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Terça-feira, 22/4/2008
Não há vagas? Então viva a informalidade!
Diogo Salles

Eu já havia participado de outros especiais aqui no Digestivo, mas nunca pude escrever com tanta autoridade sobre um assunto como escrevo agora. Se há uma frase que eu conheço como poucos e ouvi durante anos, essa frase é "não há vagas". Após mais de uma década colecionando sucessivos e retumbantes fracassos, interrompidos por alguns breves e tímidos sucessos, posso dizer, com total segurança, que ninguém aqui conheceu o limbo com a mesma intimidade que eu conheci. Não é recalque nem auto-piedade. Rejeito as lamúrias e a choradeira. Prefiro me ater apenas à realidade, salpicada pela auto-paródia e o que há de melhor (ou pior) do meu humor negro.

Pós-graduado em desemprego, com especialização em informalidade, formei-me, com honras, na universidade do nada e hoje tenho um respeitável currículo de doutor em ostracismo. Não se consegue um feito desses da noite para o dia. É preciso muita teimosia e estupidez. Tenho agora a chance de publicar aqui a minha tese de doutorado. Uma linda história de perseverança e, principalmente, desesperança. História que precisa ser contada. Afinal de contas, você sabe, sou brasileiro e não desisto nunca.

Como qualquer pessoa anormal, em meu início da carreira procurei seguir pelos caminhos mais erráticos. Eis que me deparei com o primeiro grande inimigo: o processo seletivo. E logo fiquei amedrontado. As empresas sabem mesmo avaliar um candidato pelo que ele tem de pior. Mas em meio a toda essa pobreza de idéias, existe um método de seleção que se destaca por sua notável imbecilidade: a dinâmica de grupo.

Nesse terreno baldio, onde só se pode enxergar pelo grau máximo da miopia, gerentes de RH avaliam os candidatos como camundongos em um laboratório. Pode funcionar para uma vaga que exige especificamente um perfil agressivo do candidato. Mas na grande maioria das vezes, tudo o que se consegue produzir são debates vazios em conteúdo e anárquicos em sua forma ― algo muito próximo das mesas redondas futebolísticas. Vencerá sempre o que tiver a melhor retórica e raramente o mais apto de fato para a vaga. Ali eu já podia perceber como somos reféns do marketing pessoal e como o subir na vida anda de mãos dadas com a mentira.

Sempre acreditei, ingenuamente, no "Não fale. Faça". O talento e o esforço sempre haveriam de superar qualquer deficiência no marketing do umbigo. Achava que as pessoas perdiam muito tempo falando bem de si mesmas. Não, não era perda de tempo. Era apenas o método mais eficaz de se atingir o objetivo. Num mercado de trabalho onde se glorifica diariamente a "competitividade", eu estava infindavelmente fadado ao fracasso, pois acreditava que a grande competição da minha vida fosse com o meu eu. O mundo todo não podia estar errado. Quem estava errado era eu e a estúpida competição de mim mesmo, um doce fardo que carrego até hoje. Talvez por isso eu tenha me tornado assim, tão sarcástico (o traço essencial de um cartunista). Embora tardio, meu sincero obrigado aos gerentes de RH pela não-preferência.

Nesse início de minha vida profissional eu convivia com um incômodo fato que me perseguia: não havia início. Era só tentativa atrás de tentativa. Em diferentes áreas, por todos os lados. E nada. Por mais que eu procurasse esconder minhas fraquezas, alguém sempre me desmascarava. O "mercado de trabalho" ainda era algo obscuro e ininteligível para mim. Era como um imenso e pouco iluminado corredor, cercado por várias portas, todas trancadas. E eu lá, claustrofóbico em meio à penumbra, sem nenhuma chave no bolso. Sentia-me como um leproso pela vergonha do pré-desemprego. Cheguei a ter pesadelos onde eu ouvia coisas como "Ih, olha ele lá. Não tem emprego... hahaha". Eram pesadelos assustadoramente reais.

A situação já ultrapassava os limites do sustentável quando fui salvo, pela primeira vez, pela informalidade. Foi quando me apresentaram ao mundo dos eventos, feiras, palestras e congressos médicos. O trabalho era de baixíssimas aspirações intelectuais. Meramente mecânico e burocrático, quando não braçal. Mas pagava melhor do que um estágio. Abracei minha mediocridade e, juntos, atropelamos o orgulho e seguimos adiante.

Alguns anos e vários empregos (a maioria sem carteira assinada) depois, me vi de volta às ruas mais uma vez. Mas agora a situação era menos dramática. Com alguma experiência na bagagem, eu podia escolher entre o canto fúnebre do desemprego ou as incertezas da informalidade. Escolhi a informalidade, essa velha amiga, pela qual eu um dia me afeiçoara.

Mas dessa vez seria diferente. Eu trabalharia como "autônomo". Gostei da minha nova ocupação. Era mais bacaninha do que dizer "freelancer", um termo pomposo, que me fazia lembrar tudo aquilo que aprendi a desprezar: a publicidade. Autônomo, embora menos sofisticado, me soava mais honesto (ou menos picareta) e dava uma idéia de independência. Sim, esse era o termo correto. E assim foi. Freqüentemente, por pura curiosidade (ou seriam recaídas?), eu voltava àquele escuro e tenebroso corredor, cheio de portas. Mesmo não conseguindo entrar por nenhuma porta, eu conseguia ao menos espiar pelas frestas dessa vez. E elas me mostravam que as coisas não haviam mudado muito.

Durante meus tempos de autônomo, onde não me eram impostas as atribuições de um emprego formal, criei a minha própria regra de ouro, à qual segui à risca: sempre que te entregarem uma agenda vazia, dê um jeito de preenchê-la. É nessa hora que você precisa ser inventivo, buscar alternativas. Voltei ao mundo dos eventos, desta vez fazendo caricaturas ao vivo. Pude vender estes e outros serviços pelo meu site, graças à mãe Google. Com a maior flexibilidade nos horários, pude procurar cursos que me interessavam. Além disso, me arrisquei em novos projetos. Lancei um livro, busquei novas mídias e conheci gente de diversos setores. Aprofundei, também, meu engajamento em ações sociais, que ampliaram muito minha percepção sobre o Brasil. Pude ver que entre as salas refrigeradas dos "especialistas" e o calor impiedoso do sertão existe uma distância muito maior do que se imagina.

Financeiramente não é uma maravilha, devo dizer. Mas dá pra viver dignamente se o autônomo for alguém com iniciativa. Nesse setor não há lugar para aqueles mais acomodados, que olham com apreço para a burocracia. Gente que sonha ardentemente com a estabilidade vitalícia, coisa que só um sonho pequeno-burguês e um cabide de emprego podem sustentar.

Porém, reza a cartilha politicamente correta que precisamos combater ferozmente a informalidade no mercado de trabalho. Só assim o país encontrará o caminho do desenvolvimento e da estabilidade. Esse é o discurso ― muito eloqüente, por sinal ― que se vende a quatro cantos no país. Como o estado ainda arrecada pouco em tributos e impostos, os políticos, sempre muito solícitos, têm feito um esforço louvável para conscientizar a população e os pequenos e micro-empresários. Se eu já me afeiçoara antes pela informalidade, agora é que eu estava perdidamente apaixonado por ela. Sempre que recebia pagamentos como pessoa física, não podia esconder o sorriso no rosto. Na precária situação financeira em que eu me encontrava, era um alívio saber que eu não teria de descontar os impostos. Melhor ainda era não precisar receber em troca os péssimos serviços públicos prestados pelo estado e ainda fingir gratidão. Seria muita hipocrisia da minha parte sorrir amarelo enquanto os governantes compram fazendas, passeiam em seus iates, comem prostitutas de luxo e alimentam suas contas bancárias no exterior.

Contudo, ficam várias dúvidas a quem está chegando agora ao maravilhoso mundo corporativo. Devemos ser nós mesmos e encarar todas as dificuldades que certamente virão de uma inevitável vida empreendedora? Ou é melhor encarnar o canastrão de si mesmo e jogar o jogo? Sempre penso no que poderia ter acontecido se, lá no início, eu tivesse passado em algum daqueles processos seletivos... Mas este não era o meu caminho. Tentei jogar o jogo. Perdi. Aprendi muito com todas as derrotas e hoje agradeço por ter sido um perdedor tão prodigioso. No mundo de hoje é importante saber que trabalho não é sinônimo de emprego, e que a CLT não pode se tornar uma muleta na vida de quem trabalha.

Sempre que se falava em "oportunidade", ressoava um enorme eco em meus ouvidos, pois estas sempre me pareciam distantes. Engana-se quem pensa que uma oportunidade se resume a um emprego formal. Pode ser um patrocínio para um projeto, a chance de abrir um novo negócio, descobrir um novo nicho no mercado, qualquer coisa que uma mente mais inquieta possa produzir. Com o passar dos anos eu fui entendendo que essa oportunidade, quando chegasse, não dependeria unicamente do meu esforço e competência, mas também do encontro de situações que fugiam do meu controle. A decisão final não seria só minha. Tudo o que eu tinha a fazer era buscá-la e estar preparado para quando esse dia chegasse. Eis que um dia, ela, a tal oportunidade, bateu à minha porta. Eu estava disposto a renunciar a minha agenda cheia e, principalmente, estava pronto para aceitar o desafio.

Sou apenas mais um exemplo dessa realidade. Brasileiro se acostumou a viver assim. Ele não trabalha num emprego, ele se vira em um ou mais subempregos. Muita gente passou e ainda passa por isso. E se você, como eu, não for "competitivo" o bastante para as vagas mais cobiçadas ou um especialista em processos seletivos, também passará por isso. Cabe a você preencher a sua agenda com o melhor conteúdo possível e buscar a grande oportunidade. Ela pode chegar amanhã ou bem depois, mas um dia chegará. Esteja pronto.

Diogo Salles
São Paulo, 22/4/2008

 

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