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Quarta-feira, 10/9/2008
Contra reforma ortográfica
Guga Schultze

Proponho uma nova reforma ortográfica. Não essa nova, mas uma mais nova ainda. É uma coisa sobre a qual tenho pensado desde sempre, através do meu longo processo de alfabetização; desde quando fui repreendido por um trema ausente, numa palavra cheia de ubiqüidade, numa redação que fiz na escola fundamental.

O fato da redação ter sido legal, com um bom texto e idéias bem desenvolvidas, além de ser um texto muito poético, passou despercebido. A ausência do trema, essa, não passou.

Pressenti ali mesmo que teria que lidar, para sempre, com essa gente que lê um texto procurando tremas ausentes e crases indevidas. Sujeitos sistemáticos, de óculos, muito limpinhos e organizados. Mulheres, idem, as sombrancelhas arqueadas e uma insatisfação vital que se exprime no controle compulsivo das minúcias.

Essa gente, corroborando minha profecia infantil, existe em toda parte e é a pedra no caminho de todo escritor relaxado, que acredita ainda que o sabor de um texto não passa pelo crivo burocrático dessas pobres almas insones.

Citei meu processo de alfabetização como sendo longo porque ainda não terminei esse processo, é bom que se diga. Não domino minha língua e, pior, não acredito que alguém tenha o domínio perfeito da língua portuguesa. Nem os que escrevem essas Introduções à Gramática da Língua Portuguesa. São livros que pesam um quilo ou mais cada um e que servem apenas para corroborar minhas suspeitas. Uma gramática não devia pesar tanto.

Tenho alguns trunfos, é verdade. Possuo, por exemplo, a intuição da crase. Posso me gabar disso. É algo que você tem que nascer já possuindo, ou então vai demorar alguns meros quarenta anos para dominar esse assunto razoavelmente. Se você estuda francês, então, meu amigo, ande com um manual debaixo do braço. Porque o francês adora crases e tenho minhas dúvidas se não foi por pura inveja, por pura tentativa de emular uma pretensa sofisticação da língua francesa que a crase se estabeleceu por aqui.

A crase, aquele sinalzinho do contra, que se coloca acima de uma vogal inocente, indicando algo acima e à esquerda, algo que na verdade não existe no ato de falar, aponta sempre, infalivelmente, para nossa incapacidade pessoal de decorar aquelas regras arbitrárias que seu uso exige e provoca, a contragosto, uma exasperação íntima. (Notaram o domínio da crase? Hein?)

Existem centenas de exemplos de mau funcionamento da língua, de coisas que não podem ser ditas, ainda que você queira muito dizê-las, em português. Flexões do verbo haver, aliterações que se tornam indesejáveis, cacofonias que precisam ser evitadas. Não tenho mesmo uma alma burocrática e não vou fazer a lista aqui. Mas penso em contribuir para as futuras gerações de brasileiros e brasileiras, cujo destino parece que vai ser, como tem acontecido, o de lutar surdamente com sua própria língua, sob os olhos severos dos burocratas guardiões, caso ninguém tome alguma providência.

Apresento aqui uma reforma ortográfica. Simples, sucinta e que qualquer um pode entender. Crases: crau nocês; tremas: tremei; acentos: levantai-vos e sumi; aurélios: tomai na orelha; Houaiss, nada mais simples, uai. Vamos lá:

1. Das vogais
De agora em diante serão oito (8) vogais, a saber:

A ― Â ― E ― Ê ― I ― O ― Ô ― U.

Fim de papo. Essas vogais são auto-explicativas. Seria bom criar um símbolo para as vogais A, E e O, quando fechadas. Mas fica pra mais tarde. Deve ser algo simples de fazer. Se não passar pelos grupos normativos de gramáticos e lingüistas, será uma coisa simples. Caso contrário, só deus sabe o que vai sair.

Estou colocando provisoriamente o acento circunflexo sobre as vogais com o som fechado para diferenciá-las das que tem o som aberto. Mas nem me passa pela cabeça instituir o acento diferencial. Estou propondo uma nova vogal para o Ã, por exemplo. Simplesmente porque o Á é uma coisa e o à é outra, o Ó é uma coisa e o Ô é outra.

Só porque os baianos falam "bãnãna" e "córação" não quer dizer que essas sejam as mesmas vogais que as outras civilizações brasileiras utilizam. Fala-se "mámão" e "mãmão" por aí. Mas nem mesmo um baiano fala "mámãe". Então são duas vogais para a letra A, duas para a letra E, duas para a letra O. É melhor deslindar esse negócio, meu rei.

2. Das consoantes
Vão ser as mesmas, só o Q vai embora. Pqp, que quiprocó! Mas ele se torna desnecessário e todas as consoantes terão funções restritas, bem definidas, a saber:

Todos os sons sibilantes terão, como seu representante, a letra S. Adeus ao Ç, SS, SC. E ao C e X, quando for o caso. Exemplos:

Deso as escadas (e não desço as escadas).

Nesesidade (e não necessidade).

Acresentar (e não acrescentar).

Eselente (e não excelente).

Livre como um tacsi (e não livre como um táxi. A frase é do Millôr).

Quando a pronúncia for Z, usar o Z, é claro. Exemplos:

Por ezemplo, uze o Z aci. Ezatamente nesa poZisao.

No exemplo acima, demonstra-se também o uso do C. Em tudo que tem som de K, o C será usado. Adeus ao Q e ao QU. Exemplo:

Acilo (e não aquilo).

Cuando (e não quando).

Fi-lo porce ci-lo, dise uma ves o prezidente Janio Cuadros.

X substitui CH, sempre. Exemplos:

Xuva (e não chuva).

Ese testo e muito xato (e não chato).

A Xuxa já está certinha! E os cariocas poderão grafar: Doix maix doix é iguau a sinco. Maix ce legau. Taí, goxtei.

L no final das palavras, vira U. Lógico:

Legau. Animau. Transendentau.

G apenas para o som gutural: gago, gato, gordo e Guga. Não será necessário essa bobagem de G e U juntos: Algem dise ce ningem e santo.

O resto é J:

Ajir (e não agir), jema (e não gema), jerensia (e não gerência).

Pensei em substituir os R guturais (quando iguais a "rr") e os próprios RR por H. Só porque gosto dessa letra e não queria ver o H de fora, na hora h. Assim:

Ahastah (e não arrastar). Ahumadeira (e não arrumadeira). Ahsebispo (e não arcebispo).

A geha do Irace foi uma geha de arace.

O R fica só pro som rápido de ponta de língua:

O Pereira sofre de piriri cronico cuando pensa em perereca.

Ok? O H é um problema, só por causa do presente do indicativo do verbo HAVER: há. Eu proponho, nesse caso, dobrar o a:

Aa mais coizas sobre o vehbo aveh do ce supoe a nosa va filozofia.

Mas o H está banido do começo de palavras como hoje, homem etc. Assim: Ja fui um politico, oje sou um omem onesto.

A letra H é meio arbitrária demais, apesar de ser uma letra bonita. Enfeita as palavras, mas entra muda e sai calada. Os homossexuais virarão omosecsuais e perderão a impressão de serem cientificamente aceitos pelos eterosecsuais. Que pensarão duas vezes na hora H (que passa a ser a ora O), antes de abrir os precedentes e aderir a um nome tão feioso.

LH e NH viram LL e NN, respectivamente. Exemplos:

Vella (e não velha), amanna (e não amanhã).

Porque quando se pronuncia LH ou NH, você simplesmente dobra os "Ls" e "Ns". O H não tem nada a ver com isso. Entrou inexplicavelmente nessa história. Qualquer criança irá perceber que um L dobrado é mais verdadeiro que o LH. E, como o Kiko do Chaves, dirão para os seus Madrugas da gramática: Jentalla, Jentalla!

Todos os acentos serão enxotados como pássaros e voarão para Portugal e outras latitudes portuguesas, pousando nas velhas palavras, se ainda forem necessários por lá. Gramáticos e lingüistas em pânico protestarão nas ruas contra a perda das raízes e dos radicais. Mas eles próprios são muito radicais nessa busca insana das raízes ocultas das palavras. Cultivem mandiocas e serão mais felizes. Minha sugestão é que formem uma sociedade secreta cujo objetivo é perpetuar os segredos da morfologia, de forma que quando for pronunciada a palavra "Ibirapuera", por exemplo, os iniciados, e apenas eles, saberão que trata-se de uma palavra indígena ou paulista, e não latina ou árabe. Isso dará a eles um sentimento de superioridade que compensará, acredito, o fato incômodo de que ninguém dá a mínima pra origem das palavras. Pelo menos numa conversa sobre assuntos muito mais interessantes.

É evidente que minha reforma ortográfica está apenas sendo esboçada aqui. Mas eu posso garantir que o livro oficial dessa reforma não terá mais que quarenta páginas. Posso garantir que a alfabetização será mais rápida e que os alunos do ensino fundamental terão muito mais segurança no uso de sua língua pátria. Essa reforma ortográfica é fácil, muito mais lógica e, uma vez compreendida, é algo inescesiveu.

Só de ser possível escrever como se fala, já ajuda bastante. Ou não? Também é legal para evitar excessos de xenofobia e fica simples absorver algumas palavras urgentes de outros idiomas, para incorporá-las (por quê não?) ao nosso. Olha só: Heclamasoes: cahtas para a hedasao, pliz.

Guga Schultze
Belo Horizonte, 10/9/2008

 

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