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Quinta-feira, 23/8/2007
A imprensa dos ruivos que usam aparelho
Vicente Escudero


Voltaire: o ruivo nº1.

Século V a.C., muito tempo ocioso e uma guerra para combater. Cinco séculos antes do nascimento da civilização cristã, o ser humano deu início ao que chamamos hoje de jornalismo. Foi na primeira Guerra Médica, travada entre soldados gregos e persas entre a cidade de Maratona e a costa do mar Egeu, que o comandante Milcíades, do exército grego, encarregou o valente soldado Fidípides da árdua tarefa de informar as cidades vizinhas que os gregos precisavam de reforços para combater o inimigo. Quarenta quilômetros percorridos até Atenas, seu esforço para divulgar a notícia rendeu mais dez mil soldados, a vitória dos gregos na guerra e a origem da prova de corrida que encerra as olimpíadas: a Maratona.

Alguns jornalistas não reconhecem este feito de Fidípides, já que, nessa época, sequer existia diploma.

Aí veio o Gutenberg, alemão, aparentemente um apreciador de bons vinhos, e criou a prensa: a imprensa impressa massificada. Adaptando a máquina utilizada para extrair o suco das uvas em meados do século XV, imprimiu diversas cópias de um mesmo texto - a Bíblia -, para a sorte dos punhos dos escribas.

Já em 1976 o futuro careca Steve Jobs e seu amigo Steve Wozniak, que se conheceram na HP, tiveram a sábia decisão de apostar na popularização da informática e construir o primeiro computador montado e barato, na garagem de Jobs, fugindo do arcaísmo tecnológico da época. O resultado você acompanha agora, em tempo real.

Um pulo para a internet do ano 2000: Blogs, Podcasting, YouTube e a pulverização da informação.

A imprensa acompanhou toda essa transformação e agora se esforça para compreender qual lugar deve ocupar na bagunça virtual.

Hoje, o mundo está on-line. Você lê o New York Times (que pretende apenas controlar a passagem do suporte papel para a internet, e não impedir) daqui do Brasil, sem ter que pagar nada - mas até quando?. A guerra no Iraque está lá no YouTube, ao vivo, seqüestradores do Taleban mantêm sul-coreanos como prisioneiros e exigem a libertação de comparsas presos.

Se tudo está aqui, no seu monitor, tão claro, sem papel, preto-no-branco, qual o motivo da resistência de alguns dos nossos jornais, em agregar os valores progressistas da Web? Se as emissoras de televisão estão surfando a onda, investindo pesado em portais diversificados para acompanhar a maré, por que tanta relutância dos jornais?

O modelo atual de imprensa escrita está sendo substituído radicalmente, assustando os mais conservadores. A troca instantânea de informações entre usuários da internet diminuiu a autoridade moral da imprensa impressa, que também perdeu leitores. Essa redução ocorreu ao mesmo tempo em que a Web se desenvolveu, mas não apenas em razão disso. A estabilização econômica e a péssima Educação trouxeram a diminuição do interesse pelas notícias do jornal. Se a vida não muda com a guerra no Iraque, por que comprar um calhamaço de papel sobre ela? O leitor só quer saber daquilo que gosta: fato consumado. O clique no mouse é mais fácil que a ida até a banca mais próxima. No Google, você não leva junto o "Caderno de Classificados" quando procura a classificação dos times no Brasileirão.

Não se trata de criticar o contéudo dos jornais tradicionais, já que apenas o formato da impressa impressa está se tornando ultrapassado.

E o leitor, agora, também quer participar. Não escondido na seção "Cartas do leitor", mas direto na notícia. Chega de monólogo. Resistir às redes sociais que se formam instantaneamente, sem filtros, tornou-se suicídio comercial. O mainstream terá que se adaptar, vai ter que dialogar para sobreviver. E lincar também.

O futuro se apresenta como uma volta ao ponto fundamental da democracia, com suas qualidade e defeitos: a participação disponível para todos, ruins ou bons.

Custo Brasil: Educação
Os jornais de Pindorama criaram seus próprios sites, contrataram alguns especialistas em tecnologia da informação, conseguiram aumentar o tráfego, mas ainda não entenderam o principal: aqui não é a América.

Lá nos EUA, a passagem da imprensa escrita para a web tem sido gradativa e até suave, considerando a velocidade com que as novidades surgem, também seguindo o ritmo da demanda. A parcela de poder que a imprensa possui por lá é proporcional à democracia que a população exerce: não é surpresa para ninguém um blog criticar o jornalista Jayson Blair, do New York Times, ou a parcialidade de uma notícia. Já no Brasil, o padrão educacional do cidadão não é o mesmo, além do acesso a internet alcançar apenas uma parcela mínima da população. A equação do jornalismo impresso, transformado em site, não fecha quando o número de usuários que navegam no país é pequeno e esta parcela restrita não tem interesse pela cultura, política ou economia. É neste ponto que mora o perigo: a queda na venda de jornais impressos precisa ser compensada com o sucesso na Web. Se não houver sucesso na Web, os jornais mais tradicionais podem naufragar no meio da transformação.

Em defesa da posição conservadora dos jornais tradicionais em resistir e esculhambar alguns instrumentos das redes sociais, pode se dizer apenas que o brasileiro internauta não está acostumado a participar de discussões de maneira educada, razão esta que enlouquece os jornalistas mais experientes, surpresos com os erros de português e com as grosserias de parte dos leitores.

Como foi dito no Haaretz: nos EUA, pelo menos o New York Times já se conformou em não ser mais o ponto central da vida urbana, como era há dez anos. Tal característica foi transferida para as redes sociais.

Já no Brasil, os jornais tradicionais se questionam: como manter o lucro, agregar as redes e ainda assim manter a importância do editorial, diante da pulverização? Se o jornal linca para um blogueiro qualquer que visitou a FLIP, significa que ele tem um conteúdo que o jornal não tem, logo, o jornal não deve lincar para ele, porque ele é um concorrente potencial... Como eu já disse, aqui não é a América, a terra onde a idéia sozinha dá à luz o empreendimento. Se uma estrutura de jornal impresso, trabalhando exclusivamente para a internet não sobrevive em lugar nenhum do mundo, por que sobreviveria em um país onde ninguém paga um centavo sequer por conteúdo navegável? A AOL daqui não gorjeou como a dos EUA. Também não temos ainda uma cultura de publicidade na internet suficiente para custear uma redação grande, de imprensa impressa, além da nova concorrência dos sites de classificados, atividade que era quase um duopólio dos jornais tradicionais.

A vocação da internet nacional é também a solução para os nossos jornais: as redes sociais, que não são redes de notícias, mas redes de informações. Conversar com os amigos não é o mesmo que informar o índice da inflação do mês de julho, assim como comentar um livro não é igual a escrever um ensaio. Se houver uma integração com estas redes, haverá demanda para a imprensa, do contrário, o jornal que der as costas para Orkut, Blogs, MySpace e Second Life, vai derrubar o último pinheiro para a gráfica.

O exemplo do El País
O jornal espanhol El País seguiu o sonhador Dom Quixote e inovou corajosamente ao criar um domínio próprio para blogs. Ao invés de reduzir o número de leitores, a tática agregou a grande massa de jovens ruivos que usam aparelho, leitores assíduos do jornal...

Vicente Escudero
São Paulo, 23/8/2007

 

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