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Quarta-feira, 7/5/2008
2007 e os meus CDs ― Versão Internacional 1
Rafael Fernandes

Já estão no ar a primeira e a segunda partes dos meus discos preferidos em 2007. Agora a terceira, com a parte 1 de lançamentos de artistas internacionais.

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Alicia Keys ― As i am


Ouça um trecho de "Wreckless Love"

Gostei do novo disco de Alicia Keys, As i am. Nele, ninguém vai encontrar inovação, nem genialidade. Apenas boas canções, daquelas de grudar na cabeça. O som, nem sisudo nem complexo, é mais adulto do que boa parte das cantoras pop atuais, que abusam da infantilidade musical. Aliás, elas estão cada vez mais parecidas, com músicas, sonoridades e "atitudes" semelhantes. Trabalham com os mesmos produtores, usam as mesmas batidas, os mesmos trejeitos. Alicia parece estar procurando seu próprio caminho, seu próprio som, sem se ater a modismo, apesar de também aderir às necessidades do mainstream: clipes bobos, caras e bocas, preocupação excessiva com roupas. No som, ela pega o essencial do hip-hop: grooves interessantes. E só. Acertou na mosca neste disco, bebendo do soul dos anos 60 e 70 ― Motown, principalmente ― e com pitadas do R&B atual, fazendo um delicioso disco pop ― grandes melodias, instrumental e arranjos caprichados, belas vocalizações, canções certeiras e suingadas. Aposta, com bom resultado, na mescla de instrumentos acústicos com inserções de programações. Para não variar o ponto fraco está nas letras, de temáticas amorosas surradas e versos pouco inspirados. E ainda que algumas músicas exagerem na dose de açúcar, é um belo disco pop. Quase todas as músicas têm cara de sucesso. Não apresenta grandes novidades, mas é um sopro de ar fresco num gênero cada vez mais banal e viciado em fórmulas de momento.

Minhas músicas preferidas: "No one", "Superwoman", "Like you'll never see me again" e "Wreckless Love".

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Björk ― Volta


Ouça um trecho de "Wanderlust"

Björk é uma artista de personalidade única. É sempre arrojada. Há os que gostam e os que odeiam, com conhecimento de causa. E há os que dizem gostar sem nunca terem escutado ― só para tentar ser cool ― e os que dizem que odeiam sem sequer terem ouvido um disco completo. Ela, como toda grande artista, tem várias facetas, muitos acertos e alguns erros, claro. Em Volta, é novamente inventiva. Em vez de formações de cordas, sutis, ela opta por uma parede de sopro, imponente, e batidas robustas. O resultado é um disco pesado sonoramente. Em termos de canções, embora haja muita qualidade, tenho dúvidas se está entre os melhores momentos da cantora. Mas é um dos melhores em termos de audácia sonora, de trabalho de arranjos. Foi um disco que no começo achei irregular, mas que foi se mostrando surpreendente ― desde o peso e volúpia de "Earth Intruders" à discrição de "Pneumonia", belíssima canção, aliás. É difícil passar imune ao que está sendo tocado. É daqueles discos de ficar ouvindo várias vezes tentando decifrar os sons, os arranjos, de onde saiu tudo aquilo. Em "Wanderlust", uma programação eletrônica dita o ritmo, e a harmonia é permeada apenas por instrumentos de sopro; vozes se encontram, quase cacofônicas. Uma canção comovente é "The dull flame of desire", feita a partir um poema de Fyodor Tyutchev, num duo com Antony Hegarty. Björk é, realmente, uma artista que leva a reações extremas. Mas, musicalmente, pensa à frente, quer romper barreiras, não se contenta com o pré-estabelecido, com o sucesso. Ainda bem.

Minhas músicas preferidas: "Earth Intruders", "Wanderlust", "Pneumonia", "The dull flame of desire" e "I see who you are".

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Dream Theater ― Systematic Chaos


Ouça um trecho de "In The Presece Of Enemies Pt. 1"

Dream Theater costuma ser associado a chatices. Música chata, fãs chatos. Muitos rotulam a banda sem ao menos procurar ouvir um disco inteiro ― o preconceito impõe ser impossível escutar 70 minutos de uma banda assim. Ou reclamam do tamanho das músicas, acostumados à duração e ao formato do pop ― mas, afinal, música não é um trabalho criativo? Não deveria ter limites, muito menos de tempo da música ― sejam 3, 30 ou 60 minutos. Apesar disso, não creio que deveria ser um grupo de grande público, muito menos que é "injustiçada" por "não tocar em rádio" ― acho que está muito bem em seu nicho. É um exemplo de como certos artistas e estilos devem e conseguem sobreviver à margem do mercado, apostando numa base fiel de fãs, que cresce aos poucos, durante um bom tempo, angariando diversas gerações: é a construção de uma carreira, algo que já foi regra na indústria musical, deixada de lado em prol do efêmero e de massa. Mas muitas gravadoras estão voltando atrás e procurando artistas que possam render por anos.

A abertura do disco, a primeira parte (as duas são boas) de "In the presence of enemies", ilustra bem a resistência que a banda enfrenta. Afinal, são poucos os que não se importam de esperar a voz aparecer só aos 5 minutos e poucos da música. Outra boa canção é "The dark eternal night", com riffs poderosos e bem trabalhados, e uma das melhores seções instrumentais que a banda já fez. Pena que a letra é horrível ― fala de um monstro do passado que assombra uma cidade. Outro bom momento é "Constant Motion", apesar de não trazer nada que Metallica, Megadeth e o próprio Dream Theater já não tenham feito. De resto, nada relevante ou que acrescente à banda, incluindo duas canções bobas e de refrão ruim ("Forsaken" e "Prophets of war") e uma que achei brega ("The ministry of lost souls"). Ironicamente, Systematic Chaos é uma boa mostra a não fãs de como é o estilo da banda, de músicas longas e de estilo do progressivo, canções pesadas e outras "pop". Apesar disso, é um disco menor em sua carreira.

Minhas músicas preferidas: "In the presence of enemies (1 e 2)", "The dark eternal night", "Constant Motion".

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Oceansize ― Frames


Ouça um trecho de "Unfamiliar"

Banda de Manchester, Inglaterra, iniciada em 2000, tem na formação nada menos que três guitarristas (um deles é também o vocalista). E são muito bem combinadas, com contrapontos bem sacados. O som é quase um paradoxo. Os arranjos são elaborados e se aproximam do progressivo: músicas longas, passagens instrumentais, alternâncias de ritmo, linhas melódicas que são trabalhadas de diferentes formas na mesma música etc. Mas a execução em si, a forma dos riffs, instrumental e melodias vocais remetem à música alternativa (Radiohead, Travis, The Verve). A união dessas duas vertentes torna o som do Oceansize muito interessante: melodias atraentes com capricho nos arranjos. Eles já haviam lançado dois ótimos discos, Effloresce e Everyone into position, e mantêm o nível em Frames, que começa quase num anti-clímax em "Commemorative T-Shirt", com uma introdução de 3 minutos e andamento lento. "Unfamiliar", grande música, chegou a ter versão editada e poderia ter cacife para o sucesso, mas completa é que vale à pena: melodias inspiradas, vários riffs ― que se alternam, trabalhados de forma diferente pelo trio de guitarras ― e uma estrutura "montanha-russa": variações entre instrumental vigoroso, momentos de desaceleração e calmaria, que são quebrados pela volta do peso."Trail of life" tem bonita introdução e seção instrumental muito boa. "Savant" é viajante; "Only Twin" tem clima épico; "Sleeping dogs and dead lions" tem um toque brutal, evidenciado pelo riff. Para quem gosta de músicas elaboradas, mas que não insistem em virtuosismo, Frames é uma boa pedida.

Minhas músicas preferidas: "Unfamiliar", "Trail of life", "Only Twin" e "Voorhees".

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Pain Of Salvation ― Scarsick


Ouça um trecho de "América"

O Pain of Salvation vem da Suécia e, apesar de ter formato de banda, praticamente todas as idéias musicais e decisões partem da mente criativa de Daniel Gildenlöw, guitarrista e (grande) vocalista. Simplificando, seu estilo é o metal progressivo, por ter uma pegada de heavy metal e composições longas e bem elaboradas. Como toda simplificação, tem falhas; as referências vão de Faith No More a Queen ― é ouvir para crer. E pode-se reclamar de tudo da banda, menos da falta de arrojo: seus discos têm conceitos (incluindo um sobre a existência de Deus e o surgimento da humanidade, Be, de 2004), diversas alternativas sonoras, belas composições e arranjos elaborados. Scarsick, grande disco, é o 7 da carreira da banda e é a continuação de The perfect element part I, de 2000. Alguns fãs o desprezaram, por ser mais direto e menos "progressivo" ― 10 entre 10 bandas do estilo já passaram por isso. Começa pesado e cru com a faixa-título, sem deixar de lado ritmos quebrados; "Spitfall" tem estrutura simples, repetida, com vocais falados e se destaca na bela parte melódica. "América" e "Disco Queen" trazem bom humor; a primeira, divertidíssima, tem ótimas linhas melódicas e arranjo intrincado; a segunda une elementos densos a ritmos de disco-music (!?). Nas letras, Scarsick traz ironias e críticas pesadas aos EUA. O disco se encerra de forma magnífica com "Enter Rain".

Minhas músicas preferidas: "Scarsick", "Spitfall", "América", "Disco Queen" e "Enter Rain".

Rafael Fernandes
São Paulo, 7/5/2008

 

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