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Terça-feira, 20/5/2008
A indigência do rock e a volta dos dinossauros
Diogo Salles

A princípio era só um flashback. Depois vieram os costumeiros ataques à onda saudosista e turnês caça-níqueis. Mas era algo maior do que uma simples celebração passageira de uma época remota. Sim, o rock de arena está de volta ― e com força. Ainda que algumas arenas sejam bem menores hoje, os últimos shows que recebemos aqui no Brasil corroboram a tese: Bob Dylan, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Rod Stewart e, mais recentemente, Whitesnake. Mesmo com preços obscenos, infra-estruturas lamentáveis e cambistas fazendo a festa, na maioria desses shows os ingressos se esgotaram rapidamente. Mas de onde vem essa sede saudosista? Por que o público venera tanto fórmulas que se esvaíram com o tempo? A resposta é uma somatória de dois fatores: por sua indiscutível qualidade e pela total ausência de herdeiros.

Assim como aconteceu na arte, a música também se dissolveu como forma de expressão artística. Impulsionados pelo hype, a "atitude" e o desejo de causar "impacto" tomou conta do cenário musical. Mesmo que esse fenômeno não seja totalmente novo, antes o talento nunca deixava de ser reconhecido. Em outras palavras, por mais que existisse a MTV, era evidente quais artistas construíam uma carreira sólida e quais eram meros subprodutos daquela geração. Após a diluição de seus atos a partir dos anos 1990, os velhos rockers entravam para a posteridade. Com a saída de cena do grunge e a decadência das majors, o mercado se tornou mais homogêneo. E, coincidentemente ou não, mediocrizou-se de maneira aterradora.

Todo o conceito do rock, desde os primórdios, foi moldado em torno da guitarra. Mais que do um mero instrumento, ela ajudou a conceber a linguagem do rock, assim como já havia feito com o pai do próprio rock, o blues. Não por acaso, a guitarra se tornou objeto de culto entre os roqueiros, impulsionando a figura do guitar hero aos holofotes. Os riffs e os solos duelavam com a voz, fazendo um mágico diálogo musical dentro da banda. Assim, ter um guitarrista com identidade própria era igualmente importante a ter um vocalista carismático. Existiam, claro, outras facetas, mas toda a chave de uma banda bem sucedida residia ali, naquela simbiose. Exemplos não faltam: Mick Jagger e Keith Richards; Robert Plant e Jimmy Page; Bono Vox e The Edge; Steven Tyler e Joe Perry; David Lee Roth e Eddie Van Halen.

Com a chegada dos anos 2000, a sensação é que todas as fórmulas já tinham sido esgotadas e iniciou-se um processo de desconstrução do rock. Mais especificamente, da guitarra. Todos os riffs antes festejados, todos os solos antes cultuados, foram jogados no museu do esquecimento. Em seu lugar, difundiu-se uma idéia de que a guitarra era apenas um acessório como qualquer outro e não haveria razão para se preocupar com melodias, harmonias e arranjos mais complexos. O resultado disso é que, hoje, agonizamos entre o indie e o emo.

O indie (corruptela de "independente") é o arquétipo do rock insípido e sem imaginação, que caberia mais adequadamente no rótulo de "indiegente". Seus adeptos gostam de cinema europeu e literatura "cult". Os cabelos são providencialmente ensebados e milimetricamente desarrumados. As roupas largadas, bem ao estilo punk de butique, completam o perfil pseudo-intelectual blasé. A música segue mesma toada e é puro recalque, com letras melancólicas e soturnas. As guitarras? Mal e porcamente tocadas. Timbres hediondos, riffs constrangedores, acordes ordinários e solos balbuciados evidenciam o completo estado de penúria do rock atual.

Não muito longe dali, encontramos aquela turminha que fracassou na tentativa de ser hardcore e foi chorar no colinho da mamãe. E não é que o queixume deu certo? Surgia o emocore. Com frases vagas, letras acéfalas, rimas vulgares e um amontoado de clichês dignos de livros de auto-ajuda, os "emos" derramam suas lágrimas e melindres em sua sarjeta existencial. Coitadinhos deles. Mas ao mesmo tempo em que choram, morrem de rir, engordando seu caixa e alimentando um mercado cada vez mais sôfrego e cada vez menos exigente.

O pior de tudo é ver que a fragilidade dos "neoroqueiros" virou objeto de veneração. Ser ruim hoje é considerado "cool". É "hype". Imagine o punk do Sex Pistols sendo reverenciado em pleno 1977 como um símbolo iconográfico de qualidade musical. Pois isto está acontecendo hoje com bandas muito piores que o Sex Pistols. Eu achava que esta seria apenas mais uma onda neopunk, fugaz como todas as outras, mas parece que vieram para ficar. Tudo é muito lamuriento, auto-indulgente e chato, mas reconheço que isso é uma opinião. Porém, uma opinião que não se opõe ao fato: o rock de hoje é apenas medíocre. Sua "qualidade" é sofrível. Sua "mensagem" é débil. O rock conseguiu, enfim, atingir seu anticlímax.

Em meio a esse vazio musical que observamos hoje, os dinossauros despertaram de suas aposentadorias e voltaram à cena, lançando discos e lotando shows pelo mundo. Tomemos de volta o exemplo do Whitesnake. Um dos ícones da cultura kitsch e do "metal farofa" dos anos 1980, o Whitesnake obrigou até mesmo seus críticos mais ferozes a reconhecê-lo como uma das grandes bandas da época. E sua volta prova que a assinatura deixada por David Coverdale nunca foi esquecida. Quem esteve no Credicard Hall (SP) no último dia 9 percebeu este sinal dos novos tempos. E se engana quem acha que o público era composto exclusivamente por roqueiros quarentões. Dividiam o espaço, junto a eles, adolescentes que preferiram não aderir ao asfixiante vácuo musical de indiegentes e emorróidas.

A formação atual da banda é a usual do rock genuíno. Baixo, bateria e teclados fazendo um pano de fundo para duas guitarras e os vocais rasgados de Coverdale, formando uma trepidante parede sonora que reverberava dentro da concha acústica. Todos os elementos do velho rock de arena estavam lá: o duelo de guitarras, o solo de bateria, o público cantando a sucessão de hits em uníssono, o momento acústico com "The deeper the love" e o massacre sonoro de "Still of the night".

Mesmo que o veterano vocalista já não atinja todas as notas desejáveis, era revigorante vê-lo comandar o show. Mais do que isso, era uma espécie de antídoto contra toda a presunção, a preguiça e a insignificância dessa nova geração de pseudoroqueiros de hoje. O set foi fechado de forma brilhante com o medley "Burn"/"Stormbringer", dois dos mais celebrados clássicos que Coverdale cantava em seus tempos de Deep Purple. E para quem ainda não entendeu o que é um riff de verdade, sugiro começar pela audição de "Burn".

Muitos dirão que isso tudo é uma mera questão de gosto musical. Outros objetarão dizendo que ninguém é obrigado a reconhecer o Whitesnake ou qualquer banda classic rock como música de qualidade. Não, não se trata de gosto. Trata-se apenas de distinguir um vocal bem postado de um berro desafinado. Trata-se de separar um riff inventivo do barulho cheio de "atitude". Trata-se de separar um arranjo bem trabalhado de um garrancho porco disfarçado de "música". A volta do classic rock foi importante não apenas para lavar a alma de roqueiros incautos, mas também para tentar corrigir essas anomalias.

O disco que remonta uma história
Onze anos após David Coverdale ter anunciado que Restless Heart seria o último disco do Whitesnake, a banda está de volta com um novo álbum de estúdio, intitulado Good to be bad. O novo disco traz a banda em todas as suas facetas, desde o estilo bluesy que seguia o rastro deixado pelo Deep Purple no fim dos anos 1970 ao glam rock vigoroso dos anos 80. A explicação para a bem-sucedida volta está no novo guitarrista. Coverdale parece ter finalmente encontrado em Doug Aldrich o parceiro ideal para compor. Com seu estilo guitar hero, ele preenche, com êxito, o vácuo deixado por John Sykes e Steve Vai e reconduz a banda à velha sonoridade de seus dias mais felizes, dos discos Whitesnake (1987) e Slip of the tongue (1989).

Se Restless Heart soava mais como um disco solo de David Coverdale (opinião do próprio), o novo disco repete a fórmula vencedora de vinte anos atrás, que combinava rocks poderosos com baladas melódicas e melosas. "Best Years" abre o disco em ritmo acelerado, seguido da metálica "Can you hear the wind blow". Em "Call on me", o destaque é o ruidoso riff de guitarra e os vocais de Coverdale, em grande forma. Em "All i want all i need", ele abusa da rouquidão e faz juras de amor eterno (qualquer comparação com "Is this love" não será mera coincidência). Alguns clichês continuam intactos e "Got what you need" mostra que os anos 80 ainda não foram completamente superados e a clássica "Still of the night" é destrinchada em "Lay down your love". A faceta bluesy dos primórdios da banda dá as caras em "A fool in love" (com verniz heavy metal) e na acústica "Till the end of time", com um flerte de slide-guitar.

Onde está a novidade, então? Não há. E parece ser esta a intenção. Por mais que as músicas, invariavelmente, continuem trazendo a palavra "love" no título e a banda continue presa a seus vícios, Good to be bad é audição obrigatória para quem sentia saudades de levantar isqueiros em estádios. E quem lamentava não ter estado lá, pôde, enfim, ser devidamente indenizado.

Nota do Editor
Leia também "Necrófilos da vanguarda roqueira".

Diogo Salles
São Paulo, 20/5/2008

 

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