando. Filho alinha, torna a gente estrategista, aumenta o foco, aperta as porcas e os parafusos, engrena, alucina, fortalece, aguça, torna a gente empreendedor, nem que seja dos metros quadrados que nos cabem, comprados ou de aluguel. Filho diz assim: toma tento, como dizia minha avó. Cada um em sua ponta, são eles que sabem de tudo. Filho faz os anos parecem menores, mais velozes, mais furiosos. Filho deixa a gente bravo. Filho é: se liga. Ainda mais responsável do que ser professor. Filho desanuvia e esclarece. Filho é precisão.

2006 não foi o ano da literatura. Não para mim, que fui leitora e observadora do ano todo. Não me ocorre nada de diferente, de extremamente bom entre os poucos lançamentos que desviaram meu olhar da costura diária. Mal conseguiram me desviar dos meus afazeres cotidianos.

A música não me fez quase comprar CD. Do que quis, eram todos coisa velha, CDs que eu queria ter desde 1990 ou coisa assim. Os primórdios de algum cantor morto ou quase isso. Trocar o vinil pelo CD, já que minha picape estragou, enferrujou, não toca mais.

Comprei um notebook que enfeita a mesa do escritório, um MP3 que não saiu da gaveta, um livro sobre história do livro que ainda não tive paciência de ler. Mas, em compensação, do que pude planejar, tudo vingou. Uns tantos seminários e congressos interessantes, uma ou outra boa cidade, a trabalho. Pessoas refinaram amizades, encrencas arrefeceram, amizades fake puseram fim no contato precário. Os cursos deram certo, menos um, o que terminou por ser bom. O emprego privado me deu condições de passar uns domingos no parque, vendo meu filho correr, já que ele pode. O guri, este sim, parece ter vivido um ano intenso: andou, correu, aprendeu o sim e o não, aprendeu a falar com fluência, exceto pelo R. Ainda lhe falta deixar a fralda e entrar para a escola, medidas já iniciadas para 2007. A cirurgia de miopia, do dia 10 de janeiro de 2006, proporcionou-me assistir a uns tantos bons filmes e a alguns nem tanto. O dia em que meus pais saíram de férias foi visto com meus olhos que a terra há de comer saudáveis. Ou mesmo com leve cansaço, mas tendo tido a experiência fantástica de ver sem muletas. Também foi com estes olhos ajustados que vi meu filho cair e se levantar, me dando lições que esperei de mestres maiores e mais preparados.

Dormi bem a maior parte das noites do ano. Perdi algumas trabalhando para pessoas que me deram o cano ou por projetos que não sairiam do papel. Noutras optei por chutar o balde e desfiar o sono dos merecedores. Tive quase sempre a companhia do marido, outras tantas vezes recebemos a visita noturna do garotinho amedrontado com algum sonho ou com as árvores na rua. A essa visita seguiam-se pontapés e abraços apertados. Sussurros e o ressonar do filho já seguro e confiante.

Assumi minha vaga como servidora pública federal, voltei para casa sã e salva, depois de uns arranhões na iniciativa privada. É bom que se frise que sou educadora, para que não se confundam alhos com bugalhos, como as faculdades privadas costumam fazer. Conheci tanta gente que nem pude contar. Estava mais preocupada em aprender-lhes os nomes. Uma infinidade de alunos com vidas tão incríveis que eu não podia divisar apenas nas aulas planejadas. Tenho certeza de que fiz diferença nas vidas de algumas pessoas. Na do marido, que também teve suas conquistas; na do filho, que parece ser quem mais aprende nesta casa; na dos alunos, que vieram sempre expôr suas caminhadas; na dos pais e irmãos; amigos; colegas.

Escrevi, escrevi muito durante o ano. 2007 promete ser o ano em que mais escreverei na vida. Em 2007 farei publicações, jornadas, seminários, leituras. 2006 foi, principalmente, o ano em que me afoguei nas leituras. Não dos literatos da nova geração, nem dos livros recém-lançados. Fui, ao contrário, conhecer o que estava nos sebos ou nas edições esgotadas. Fui rever, reler, me perguntar por que razões estamos onde estamos, a literatura está como está.

2006 foi um ano bom, para todos os critérios dos planejamentos particulares. Todas as contribuições que pude dar ao que excede a minha casa e a minha família, com meu trabalho, eu dei. 2007 me parece pouco mais do que mais uma oportunidade disso. Não perdi parentes, embora tenha corrido esse risco fortemente em alguns momentos. Só o fato de tê-los visto se levantar, assim como meu filho, me deu alento. Estavam todos se abraçando, mais ou menos abatidos, na virada do ano. Isso pode ser o suficiente por muito tempo.

Os livros escolhidos para 2007 estão a postos, em cima da mesa, na ordem em que devem ser saboreados. Nenhum deles foi lançado ontem. Todos aqueles nomes vão edificar alguma coisa e serão convertidos em parte das minhas tarefas e missões profissionais.

Bebi Amarula, almocei diversas vezes com pessoas muito queridas, jantei por muitas noites em varandas em que batia a brisa das amizades. Conheci pelo menos um bom restaurante onde curti tardes explícitas trocando palavras com meu marido. Conversando sobre os gostos das coisas, não mais do que isso, e já era tanto.

Não parece ter acontecido nada espetacular no cinema, na tevê, na literatura, no teatro, no horizonte dos shows e das pautas jornalísticas. Eleições, acidentes aéreos e desastres me parecem ter mais efeitos para cada uma das almas afetadas do que para os resenhistas preocupadíssimos com a produção literária gaúcha em série.

Foi, sim, um ano de acontecimentos diversos, desconhecidos, sem mediador no rádio ou na tevê. Por que é que a vida tem que parecer um espetáculo? Talvez por isso ela fique tão pouco iluminada para alguns. Os holofotes estão alugados para os mesmos artistas de sempre, o que me entedia. Enquanto isso, muita coisa acontece sem espalhafato. O problema não é o que vai acontecer, mas quem vai observar.

Ana Elisa Ribeiro
Campos dos Goytacazes, 19/1/2007

 

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