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Segunda-feira, 21/5/2007
Quando um livro encontra seu leitor
Verônica Mambrini

Dois caminhos interessantes se opõem para quem gosta de ler ficção: um é quando a narrativa traz experiências semelhantes às do leitor, que permitem que este se aventure em águas já navegadas, num universo acolhedor e familiar, porém com o sabor de desfrutar das visões de mundo do autor. O outro caminho é aquele que leva a lugares desconhecidos, para terras de costumes estranhos, fatos, seres e situações inimagináveis no cotidiano do leitor.

O último livro de Cíntia Moscovich, Por que sou gorda, mamãe? (Record, 2006, 256 págs.), coube perfeitamente na primeira definição durante minha leitura. Foi um livro que achou sua leitora. A primeira inspiração, abandonada conforme o texto ia ganhando vida própria, foi a Carta ao Pai, de Franz Kafka. A obra do autor alemão é um tremendo desabafo autobiográfico da dolorosa relação do escritor com seu pai - a grandeza das páginas vem igualmente das qualidades literárias, do conteúdo biográfico que ilumina a obra de Kafka e do teor da análise psicológica da relação de pai e filho feita ali. Ao dar vida ao seu livro, criando uma obra antes de tudo literária, Cíntia achou caminhos próprios.

Como mote do livro, subitamente, a narradora se dá conta de que está cerca de 20 quilos mais gorda do que o normal. E, ao começar um regime, ela passa a limpo - no sentido literal da expressão, ao pôr no papel - a relação com a mãe, vinculando o desvio da balança à relação construída sobre a mágoa das duas. Judia, descendente de povos do leste europeu fugidos de guerras, do nazismo, a narradora transmite o prazer de comer que só têm filhos de povos passaram fome. Os pratos judaicos e as descrições de cheiros e sabores permeiam o livro em cada capítulo.

Na minha casa, cresci ouvindo histórias de galinheiros explodidos por bombas, forçando a família a comer frango por semanas. Ou longos períodos em que o que havia era batata - geralmente ensopados feitos com ela. Muitos pratos na casa de minha avó lituana eram feitos com carnes desprezadas pela mesa de classe média brasileira: miúdos, ossos, gordura. Bons, mas que meu paladar de criança estranhava. Anos depois entendi a memória de guerra e miséria histórica encasquetada na genética, que em oposição à fartura do Brasil, virava ceias em época de festas capazes de alimentar um batalhão, duas ou três vezes comida do que o necessário. Minha avó - como as personagens do livro de Cíntia - demonstram amor alimentando. "a cozinha é a matriz do afeto de nossa gente", diz a autora, sobre o povo judeu.

O sobrenome do meio não assino - é um favor que faço aos leitores. Mambrini é mais fácil, possivelmente um tantinho menos marcante, mas mais assimilável. O Vazgauska, tão sonoramente típico e familiar na colônia lituana, embaralha um pouco a leitura desacostumada. Falta-me ser judia, mas o interesse que eu tenho por essa cultura me leva para a outra leitura possível, a que descobre um mundo novo. A relação difícil e torta com a mãe, presente em muitas culturas, atinge o máximo de complexidade e auto-percepção na cultura judaica. Sou óbvia ao relembrar que a fundação da psicanálise, toda calcada na figura da mãe, veio pelas mãos de um judeu?

Na acidez com que Cíntia descreve essa relação de mãe e filha, cheia de conceitos psicanalíticos, há uma bela declaração de amor. Não à mãe, ofuscada por um sentir maior, mas à literatura. A literatura tem o poder de clarear o que esse relacionamento tem de obscuro e de certa forma, é uma chave mágica que permite dar cabo e significado ao regime, que passa a significar se livrar dos excessos, deixar para trás a carga que não presta para nada e que faz mal à saúde do corpo e da alma.

Não só de sentimentos difíceis se constrói o livro. Depois de passado o susto inicial que causa a relação entre vida emocional e peso, explicitada logo de cara (que pode levar o leitor a esperar um quê de Diário de Bridget Jones), fica claro que o assunto não é a busca do mix de beleza irretocável, sucesso profissional, afetivo e sexual. Já casada, a narradora não busca o príncipe encantado, o corpo perfeito, um trabalho de que goste - esse ela já tem, ainda que à revelia do desejo dos pais. E, no caminho desse ajuste com o passado, vem uma das partes mais deliciosas do livro, em que a verve de contista de Cíntia Moscovich ganha terreno.

Com a história de sua família, recheada de episódios fantásticos contados pela avó, como o índio que aprendeu iídiche ou a ocasião em que duas tias gordas fizeram rachar um carro sólido como um "tanque de guerra", a autora funda sua própria mitologia, cria sua pequena epopéia judaica. Do Gênese ao livro de Cíntia, os judeus se fixam no mundo pela memória, pelo contar histórias - processo sempre perpassado pela palavra escrita. Não faltam histórias a narrar desse povo supraterritorial: desde a história mil vezes contada de um conhecido meu, judeu, cujo pai contava com orgulho ter escapado de um campo de concentração nazista, se soma a Spielberg e seu A lista de Schindler, passando por uma cinematografia vasta, que inclui epopéias mais universalistas como Sunshine - O despertar de um século, de István Szabó, ao drama edulcorado A vida é bela, de Roberto Begnini.

No fim, pouco importa o que a mãe da narradora tenha feito ou deixado de fazer. O que vale é como isso é contado - e como a narrativa da relação mãe-filha se torna o fio condutor do épico da família. E como num épico, de certa forma a diáspora dos avós se torna a diáspora de um povo em êxodo constante - a autora em êxodo de si mesma, em encontro consigo própria.

Para ir além





Verônica Mambrini
São Paulo, 21/5/2007

 

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