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Quinta-feira, 24/1/2008
O mau legado de Paulo Francis
Paulo Polzonoff Jr

Eu gostava de Paulo Francis. Com um pouco de exagero, poderia até dizer que o idolatrava. Mas, hoje, passados mais de dez anos da morte dele, não posso deixar de mencionar um dos seus legados mais funestos. Não, não me refiro aos imitadores do estilo combativo de Francis ― até porque, sinceramente, acho boboca este negócio de classificar todo mundo que pretende escrever com um mínimo de combatividade como imitador de Paulo Francis. Me refiro, isto sim, a todo um modo de encarar a cultura.

Francis era, para usar uma palavra que está em voga, um fanfarrão. Chutava horrores. Mentia mais ainda. Dizia, por exemplo, que lia uns calhamaços em duas horas. Garantia a quem quer que fosse que assistia a todas as óperas possíveis, mesmo aquelas para as quais os ingressos estavam esgotados há meses. Quase todas as semanas mencionava uma tese nova ou um show imperdível ou ainda um disco que não saía de sua vitrola. Ora, quem já tentou ler uma tese sabe o quão enfadonhas elas tendem a ser.

Se Paulo Francis não inventou ― e não inventou, ora! ― com certeza foi um dos maiores profetas de uma ansiedade cultural que é a marca do nosso tempo. As pessoas acham que tudo é imperdível, do último livro de Cormac McCarthy ao mais recente espetáculo do Grupo Corpo. Tudo que não é baixa cultura (axé, tecno-brega e que tais) seria essencial ao ser humano. Perder uma destas referências é como perder o bonde da história.

Uma balela, claro. Uma doença que infesta muita gente. Já me infestou. Outro dia mesmo estava me lembrando da ansiedade com que esperava determinada peça ou estréia de filme europeu em Curitiba: como se aquilo fosse determinante para minha apreciação da existência. E o modo como recebia os livros que as editoras me mandavam, sofrendo de antemão por saber que era impossível ler todas aquelas obras absolutamente necessárias?

O cinema era minha fonte de maior terror. Sim, aquilo que para a maior parte das pessoas representava um momento de descontração era uma tortura para mim. Eu não pagava cinema. E me sentia na obrigação de ver todos os filmes em cartaz, para poder escrever sobre eles. Logo, quando chegava o fim de semana, eu ia para o cinema cedo. Estudava os horários de modo a sair de uma sessão e entrar em outra. Um dia (o famoso fundo do poço), cheguei a ficar mais de doze horas no cinema, me alimentando basicamente de pipoca. Porque eu precisava ver os principais filmes antes dos outros.

Percebo que esta ansiedade faz parte da vida de muita gente. Gente nova, naturalmente ansiosa, movida por este redemoinho que associa a inteligência ao consumo. Principalmente no que diz respeito a livros, que é o mundo que eu acompanhava mais de perto nos últimos anos. Todos os lançamentos precisam ser comprados e lidos no momento em que as pessoas estão falando sobre eles. Se há alguma polêmica (boba, quase sempre) em torno de determinado livro, as pessoas se sentem ainda mais obrigadas a ler o livro para, ora, para participar da discussão.

O que dá para notar, contudo, é que esta abordagem à la Paulo Francis (nem todo mundo tem o talento de Francis para fingir e brincar com esta coisa toda) da cultura gera um bando de pessoas semicultas, incapazes de uma leitura mais profunda, até porque é impossível alcançar o fundo com esta pressa toda. É uma espiral de infelicidade parecida com aquela que acomete os compradores compulsivos; no caso da cultura, quanto mais você lê, ouve e assiste, mais infeliz você se sente porque percebe que há um godizilhão de coisas "essenciais" para se ler, ouvir e assistir.

Eu me lembro de ter passado por crises gigantescas neste sentido. Ao ler a famosa lista de livros recomendados por Paulo Francis, por exemplo, saí praguejando contra tudo e contra todos porque, ora, porque aos catorze anos eu não tinha lido Crime e Castigo. E também porque não existia (não existe ainda hoje) uma edição completa de Declínio e queda do Império Romano. Como eu poderia viver sem isso? Como um dia eu poderia alcançar o Nirvana sem esta base?

Hoje eu passo incólume pela prateleira dos lançamentos nas livrarias. Gostaria muito de ler As Benevolentes, mas, quer saber?, fica para a próxima encarnação. Ou para quando e se eu tiver uma hepatite ou coisa do gênero. Até que me dá uma vontadezinha de ir ao cinema ver a mais recente produção franco-indiana, mas, só de pensar na fila e no preço e na falta de educação das pessoas. Melhor esperar o DVD. Continuo gostando de balé contemporâneo e é mesmo bem legal assistir ao Grupo Corpo, mas, sinceramente, não vou ficar menos inteligente (ou mais burro ― uma questão de perspectiva) por causa disso.

(Gostaria de dizer que não há nada mais essencial do que a própria vida, mas dizer isso é correr o risco de ser comparado a um destes tios barrigudos e burros que eventualmente se tornam presidentes orgulhosos daquilo que aprenderam no cotidiano, e não nos livros).

Não há nada mais essencial do que a própria vida (!). A cultura é um belo adereço que nos engrandece. Mas só se encontra esta grandeza na apreciação cuidadosa de determinados produtos culturais. Reside na escolha certa busca (nobre) pela sabedoria. O consumo tresloucado de tudo que nos parece imperdível é, na verdade, uma terrível perda de tempo.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Polzonoff.

Paulo Polzonoff Jr
São Paulo, 24/1/2008

 

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