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Quarta-feira, 6/2/2008
2007 e os meus CDs — Versão Nacional 1
Rafael Fernandes

Em 2006 fiz uma lista dos meus discos preferidos e farei mais outras contemplando 2007, que felizmente confirmou minhas expectativas (presentes no final do texto de 2006) com outros ótimos lançamentos. Tanto que um texto apenas não será suficiente. Listas em geral não têm muitos critérios e pecam também por estarem restritas ao universo do que tivemos acesso e tempo de ouvir. E todo o resto? Só para este primeiro texto contei, por cima, 15 discos que ainda não consegui ouvir. Mas como bem colocou o Polzonoff, calma! A qualidade e o prazer inerentes à informação são melhores que a quantidade. Ainda assim é interessante ― e divertido ― rever o que fizemos e conhecemos no ano que se foi. Podemos reavaliar, mudando ou reafirmando nossas impressões passadas.

Alguns dos discos citados aqui realmente acho destaques; têm qualidades diferenciadas, sendo os "melhores do ano" ― ainda que a avaliação continue subjetiva. Outros, se não chegaram a tanto, foram belas companhias. Separo as listas de 2007 por "temas". Para começar, a primeira parte do que eu gostei nesse ano em música brasileira. Ainda que o título deste texto se assemelhe ao de uma coletânea novelesca, a divisão foi feita só para organização e concisão.

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Chico Pinheiro e Anthony Wilson ― Nova


Ouça um trecho de "Nova"

Em tempos musicais de batidas monótonas, melodias pobres e letras imbecis, há quem arrisque, lançando discos arrojados e, "pior", instrumentais. E é isso que Chico Pinheiro ― um dos novos grandes compositores ― e Anthony Wilson ― exímio guitarrista, que integra a banda de Diana Krall ― nos apresentam em Nova. Nele, fica claro o talento e entrega de todos os participantes ― mais um daqueles discos gravados unica e exclusivamente para e em prol da música e nada mais. Não é um disco fácil, não entra em nossa cabeça à primeira ouvida. Mas à medida que se escuta mais, as músicas vão se construindo aos poucos. Ao final de algumas audições, o disco está todo montado e o prazer só aumenta. Em Nova a canção importa, mas também há espaço para improvisos ― as invenções musicais instantâneas, quando o instrumento toma as rédeas da canção. Além de músicas de Chico e Anthony o disco traz versões de "Café com pão" (João Donato/Lysias Ênio), "When you dream" (Wayne Shorter) e "Requebre que eu te dou um doce" (Dorival Caymmi).

Minhas músicas preferidas: "Nova", "Tempestade", "Laranjeira", "Planície".

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Chico Saraiva ― Saraivada


Ouça um trecho de "Moçambique"

Definindo de forma simplista, o que se ouve em Chico Saraiva é uma união da vertente musical mais, digamos, bruta, de raiz pesquisada pelo grupo A Barca (do qual é integrante) com o refinamento de um Guinga. Claro que não é só isso, mas é um bom panorama para explicar que em Saraivada o compositor consegue equilibrar com destreza esses dois lados, ficando mais cristalino seu estilo; avança alguns passos em relação seu ótimo antecessor, Trégua. É um disco belíssimo, delicado. Saraiva parece um artesão, que foi trabalhando com calma e esmero as canções, que estão marcantes, prontas para repousar em nossas memórias. O músico canta em boa parte do disco. O resultado não é brilhante, mas, por ser o autor nos mostra o ponto exato da canção. Seus parceiros letristas não ficam atrás em achados: "Aos que ousaram se perder pra se encontrar/ Chegaram sem saber se vão voltar" (Makely Ka em "Moçambique"); "Sofrimento por alguém/ É curtinho todos têm/ É o contrário da tristeza/ que é viagem sem ninguém" (Luiz Tatit em "O tamanho da tristeza"); "Baita epidemia! / Quanta dinamite no paiol/(...)/ Que temperatura/ tem siricotico no metrô/ haja acupuntura!/ Válvula de escape/ É piripaque e muita tarja preta, ou faixa preta em tae-ken-dô(...)" (Mauro Aguiar em "Startrek de tacape").

Minhas músicas preferidas: "Moçambique", "O tamanho da tristeza", "Startrek de Tacape", "Estrela do Oriente", "Sombra".

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Danilo Moraes e Ricardo Teté ― A torcida grita


Ouça um trecho de "Teresa e a torcida"

A torcida grita é uma das boas surpresas de 2007. Tem belos achados, candidatos a clássicos: "Teresa e a torcida", "Arredondamento", "TinTim" e a ótima "Viva a vaia", com excelente arranjo de cordas de Tiago Costa. Apresenta uma bagagem da (boa) MPB com tintas pop; traz toques de refinamento daquela com a leveza deste. É um disco inteligente, de bons arranjos, grandes melodias e ótimas letras, como "Teresa...": "(...)Teresa pinta na tevê interpretando com primor/ a venerável musa de um disk-amizade/ além de memoráveis pontas no programa dos trapalhões (...)". Viria para ficar, se o mercado da música não estivesse tão estranho ― espero que ainda haja tempo para isso. Ganhou post no blog do Digestivo.

Minhas músicas preferidas: "Teresa e a torcida", "Arredondamento", "TinTim" "Viva a vaia".

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Dr. Sin ― Bravo


Ouça um trecho de "Nomad"

Em Bravo, os irmãos Andria (baixo) e Ivan Busic (bateria), mais o fantástico Edu Ardanuy (guitarra) mantém o alto nível da discografia do Dr. Sin e nos apresentam outro ótimo disco de rock. É uma aula de como fazer grandes músicas com uma cozinha consistente; formam um power trio turbinado, agora com a companhia de teclados em algumas faixas. Ponto negativo: as letras não fazem jus ao som; servem para as melodias, mas sem grandes achados. Mas o som... bem, é um baita som! O estilo é um rock que flerta com várias vertentes do hard e heavy metal, sem abraçar totalmente nenhum deles.

Bravo é também uma fabulosa mostra de guitarra bem tocada por Edu Ardanuy: técnica no momento certo, pegada, bom gosto, invenção. É um disco competente, uma espécie de resgate do rock de uma forma "simples", sem querer aparentar nada de "genialidade", muitas vezes colocada por parte de mídia, que tenta sacralizar o estilo, dar a ele uma relevância maior do que merece. Aumente o volume e ouça sem preconceitos. Isso sim é Rock!

Minhas músicas preferidas: "Nomad", "Drowning in sin", "Freedom", "Hail Cesar", "Dream Zone", "Full Throttle".

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Guinga ― Casa de Villa


Ouça um trecho de "Villalobiana"

Essa obra-prima de Guinga rendeu uma coluna. Após diversas audições, fica pouco a reiterar. Grandes canções, belos arranjos, Guinga melhor que nunca, "Villalobiana" é uma das coisas mais sublimes já criadas por um ser humano. Entra aqui por eu achar que realmente está entre os melhores de 2007 ― possivelmente um dos melhores da última década. Comentários adicionais, lá na coluna.

Minhas músicas preferidas: "Villalobiana", "Maviosa", "Mar de Maracanã", "Bigshot", "Comendador Albuquerque".

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Joyce e Toninho Horta ― Tom Jobim: Sem você


Ouça um trecho de "Só danço samba"

Ótimo disco lançado em 1995, ano seguinte à morte do maestro soberano. Mas só fora do Brasil. Em 2007 ― ano em que Tom completaria 80 anos ― finalmente veio à tona para os brasileiros. Gravado em apenas dois dias, é um belo disco de violão e voz. A estrutura básica das músicas foi mantida de forma respeitosa. O destaque está no violão de Toninho Horta, numa atuação fenomenal, colocando sua marca nas músicas ― bons exemplos são "Inútil paisagem" e "Só danço samba". Joyce também mostra um belo trabalho de condução ao violão em "Estrada do Sol" e canta lindamente as canções. Doze anos depois, o disco não se tornou datado. Isso é qualidade.

Minhas músicas preferidas:"Inútil paisagem", "Só danço samba", "Lígia".

Rafael Fernandes
São Paulo, 6/2/2008

 

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