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Terça-feira, 11/3/2008
A máquina de poder que aprisiona o espírito
Tatiana Cavalcanti

Maria será o personagem dessa história. Certa vez, Maria estava sozinha dirigindo seu carro, numa bela tarde de sol, pelas ruas de São Paulo, quando parou no semáforo vermelho. Uma moça jovem e bonita se aproximou e educadamente perguntou: "Você tem Jesus no coração? Gostaria de ler a palavra que o Senhor nos deixou?". Maria, também muito educada, respondeu: "Não quero não, obrigada, sou atéia". A moça arregalou os olhos e exclamou inconformada: "Atéia, mas como assim atéia?". Maria respondeu da forma mais calma possível: "Atéia, sim, não acredito em Deus". Pronto, foi o início de uma pregação de segundos, mas que pareceu durar horas, até que o semáforo finalmente abriu e Maria se despediu daquela jovem inconformada por conhecer alguém que optou pelo ateísmo e não por Deus.

João, outro personagem, acabara de entrar na primeira série do colégio no auge dos seus sete anos de idade. Novos amigos, novos professores e novos dilemas. Pensou que ia estudar matemática, história, geografia, entre outras matérias, mas tudo que fez foi rezar. A primeira coisa que fazia toda manhã antes do início da aula era juntar as mãos e agradecer mecanicamente por isso e aquilo. Nunca compreendeu por que tinha que seguir rigorosamente aquele ritual matutino, sendo que ele nem era religioso. Quando entrou no colegial, tudo que queria era passar no vestibular e seguir uma carreira. Mas no que diz respeito à biologia, não se deparou com aulas de evolucionismo. Em vez disso, teve aulas de religião e, para explicar a origem do homem, a professora contou a velha história da criação segundo a Bíblia, com Adão, Eva e a maçã. Ele entendia que o pai da Teoria da Evolução, Charles Darwin, deixou algumas lacunas nos seus estudos, entretanto, conhecia a teoria do Evolucionismo como origem da vida. Tudo o que João queria era entender como chegamos aqui.

Se a teoria de Darwin é falha, deve-se corrigir e chegar à perfeição, afinal, estamos aqui na Terra para evoluir, não? Mas excluir a Teoria da Evolução dos currículos escolares ― como foi feito recentemente em alguns estados norte-americanos ― e substituir pela Teoria do Criacionismo é um tanto exagerado. A primeira teoria afirma que surgimos de um processo evolutivo ocorrido em milhares de anos, já a segunda, conta que o mundo foi feito em seis dias, com a supervisão de Deus, sendo o homem criado do barro e a mulher de uma costela. Quando se impõe o ensino religioso nas escolas, devemos lembrar que vivemos num país católico, entretanto, temos diversas religiões distintas, com crenças distintas, e todas elas devem ser respeitadas da mesma forma. Quando se exclui a ciência do currículo escolar, desrespeita-se a origem de nós mesmos.

Ao mesmo tempo, a ciência não pode ser considerada uma verdade absoluta, há que se impor limites para que não haja atrocidades como os experimentos "médicos" na Segunda Guerra Mundial, em que os nazistas usavam seus prisioneiros para experiências dantescas. O mais maléfico dos "médicos" foi Josef Mengele (que morou anos no Brasil até morrer afogado na região da praia de Bertioga, litoral paulista), que em Auschwitz fez barbaridades com gêmeos e liliputianos, e crueldades inimagináveis, como injeções no olho sem anestesia para tentar mudar a cor, esterilizações, contaminação com agentes causadores de doenças, amputações desnecessárias e retirada de órgãos. A ciência é feita para buscar soluções inteligentes e éticas.

Enquanto isso, a Igreja Católica nos dá livre arbítrio, desde que nossas atitudes sejam tomadas de acordo com as leis regidas por ela e pelo Papa. Onde está a liberdade de escolha se eu optar por um caminho diferente do que propõe a igreja? O personagem de Al Pacino, no filme Advogado do Diabo, define bem esse conceito, ao alegar que Deus gosta de tirar sarro de nós, mortais: "Deus gosta de observar. Ele é um gozador, dá instinto aos homens (...) e depois cria regras contrárias. É a maior piada de todas. 'Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula', tudo isso enquanto ele ri", ironiza.

As leis religiosas podem até ter um lado positivo para tentar orientar as pessoas a tomarem atitudes corretas. Criam-se leis moralistas para que as pessoas não ultrapassem o limite do bom senso. Mas que limite é esse que é ultrapassado o tempo todo pelos dirigentes de Igrejas? E a pedofilia na Igreja Católica, não é um crime bárbaro? Ou mesmo o desvio de dinheiro do bispo e bispa da Igreja Renascer presos nos Estados Unidos? Qual é o papel da religião que não ajudar ao próximo? Se Deus é a personificação da bondade, como pregam as religiões, como se sentiria ao ver uma mulher estuprada, machucada e grávida em decorrência dessa atrocidade? Aborto nem pensar? Mas e o direito de decidir seu destino, não fica valendo? Essa mulher provavelmente enfrentará outro conflito, além da violência, que é o de querer tomar uma atitude, mas não o fazer por receio a sua religião. Afinal, religião é para curar a alma ou confundir?

A Igreja Católica não aceita que nos dias de hoje se use camisinha. Um pensamento um tanto retrógrado, visto as doenças contagiosas ― como a AIDS, HPV, entre outras ― que temos a temer atualmente. Um amigo meu australiano tentou me explicar uma vez. Alegou que o que a Igreja prega é a fidelidade entre os casais, e isso tudo é muito lindo, mas, convenhamos, não faz parte da nossa realidade. Pessoas fiéis existem, com certeza, mas a questão é: como saber que nosso companheiro também é? É arriscado demais evitar a camisinha, e quando o Papa condena seu uso, pode estar cometendo, de forma indireta, um genocídio, visto que muitas pessoas ouvirão e obedecerão tais regras, mas muitos deles não deixarão de resistir aos seus instintos. A Igreja agora quer proibir a pílula do dia seguinte, um avanço da ciência que beneficia a milhares de mulheres no mundo todo. Organizações religiosas tentaram impedir ― nos idos dos anos 1970 ― estudos sobre a doação de órgãos, procedimento que até hoje já salvou milhares de vidas desde então.

O Estado é laico, mas ninguém parece se importar quando a religião se intromete em assuntos que não dizem respeito à espiritualidade nem a ajudar ao próximo. A religião cuida da alma, o Estado do cidadão, um não deveria interferir no outro. Muitas vezes a religião ― ou até mesmo a religiosidade ― aprisiona a espiritualidade do indivíduo numa camisa de força como uma máquina de poder. Por essa razão, a rigidez das Igrejas tem feito crescer em parte da população o interesse por escritores assumidamente ateus como Richard Dawkins, que recentemente lançou o livro Deus, um delírio, em que promete fazer o leitor virar ateu ou ao menos repensar seus conceitos sobre religião.

Dawkins ― grande expressão do Novo Ateísmo ― vive em Oxford, na Inglaterra. Sua casa fica a apenas 20 minutos de distância do memorial a Percy Bysshe Shelley, um dos maiores poetas românticos, que foi expulso da Universidade de Oxford há quase 200 anos ― por ateísmo.

Seja como for, boa parte dos ateus se sentem como os homossexuais na década de 1970, não têm coragem de "sair do armário" e assumir seu ateísmo ― por receio de represálias e preconceitos ou mesmo receio da possibilidade de não se conseguir um emprego ― e precisam se esconder atrás de personagens ou ainda se calam para não "ofenderem" aqueles que em Deus acreditam, até porque, mais do que ninguém, o ateu deve respeitar todas as crenças, sem exceção, mas em contrapartida, deve ser respeitado da mesma forma, porque o ateísmo é uma opção de vida, assim como a religião.

Tatiana Cavalcanti
São Paulo, 11/3/2008

 

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