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Quarta-feira, 12/3/2008
Autobiografia teológica
Gian Danton

Venho de uma família de católicos praticantes. Fui batizado, depois fiz primeira comunhão e crisma. Era uma obrigação. A primeira comunhão foi particularmente traumática. Tínhamos que participar de um coral. Sempre fui viciado em informação e acho insuportável a redundância (alguns chamariam isso de curiosidade patológica). Ficar ali repetindo sempre as mesmas músicas era uma tortura chinesa.

Na época da crisma, a professora era adepta da teologia da libertação. Era bem mais interessante que as preleções repetitivas e descontextualizadas que se ouvia na missa. A preocupação social também pareceu importante, uma quebra com uma igreja que historicamente sempre esteve ao lado das classes mais favorecidas, mas era pé no chão demais, não parecia religião. A teologia da libertação parece ter se preocupado muito com a terra e se esquecido do espiritual.

Em suma, nada disso me conquistou. Eu ia à igreja porque, se não fosse, não recebia a mesada (que era paga parcelada, semanalmente, justamente para me forçar a freqüentar a igreja). Logo descobri que bastava pegar o folheto, estudá-lo por alguns minutos e já saberia contar tudo sobre a missa. Quando comecei a ganhar dinheiro e conquistei uma mínima indepedência financeira, tornei-me ateu. Não um ateu praticante, mas um ateu curioso. Não acreditava, nem deixava de acreditar. Passei um bom tempo assim, num período de dúvida cartesiana, até porque, provavelmente, nunca tivera uma fé verdadeira.

Mas, como disse, era um curioso. Problemas pessoais me levaram a procurar outras explicações para as coisas. Comecei com o taoísmo, que se parecia mais com filosofia do que com as religiões que eu conhecia. Conheci o taoísmo por vias indiretas. Eu havia encontrado em um sebo um interessante volume sobre o I Ching. Embora o I Ching seja visto como um método de advinhação (dizem que a ministra Zélia Cardoso de Melo jogou o I Ching para saber quanto seria o limite de saque na época do plano Collor), meu interesse pelo volume era muito mais filosófico. Frases como: "Tudo segue fluindo, como esse rio, sem cessar, dia e noite" ou "A lei univesal que tudo rege é o constante mudar" ecoavam o pensamento do grego Heráclito. Há duas grandes correntes de pensamento na filosofia. Uma delas propõe que nada muda. Se parece mudar, é apenas na aparência, não na essência. Outra corrente, prega que a essência das coisas é justamente a mudança. Esse segundo ponto de vista sempre me impressionou mais, daí o interesse pelo livro sobre o I Ching. Na introdução havia uma pequena imagem do criador do taoísmo, com a legenda: "Retrato de Lao Tsé, filósofo chinês do século V a.C., autor do Tao Te Ching, livro no qual destaca os valores da liberdade, da solidão, do estado de quietude e da humildade".

Aquela pequena notinha me levou a pesquisar sobre o taoísmo e acabei me deparando com a versão traduzida por Humberto Rodhen, que na época poderia ser encontrada em qualquer banca de revista. Foi ali, naquele dia, folheando aquele livro sobre o I Ching, num sebo imundo e bagunçado de final de linha de ônibus, que comecei meu retorno em direção à fé, via filosofia. Todo bom leitor, depois de algum tempo, vai perdendo a paciência e se acomodando naqueles autores prediletos, mas quando se é jovem, lê-se tudo que lhe aparece diante dos olhos. Como estava nessa fase jovem quando li o Tao Te King, fui dele para o Bhagavad Gita, em uma edição da revista Planeta. Na época havia vários desses livros nas bancas, em encadernação em capa dura vermelha, todos com conteúdo místico e a preços módicos. Deles, só o Bhagavad Gita me interessou. O diálogo entre o príncipe Arjuna e Krishna tinha algo de épico, filosófico, religioso e poético que fazia dele uma ótima leitura. O Bhagavad me mostrou a importância do ritmo, da música, para a religião. Na época, cheguei a freqüentar uma fazenda Hare Krishna nos arredores de Belém. Fui ao local levado por uma amiga. Lá conhecemos um prabu (mestre) divertido que me remetia às ilustrações taoístas que eu vira em livros, com mestres brincalhões. Nem mesmo quando nos encontrou fazendo um lanche na cozinha, ele se aborreceu (entre os Hare Krishna, a comida é primeiro oferecida a Krishna, sendo a cozinha um lugar sagrado). A música também era encarada de maneira diferente daquelas enfadonhas repetições do coral da igreja católica. Era solta, fácil de cantar e tinha o objetivo de introduzir o iniciado numa espécie de transe místico. Era uma experiência interessante ― e era também, claramente, um tipo de religião.

Na época cheguei a produzir um trabalho na faculdade, analisando os Hare Krishna do ponto de vista antropológico e esse trabalho me deu tanto fama quanto inimigos. Nessa pequena monografia, eu analisava como a ritualização religiosa de todos os passos da vida de um Hare Krishna, como o ato de comer, tinha o objetivo de demarcar o distanciamento entre o ser humano e os animais. Inimigos porque a professora comentou em todas as turmas que um único aluno fora capaz de produzir um trabalho merecedor de nota máxima.

O passo seguinte na direção da reconciliação com a religião se deu também por acaso. Eu estava em um auditório em Belém, pronto para uma palestra sobre quadrinhos e resolvi assistir a palestra que a precedia. Era sobre um tema místico qualquer. No final, o palestrante convidou a platéia para conhecer a União do Vegetal (UDV). Hoje eu sei que isso foi uma irresponsabilidade. Para conhecer a UDV é necessário procurar um mestre, conversar com ele, explicar os motivos, receber orientações etc. No meu caso, não aconteceu nada disso. Terminando minha palestra, fomos em grupo e chegamos quando já estavam se iniciando os trabalhos.

A União do Vegetal é uma religião fruto do sincretismo religioso das tradições índias com as cristãs, da mesma forma que o Santo Daime. Mas, embora o Santo Daime seja mais próximo do catolicismo, a UDV parece mais relacionada ao espiritismo, em termos de crença e de rituais (ou falta deles). Nas sessões, bebe-se o chá, uma mistura do cipó mariri, com a folha chacrona, dois produtos típicos da Amazônia. Depois senta-se em cadeiras reclinadas e espera-se o efeito. Há toda uma nomeclatura relacionada a esses efeitos. O efeito físico é chamado de força e o espiritual de luz, as visões são as mirações. A fase inicial, de força, costuma ser incômoda, especialmente com vômitos. Dizem que é uma fase de purificação, e parece ser mesmo, pois logo em seguida a pessoa entra num estado de tranqüilidade. Comigo as duas situações eram bastante demarcadas: a fase inicial violenta e a fase seguinte com um estado de paz e concentração que podia durar horas. As mirações podiam ser lembranças de momentos esquecidos e, nesse sentindo, era uma verdadeira terapia, que ajudava a lidar com situações que, como dizia Jung, foram para o lado sombra. Havia quem lembrasse de vidas passadas ou até previsse o futuro (eu cheguei a presenciar um desses prenúncios do futuro e depois sua realização). Os integrantes da UDV passam o tempo todo sentados e só podem falar com autorização do mestre.

Normalmente não há preleções, embora os mestres possam responder a perguntas da platéia. A maioria do tempo é tomada por músicas gravadas (que iam de Luiz Gonzaga a Roberto Carlos, passando por Raul Seixas) e por canções, as "chamadas", entoadas pelo mestre ou por outra pessoa, que serviam para chamar entidades espirituais ou estados de espírito, como luz. Minha primeira visita à UDV se pareceu muito com aquilo que alguns estudiosos chamam de êxtase místico: uma percepção de união com a natureza, de extrema paz espiritual e capacidades intelectuais dilatadas. Huxley diria que as portas da percepção teriam sido abertas, embora relatos semelhantes sejam muito antigos, comuns entre santos católicos, por exemplo. Era minha primeira experiência espiritual genuína. Curiosamente, tenho conversado com muitas pessoas que se dizem religiosas e poucas dizem já ter experimentado esse estado de espírito. A maioria é religiosa por tradição familiar. Nunca consegui compreender isso. Descartes dizia que não devemos aceitar como verdadeira nenhuma coisa que não se conhecesse evidentemente como tal. Aliás, o próprio Descartes descreve sua experiência com palavras que se parecem muito com um êxtase, embora de natureza não religiosa: "Naquele ano, fui visitado por um sonho que veio de cima... ouvi o estrondo de um trovão... era o espírito da verdade, que descia para assenhorear-se de mim".

Uma série de fatores, entre eles minha mudança para Curitiba, e posteriormente para Macapá, fizeram com que eu me afastasse da UDV. Eu ainda continuava me considerando um taoísta, mas ansiava por alguma outra experiência, mais próxima. Antes de mais nada deveria ser uma religião que não se parecesse com uma torcida de futebol. Essa é uma característica que sempre me incomodou: a mania de achar que "a minha religião é melhor que a sua" da mesma forma que se diz "meu time é melhor que o seu", mesmo quando ele perde. Quem não é do meu time-religião, está condenado ao fogo do inferno. Conta-se que em alguns templos taoístas há altares nos quais há símbolos de diversas religiões, mostrando que, no final, todas têm o mesmo objetivo. Em suma, deveria ser uma religião que pregasse o respeito por outras crenças. Além disso, deveria ser uma religião que, aderindo a ela, eu não precisasse simplesmente esquecer todo o conhecimento adquirido pela filosofia e pela ciência (há religiões que, até hoje, acreditam que a Terra é o centro do universo). Deveria ser uma religião que não pregasse uma fé cega, mas uma fé raciocionada, que incentivasse o livre-pensar, e não a obediência cega a um líder. Também deveria ser uma religião que percebesse o caráter de símbolo dos rituais e não se apegasse a eles (segundo o taoísmo, enquanto nos apegamos aos rituais, o tempo está passando e mudando tudo à nossa volta).

A única religião na qual consegui encontrar essas características, em maior ou menor grau, foi o espiritismo. Alan Kardec, o codificador do espiritismo, era um homem de ciência, um educador. Daí a religião criada por ele ter um caráter tão pouco dogmático e com tanta abertura para a ciência e a filosofia. Ele se beneficiou das descobertas metodológicas da época, do método indutivo, para definir as verdades espirituais. Fosse hoje, ele provavelmente estaria ancorado no pensamento complexo e na teoria do caos. Além disso, a humildade tornou-se um princípio básico, que se reflete no respeito a todas as outras religiões e crenças (o que faz com que muitas pessoas freqüentem, por exemplo, a igreja católica e o centro espírita). O ritual foi reduzido a um mínimo necessário (a terapia do passe). E, apesar de ter sua origem na França, hoje o espiritismo é uma religião autenticamente nacional, até porque ecoa as crenças dos índios que moravam aqui muito antes de chegarem os europeus.

Gian Danton
Macapá, 12/3/2008

 

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