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Quinta-feira, 25/9/2008
20 anos de Trapo
Daniel Lopes


Tezza com a primeira edição de seu Trapo

Aparecido em 1988, Trapo (Record, 2007, 256 págs.) é o quinto romance na bibliografia de Cristovão Tezza, catarinense radicado em Curitiba, e ganhou ano passado uma nova edição pela Record. É a história do jovem poeta e suicida Trapo e do professor aposentado Manuel. A rotina deste é literalmente invadida por Izolda, uma dona de pensão que irrompe em sua casa certa noite, saída do nada, com um calhamaço dos escritos do suicida, que nos últimos tempos saíra da casa dos pais e morava em um quarto de seu estabelecimento, onde pôs fim à vida. A coisa toda se passa no final dos anos 70.

Atentemos para Manuel. Viúvo, mora sozinho nos arredores do centro curitibano. Não é tão velho assim ― tem "cinqüenta e tantos anos" ―, e sua mãe ainda vive, no interior. Já não tem nenhum cabelo, e a careca fica vermelha sob o menor constrangimento. É um homem muito tímido. Recatado, é o retrato do intelectual conformista de classe média. Logo na primeira página do romance, quando sua vida sairá da órbita ― para, ao final, entrar em uma outra ― com a aparição de Izolda (e a palavra aparição cai muito bem aqui, porque, de início, Izolda realmente lembra um fantasma), lemos: "Não é comum que batam à porta depois do Jornal Nacional, quando desligo a televisão e volto para meus livros, para as sutilezas da literatura e da lingüística, com um prazer que nunca tive nos meus trinta anos de magistério."

Mais adiante, quando já está mergulhado nas investigações sobre a vida e a obra de Trapo, deslocado em uma casa noturna repleta de adolescentes: "Estou no lugar errado, esbarrando minha velhice ― e minha Folha de S. Paulo, adrede comprada para enfrentar a solidão desta pesquisa idiota."

À noite, o Jornal Nacional. Sob os braços, a Folha. Nenhuma menção sequer à ditadura militar, que não tem a mínima chance de disputar sua atenção com os prazeres da literatura e da lingüística. Manuel.

Começa sua "pesquisa" sobre Trapo de muita má vontade, tendo que pôr os pés para fora da casa-refúgio, e revoltado com a postura que o jovem arrota em suas páginas:

"É espantosa a arrogância do garoto, de se meter a revolucionar a poesia com tanto mau gosto, métrica coxa, vocabulário limitado e humor escatológico. (...) Esses estúpidos poetas modernosos de quinze anos de idade, sujos, cabeludos, pensam que com uma régua quebrada, raiva de adolescente, meia dúzia de metáforas, erros de ortografia, regência verbal e concordância de feira são capazes de voar aos píncaros da glória."

Mas vai-se deixando levar pela insistência de Izolda, que se relacionava com Trapo como uma mãe com um filho, e pelo seu próprio e inato apego à inércia, à falta de resistência, de escolha própria. Mas não só. Também atraem o nosso professor a forte personalidade do garoto suicida e, não menos decisivo, a oportunidade de escrever um livro, um romance, sobre a sua (Trapo) vida, ou pelo menos sobre a sua (Manuel) investigação:

"Não tive filhos, não plantei árvores, não escrevi um livro, como exige o ditado. Agora tinha a chance de eliminar dois itens: o filho ― Trapo ― e o livro. (...) Trapo exige um mergulho que é também um mergulho na minha própria realidade, à tristeza bem comportada da minha própria solidão."

E Trapo, qual era a dele? Filho arredio de família privilegiada. O pai foi pedreiro e coisas do tipo, até subir na vida e se transformar num empresário de sucesso; seu outro filho, irmão e contrário de Trapo, se engaja nos negócios da família. A mãe é uma mulher lida, culta, mas dócil, e sempre fez a vontade do marido, inclusive conformando-se com uma educação menos "afrescalhada" e mais prática para os filhos.

O livro de Cristovão Tezza é formado pelos movimentos físicos e mentais de Manuel e por cartas e poesias de Trapo, principalmente cartas para sua amada Rosana, menina de dezesseis anos, filha de pais conservadores e ricos, que não aceitam de jeito nenhum ter o jovem poeta por perto. O menino era heterogêneo e prolífico ("Cinco ou seis Trapos se misturam, sem cronologia", conclui Manuel à medida que vasculha o entulho de escritos. "Não será fácil classificá-los. Talvez por assunto ― o poeta, o metido a filósofo, o memorialista ― mas todos se somam."), mas as missivas endereçadas a Rosana, segundo Manuel, são a única parte aproveitável.

Ironia: Trapo, o poeta revolucionário que prega o assassínio da poesia (!), a derrubada da instituição Família, o pensador destemido em sua análise do e luta contra o Sistema (que se confunde com Deus), esse projeto de Maiakóvski não passa de um incorrigível romântico em suas mensagens à menina Rosana. Nas correspondências, planejam casamento e fuga. Mas, como concluímos junto com Manuel, a investigação (e a leitura) vale a pena prosseguir por conta do suicídio aparentemente inexplicável. Como um menino tão cheio de energia, apesar de tão magrinho, repleto de amor e projetos para o futuro de repente resolve meter um tiro na cabeça? Apenas sua revolta contra o pai não explica tudo.

Para reviver Trapo, o professor Manuel freqüenta alguns poucos lugares da fria noite curitibana. É quando se depara com a juventude e, por conseqüência, com sua velhice, com o fosso que separa as duas gerações, em todos os campos, inclusive no lingüístico ― "A profusão de porras e caralhos começou a me dar náusea. Que geração infernal é essa que não sabe falar? Regredimos, estamos no limbo de Lúcifer, no paraíso da escatologia. Um palavrão resume e sustenta o mundo." Apesar disso, ele consegue manter contato e arrancar algumas informações de Hélio, um feio e jovem aspirante a desenhista que foi o maior amigo do suicida.

As cartas de Trapo vão progressivamente revelando as dificuldades e uma tragédia decorrentes de seu amor proibido. Quer dizer, a "tragédia" é informada por Manuel, que, no final do romance, a comunica para Izolda, após alegar ter recebido a visita da Isaura, mãe de Rosana, que teria lhe revelado tudo. O que Izolda acha muito improvável. Questiona ela:

"Só tem uma coisa que não me entra na cabeça, Manuel. Você quer mesmo que eu acredite que aquela bruxa da Isaura, que mal e mal atendeu o interfone para você, que eu acredite que ela pessoalmente bateu naquela porta ali, entrou nessa sala, sentou aqui onde estou sentada, e contou pra você toda essa história maluca?"

"E por que não?", quer saber o professor. "Mas é absurdo!", diz Izolda. "Pode ser absurdo. Mas faz sentido. É o que me basta". Com base ou não no real, Manuel já tinha um final para sua ficção.

Para ir além





Daniel Lopes
Teresina, 25/9/2008

 

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