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Quarta-feira, 19/12/2007
Tropikaos
Guga Schultze

Tropicalismo é um termo não muito funcional para definir o que estava acontecendo na música, no Brasil, no final dos anos sessenta. Assim como a gente pode, por exemplo, apelidar um cachorro de "Banana", isso é só um nome e, encarado como tal, é perfeitamente admissível, mesmo que o cachorro lembre apenas vagamente uma banana, ou nem isso.

Tropicalismo é a mesma coisa, não é um nome que caracterizava perfeitamente a bagunça alegre dos baianos, que apareceram bem na hora em que havia uma tentativa de politização musical dentro da MPB, a famigerada música popular brasileira. Havia alguma coisa tropical ali, é verdade, mas aquele visual colorido (que influenciou fortemente a consolidação do nome Tropicália junto à mídia) a gente via estampado igualmente naquelas kombis velhas dos hippies de São Francisco, Califórnia. Era o auge do flower power nos EUA e os baianos eram, na aparência, hippies assumidos. Mas não estavam realmente nessa onda, pelo menos musicalmente.

O som da Tropicália era um caos. Ainda parece um caos, ouvido hoje. Algumas orquestrações exageradamente estridentes, formulações musicais díspares demais entre si, o laboratório de algum cientista maluco e meio trapalhão. Esse sujeito poderia ter sido o Chacrinha, por exemplo, o grande animador da TV brasileira, que já era um tropicalista por natureza, antes da tropicália. Chacrinha era um agente da Kaos (melhor que "do caos") e seus programas de auditório eram uma coisa divertida, colorida e anárquica. Fica difícil não imaginar que ele poderia ser, com muita propriedade, o inventor do tropicalismo.

Depois do intimismo "burguês" da Bossa Nova, considerado por muitos como excessivo, e sob a botina militar do governo vigente (vigente de "vi gente sendo presa"), ensaiava-se, no Brasil, uma "conscientização política", a ser ministrada nas canções, em doses cada vez menos homeopáticas. Por "conscientização política" entenda-se marxismo, ou trotskismo, ou lenilismo, ou stalinismo, ou maoísmo, ou castrismo... essas coisas, o de sempre. Esse também é um termo francamente inadequado, a menos que "política" signifique esquerda e "conscientização"... bem, se refira ao uso exclusivo do lado esquerdo do cérebro, talvez. Ou será o direito? Sei lá.

Naquela época a MPB era levada a sério, uma coisa meio impensável, hoje. Era tema constante de debates acalorados, artigos inflamados nos jornais ou revistas. Em suma, lenha na fogueira das vaidades. Na TV havia uma série de sujeitos, provavelmente admiradores ferrenhos de Carlos Lacerda, que apareciam em alguns programas, discutindo, julgando como magistrados a música brasileira. Imitavam os trejeitos de Lacerda, o punch verbal, o terno cinza levemente amarrotado, a gravata torta e os óculos de aros grossos, pretos, que eles tiravam e colocavam na cara durante as frases bombásticas. Era uma boa caricatura e funcionava, atraía a atenção da classe média - que era quem assistia televisão -, interessada mais pela encenação cafajeste, pela promessa de baixaria, ainda latente na TV, do que pela discussão em si que, na maioria das vezes, era tão cretina quanto seus articuladores.

A classe estudantil, então chamada assim, também levava a coisa a sério. Outro termo esquisito, porque uma classe estudantil seriam alunos dentro de uma sala de aula. Mas não, aqueles estudantes reinvidicavam o status de camada social, toda composta de estudantes, claro, ainda que a maioria deles nem estudasse muito. Contra a seriedade ostensiva do regime, contra a seriedade histriônica da TV, os estudantes da época gostariam de impor a seriedade, não menor, de seus ideais revolucionários. Todo mundo era muito sério. Para não dizer reacionário mas, já que foi dito, é melhor consertar para "intransigente". A MPB era discutida por facções intransigentes, várias convicções e pouco consenso. A não ser este: de que o negócio da MPB era um assunto da maior seriedade.

Mas é bom lembrar que, enquanto isso, a juventude suburbana das grandes cidades já descobria seus ídolos, Roberto Carlos e a patota barulhenta, feliz e visceralmente brega (com pouquíssimas exceções?) da Jovem Guarda, que só foi levada a sério, inicialmente, pelos tropicalistas e, naturalmente, pela mídia "pensante" alguns anos depois.

Os baianos vieram bagunçar o coreto, embaralhar as perspectivas, "desafinar o coro dos contentes", dos descontentes e dos (raros) indiferentes. Como movimento, a Tropicália poderia ser apenas a história do jovem Caetano Veloso, do momento em que apareceu nos palcos da TV Record, no festival da canção de 1967, cantando "Alegria, alegria" até seu exílio em Londres, no ano seguinte. O movimento se resume, basicamente, nas coisas que Caetano e Gil fizeram nesse período; eles e o diâmetro daquele círculo de influência que traçaram ao seu redor. O movimento foi batizado por jornalistas e o nome, Tropicalismo, posteriormente assumido.

Caetano, magrelo, com aquela cara de curinga de baralho, era mesmo um curinga, uma carta que podia mudar o jogo. Conseguiu um quarto lugar naquele festival da canção com uma melodia que era quase uma marchinha de carnaval. De rock mesmo só havia a banda, os cabeludos argentinos Beat Boys, mas Caetano foi imediatamente acusado de corromper a MPB com o rock'n'roll. Uma acusação que pecava pela rigidez, já meio boba naquela época em que os Beatles estavam distorcendo até os ouvidos menos atentos ao novo som do rock.

O impacto mais poderoso de "Alegria, alegria" (a canção que abre, praticamente, o tropicalismo), foi causado pela sua letra. Essa sim, inovadora e com um clima completamente fora dos padrões habituais da MPB de então. Existiam, até então, palavras-chave no cancioneiro popular e o universo que elas aglutinavam à sua volta era característico. Havia o samba, com as rosas, as morenas, as mulatas, o batuque, a dor de cotovêlo, o lamento, o pinho, a viola, a paixão e o luar, por exemplo. O universo brejeiro e choroso do samba. A Bossa Nova inovou no tom coloquial, no uso do diminutivo; algumas letras mais arrojadas mas, ainda assim, uma crônica intimista e um pouco mais otimista dos mesmos sentimentos básicos, o amor, o sorriso e a flor. A emergente canção de protesto cantou Marias, lavadeiras, favelas, morros, seca e retirantes - uma nota de desespero se instalava num grande número dessas canções e o desespero, seja boêmio, apaixonado ou político, ainda era uma tônica imediatamente reconhecida, portanto, tradicional. Mas a letra de "Alegria, alegria" simplesmente fugia desse padrão e apontava para outra visão possível, para uma modernidade até então ausente nos textos musicais.

Caetano valorizou, ou revalorizou como ninguém a letra de uma canção. Fez algumas que são poemas verdadeiros, na tradição da grande poesia sul-americana, se quiserem. "Janelas abertas num. 2"; "Tropicália"; "Sua presença morena". Como músico, é apenas competente. O grande músico tropicalista (continua sendo) foi Gilberto Gil que, inclusive, é um letrista muito bom. A pergunta já foi feita: letra de música é poesia? A resposta correta é uma pérola da concisão: depende. Acredito, por exemplo, que "Janelas abertas num. 2" é um poema, antes de possuir a melodia. Ou seja, foi escrita, talvez, como um poema, depois veio a música. De qualquer forma, pode ser lida como um poema e é um poema notável, em qualquer dimensão. As canções são geralmente feitas na ordem inversa, o que não invalida o fato de que algumas letras alcancem o terreno da poesia explícita. Muitas vezes a poesia de uma letra está numa frase, ou num verso apenas. Mas Caetano chegou a produzir alguns poemas inteiros e reais.

Poesia, inclusive, é um dos aspectos fundamentais do tropicalismo, na medida em que ele arregimentou alguns nomes como Torquato Neto, Capinam e mesmo Tom Zé. Ou era algo que se parecia mais com poesia do que com qualquer outra coisa e não apenas com uma letra de música. Caetano inaugurou uma nova sensibilidade poética e conseguiu, por incrível que pareça, impor sua refinada lírica no coral, geralmente meio jeca, da MPB.

Outra coisa que o tropicalismo fez, apesar da oposição inicial dos puristas, foi também uma revalorização da velha guarda. De Vicente Celestino a Carmem Miranda, Lupicínio Rodrigues a Ismael Silva. Caetano surpreendia esses puristas com seu apreço às vertentes mais tradicionais da MPB. E tangos, rumbas e mambos; a américa latina, carnaval e purpurina. E praticamente nada de rock. Isso talvez tenha sido um problema para mim, por exemplo. Era uma época em que a segunda onda do rock chegava com força total (a primeira foi Elvis e sua turma) e os tropicalistas não estavam nem aí, as roupas hippies não escondiam a indiferença e isso causava um contraste estranho para os jovens roqueiros de então. Havia, sim, Os Mutantes, mas não eram a tropicália. Gal Costa cantou em 72 o "Vapor Barato", de Jards Macalé e Wally Salomão, mas os tempos já eram outros.

E os tempos, efetivamente, se tornaram outros a partir do exílio de Caetano e Gil. De Londres, Caetano escrevia algumas coisas para O Pasquim. Eu ficava mais tranqüilo, o poeta ainda estava lá, com sua verve intacta. Mas O Pasquim promovia então um "carioquismo", uma apologia do jeito carioca de ser, incompatível com a "baianice" dos tropicalistas. Acabaram brigando. Caetano voltou do exílio, O Pasquim pasquinava, os Beatles acabaram. Não necessariamente nessa ordem. Mas, usando o linguajar irônico d'O Pasquim, todo mundo sabia desde então que a Tropicália tinha sido inserida no contexto.

Guga Schultze
Belo Horizonte, 19/12/2007

 

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