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Quarta-feira, 18/6/2008
Entrando pelo cânone
Guga Schultze

Harold Bloom, aparentemente, leu tudo o que há para ler. Durante mais de meio século Bloom leu sem descanso. Seus autores favoritos são também, em grande parte, os nomes mais conhecidos. Bloom os resenha para nós, no seu incansável ofício de leitor e, com uma dedicação admirável, inclui aqueles cuja maior característica é serem cansativos. Como diz a Bíblia, seu nome é legião, porque são muitos.

A maldição do crítico literário é que ele, mais do que qualquer homem de letras, tem que estar vivo, mesmo que de forma figurada. O bom crítico literário tenta lançar seus limites para o futuro e consegue, às vezes, abranger uma era ou predizer uma nova. Mas não pode, ao contrário do escritor, sobreviver ao tempo.

Obviamente ele não poderá, depois de morto, fazer a crítica dos novos escritores que surgirão e das estranhas modalidades que a sensibilidade literária trará à tona. Com o tempo, forçosamente, toda crítica literária tende ao obscurantismo. O tempo é como um prisma, que gira lentamente e filtra outro espectro de luzes, o que vale dizer que a percepção literária pode mudar com a passagem dos anos.

Bloom escreve sobre o Dr. Johnson e pula por cima de outras críticas, contemporâneas. Eleger Samuel Johnson como crítico preferido implica em compartilhar o mesmo prisma aguçado do grande crítico mas, para nossa tristeza, há uma tristeza latente no que Bloom escreve. Talvez esse prisma tenha sido quebrado, sem meio termo, pela passagem do tempo, que produziu, por exemplo, duas grandes guerras e moldou, à força, uma nova e não necessariamente melhor sensibilidade.

Bloom procura criaturas e valoriza, justamente, as criaturas mais perfeitas, ou as mais consistentes. Ou seja, Bloom ama o teatro e, além do fato de misturar, sem aviso prévio, teatro com literatura, não se dá conta das limitações do primeiro ou não se dá ao trabalho de analisar isso.

Teatro é obra literária, sem dúvida, mas é, no máximo, gênero literário. Exige-se alguma explicação para colocar um autor teatral ao lado de um romancista. Bloom faz o mesmo que Manuel Puig, escritor menor, argentino, que apenas troca a ordem das coisas e confunde literatura com teatro. Por falar em Argentina, Bloom tem dificuldades em assimilar Borges, talvez por que Borges seja o antiteatro, entre outras coisas.

Bloom procura, quase religiosamente, os escritores através de suas criaturas. Shakespeare, sob esse aspecto, é merecidamente o criador supremo. Nada, diz Bloom, se compara à extensa, variada e viva galeria de personagens criada pelo bardo. Quanto mais poderoso é o criador, mais vida empresta a seus personagens de forma que estes já não são seus arautos. O criador não fala através deles porque eles têm vida própria e são porta-vozes de si mesmos.

Isto é, sem dúvida, um feito notável em literatura e Shakespeare, segundo Bloom, é o mestre absoluto. Temos que concordar. Sob esse prisma, Shakespeare é incomparável. Mas existem outros fatores problemáticos nessa história e, alguns, alheios à capacidade individual de qualquer escritor. O problema da transposição entre idiomas é assunto longe de ser resolvido.

Shakespeare não resiste bem ao português, principalmente no Brasil. O discurso às vezes hermético, às vezes parabólico de Shakespeare não encontra apoio no sub-português falado neste país, obrigando os tradutores a um exercício de retórica quase incompreensível. A culpa, evidentemente, não é de Shakespeare. A distância de sua alta retórica para a nossa simplificada fala é que é um abismo difícil de ser transposto.

Bloom se engana ao afirmar que Shakespeare é absolutamente universal, no sentido de ser apreciado e igualmente compreendido no mundo inteiro. Não é, não. O povão mundial talvez aprecie apenas o fato de que suas peças são, em grande parte, rádio novelas baratas. Mas a outra dimensão, a dimensão verbal de seus personagens, que está acima do enredo dessas peças e que constitui a arte quase insuperável de Shakespeare, nos escapa. Não temos, pelo menos hoje, no Brasil, um idioma capaz de refletir o brilho verbal de Shakespeare.

Grande parte da literatura dos séculos precedentes ao século XX é composta de solilóquios, circunlóquios, hipérboles, palavras rebuscadas e excessivas, volteios e imprecisões. "A insustentável lerdeza do ler e do escrever" é o título do ensaio, que Milan Kundera não poderia produzir, sobre a chatice sem par da literatura européia até o século XX. Há exceções, claro. Contam-se nos dedos. Mas a grande maioria dos autores assombra, como o fantasma de Hamlet, aquela outra e verdadeira minoria silenciosa: nós, os seus leitores.

Quem já leu, ou pretende ler Em busca do tempo perdido? A piada é cruel e de mau gosto, mas necessária: ao final das milhares de páginas constata-se o tempo perdido. Há pouca coisa que Proust possa nos oferecer, hoje, e a inegável maestria da escrita, mesmo em traduções ruins, não é suficiente para justificar o volume excessivo da deformidade sentimental da obra. Proust e seus personagens são de um outro mundo, distante, doentio e excessivamente melancólico. Um mundo enfermo. Não que o mundo, depois de Proust, seja mais saudável. Mas é mais dinâmico e não comporta mais as prostrações de Proust (o trocadilho é inevitável: proustrações).

Kafka ainda nos surpreende com a grande barata. Mas o que se inicia como um choque, a transformação de Gregor Samsa, se revela apenas um artifício para outra litania desesperadora sobre o pobre coitado, o único personagem kafkaniano. Kafka escreveu páginas e páginas sobre seu tema predileto, o pobre coitado. No modo como ele escreve está sua força costumeira, mas não no pobre coitado em si, que é uma das pragas mais insidiosas da literatura européia, ou ocidental, se quiserem. Há quem aprecie ― e isso sempre me pareceu meio mórbido ― o calvário extenuante de personagens que são losers radicais. A literatura ocidental está cheia deles e uma parte muito grande dos leitores parece se deliciar com esses pobres diabos e com suas pobres desventuras no inferno.

Werther, o jovem de Goethe, raia o retardamento mental. É difícil entender Werther, não a especulativa ingenuidade ou os previsíveis estados emocionais do personagem, já que entendemos imediatamente o que ele demora a se dar conta, mas o sentimentalismo, entender a pieguice inerente como pilar central da obra. Sem aquela pieguice não há Werther e é difícil acreditar nisso.

Bloom é um tipo de leitor entre vários outros tipos. Quantos tipos existem? Não sei responder a essa pergunta, mas percebo que Bloom procura quase exclusivamente o conteúdo das obras que resenha. Na verdade, essa é a forma mais comum de leitura. Procura-se o que o autor está dizendo, o que ele tem a dizer, digamos, sua filosofia. Mas existe aí um problema, não solucionado. Existe outra coisa fundamental, na escrita, pela qual Bloom passa batido. Essa coisa define cada autor, cada livro, de forma que dois autores, usando o mesmo idioma, escrevendo a mesmíssima história, produzirão obras tão diferentes entre si quanto dois flocos de neve da mesma nevada, se vistos ao microscópio.

Cada autor (os bons) tem seu estilo, e estilo é praticamente tudo em literatura (Paulo Coelho, por exemplo, não tem estilo). Implica escolha das palavras, construção das frases, encadeamento das frases, encadeamento de idéias, ritmo, cadência, dosagem de ironia, humor, mau-humor, ou o que mais exista num texto. É necessário não confundir a eminência literária de um autor, isto é, seu estilo ― ou a forma com que ele escreve ― com o que ele está dizendo. Bloom, humanista, foca sua atenção no que o autor está dizendo. E, afinal, o que os autores estão dizendo, mesmo os bons autores? Nada de mais, na maior parte das vezes.

Ulisses, de James Joyce, que deixou os críticos de língua inglesa embasbacados, é exercício de estilo. Traduzido para o português (conheço apenas a versão de Antonio Houaiss) vira prosa de adolescente. Claro, um adolescente mais que talentoso, ou mesmo genial, como queiram, mas ainda assim, adolescente. Ou isso ou Joyce também não sobrevive ao português.

Li mais sobre Ulisses do que me lembro do livro em si. Li sobre a estrutura rigorosa, ou o rigor estrutural (sic) da obra, li sobre a recriação da Odisséia, sobre complexidades e/ou profundezas psicológicas, fluxo dissertativo do inconsciente etc. Me parece bobagem esse enfoque no conteúdo estrutural e filosófico da obra. Ulisses me parece um exercício de estilo ― o que já é o suficiente para a relevância de um texto ― mas Joyce, com o perdão da palavra, era jovem demais, a despeito da idade cronológica. Há uma certa ingenuidade, comovente, em Joyce. Assim como em Charles Dickens, que a crítica de língua inglesa insiste que seja ouvido (lido). Mas quem pode levar a sério uma novela mexicana?

Bloom trata, por exemplo, Faulkner, García Márquez e mesmo Borges com reservas. Principalmente esses dois últimos. Os três têm em comum o fato de que não são grandes criadores de personagens. Na verdade eles não se importam muito com isso. O personagem principal de Faulkner é uma espécie de divindade, talvez uma divindade do tempo, um anjo do destino ou coisa parecida que, evidentemente, não está na história, mas paira sobre cada linha escrita e força o leitor a enxergar sob seu prisma. Os personagens de García Márquez são, praticamente, uma só pessoa. Falam da mesma maneira axiomática, o que reforça o lirismo rude das situações, e agem com a mesma intensidade dramática em todas elas. Homens e mulheres, somos todos iguais e, de certa forma, isso ajuda no contraste com a realidade fabulosa em que vivem, essa sim sua grande e imprevisível personagem. O personagem de Borges é a própria idéia central do conto, quase sempre surpreendente e complexa. Bloom, admirador radical de Shakespeare, espera sempre encontrar algum Hamlet perdido por aí. Dá a impressão de que não vai desistir dessa busca, ainda que a literatura, como no caso, possa apresentar novos parâmetros.

Hoje a internet mudou ou está mudando o mapa da literatura, de uma forma talvez irreversível. É um processo acelerado e existem agora novas latitudes nesse mapa, antes inexistentes. Mais do que o problema do veículo, o problema do livro de papel, existe a questão emergente de uma outra sensibilidade ― provavelmente mais crua e direta ― onde o tempo pessoal de cada leitor é uma variável nova na equação literatura = escritor + leitor. Tudo muda em literatura quando os leitores mudam. Principalmente quando os leitores mudam mais rapidamente do que o escritor que está no processo de amadurecer seu trabalho.

É um fenômeno inédito: se antes o escritor podia ser um arauto de novas tendências e visões, se ele tinha até mesmo um poder de redefinir os rumos de uma outra sensibilidade literária, mesmo que a longo prazo, hoje, o público leitor está em transformação antes mesmo que o escritor termine de colocar a sua obra nas estantes. E o candidato a escritor ainda corre o risco de não achar mais as estantes. Elas podem, a partir de certo ponto, não existir mais.

Para ir além
Samuel Johnson ("Ninguém, a não ser um idiota, escreve a não ser por dinheiro." / "Um homem deve ler segundo o que as suas inclinações o conduzem; porque o que ler como tarefa pouco bem lhe fará.")

Entrevista com Bloom na Folha Ilustrada.

Outra entrevista com Bloom.

Ulisses, na Veja.

Ulisses, no blog do Giron.

Ulisses, no blog da Noga Sklar.

Guga Schultze
Belo Horizonte, 18/6/2008

 

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