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Terça-feira, 3/2/2009
Gênio: apontamentos ensaísticos
Jardel Dias Cavalcanti

"O gênio é uma mensagem enviada a outro gênio." (Kant)

Antes de tudo gostaria de dizer que este texto é escrito por alguém que acredita na existência de gênios. Em segundo lugar, que aqui se pretende pensar a ideia de gênio a partir de reflexões ligadas ao universo da arte. Finalmente, creio que não se pode pensar o conceito de gênio sem antes se ater à ideia de imaginação e sua trajetória no contexto da cultura ocidental. O que farei logo abaixo, e, em seguida, aprofundarei a ideia de gênio como a conclusão dessas reflexões anteriores e ligando a teoria a um fato concreto: o caso Mozart.

Platão classificava a imaginação como a mais baixa das faculdades humanas. Para ele, a mais alta forma de cognição era a razão. Platão, portanto, inaugurou uma longa tradição de desconfiança contra a imaginação.

Aristóteles, por sua vez, definia a imaginação como "a faculdade criadora de imagens" e situou-a entre a percepção e o pensamento. No entanto, Aristóteles afirmava que todas as coisas imaginadas são falsas e não associou a imaginação especificamente à criação artística e não lhe reconhecia o poder sintético para combinar as imagens em novas formações. Isso, ele devia acreditar, era trabalho para a razão.

Cícero, mais ousado que os filósofos anteriores, via na imaginação um poder de visualização por meio do qual o poeta era capaz de pintar vigorosamente uma cena e fazer com que o leitor, de maneira semelhante, a visse com o mesmo vigor com os olhos da mente. O objetivo do grande artista seria, então, "tornar manifesta" uma realidade ausente, colocando-a diante dos olhos pelo poder das imagens mentais.

A Idade Média e o Renascimento persistiram com o preconceito platônico contra o poder da imaginação. A imaginação só ganha da razão durante os sonhos, nos acessos de loucura, quando uma pessoa padece de alucinações ou sob influência de paixões excessivas, mas o seu verdadeiro lugar na hierarquia dos sentidos é estar sujeita à sabedoria e vigilância da razão. Segundo Burton, no seu livro Anatomia da melancolia, a fantasia, ou imaginação, torna-se livre apenas nos poetas e pintores e durante o sono, quando concebe formas estranhas, estupendas, absurdas, como se observa em homens doentes. No homem comum, a imaginação deve ser governada e dominada pela razão, ou, pelo menos, deveria ser.

Shakespeare, que fala muito sobre a imaginação e fantasia, aceita a psicologia ortodoxa da renascença: sob o império de uma paixão dominante, a imaginação conduz a uma espécie de loucura, uma desorientação ou alienação da realidade lógica. Otelo é induzido por suas falsas fantasias e imaginações a acreditar que a esposa o traiu. Em seus acessos de loucura Lear frequenta um mundo diferente do mundo real.

Entretanto, embora aceitasse a psicologia corrente, Shakespeare confere um valor diverso à imaginação. É precisamente em seus acessos de alienação que a imaginação de Lear transmite as mais tremendas visões da condição humana. Onde desfalece a razão, a imaginação e a poesia, filha da imaginação, proporcionam uma apreensão ou notícia das verdades "maior do que a fria razão jamais compreende". Agora era um artista falando, e não um filósofo, anunciando Baudelaire que, ao contrário dessa tradição, dizia que a imaginação era a rainha das faculdades humanas.

Francis Bacon (o filósofo renascentista, não o artista) sabia que a imaginação era uma faculdade especial que sustentava a poesia e as artes, mas não lhe atribuía a verdade que transcende a compreensão da razão. Algo próximo da concepção que Hobbes tinha de poesia, com um papel restrito à imaginação, que resumia-se a estes preceitos: o tempo e a educação geram a experiência; a experiência gera a memória; a memória gera o juízo e a fantasia; o juízo gera a força e a estrutura, e a fantasia gera os ornamentos do poema.

Hume foi um pouco mais longe, dando destaque à ideia de imaginação como a posse de uma ideia animada, vivaz, potente, acompanhada de um sentimento especial; e a imaginação seria o fator necessário à produção dessa vivacidade e animação da ideia. A função da arte seria trazer para o espectador essas imagens vigorosas e fazê-las parecer verdade e realidade. Dessa forma, ao contato com essas realidades nosso espírito seria fortemente afetado por ela. Aqui estamos caminhando para o conceito romântico da imaginação criadora como fabricadora de uma realidade tão potente, a da arte, que poderia competir com a dita "realidade" do mundo.

Resumindo o grupo de ideias que se ligam ao conceito de imaginação no romantismo e sua valorização enquanto forma de pensamento, podemos dizer que elas são as seguintes: a imaginação é o poder que a mente tem de criar energicamente alguma coisa e apresentá-la com um forte impacto de realidade; devido ao seu poder de mudar e recombinar as impressões armazenadas pela experiência, a imaginação é a fonte do espírito inventivo e da originalidade; a imaginação é a fonte de visões mais profundas que a compreensão lógica, e não totalmente compreensíveis para a razão abstrata; a imaginação é a base por meio do qual podemos penetrar nos sentimentos dos outros e comunicar-lhes os nossos.

Todas essas ideias fundidas de forma incandescente podem explicar a ideia do gênio artístico. É o que veremos mais abaixo.

Em suma: a imaginação seria, portanto, para a tradição racionalista, uma espécie de má e viciosa disposição do cérebro que estorva o julgamento e o discurso sensato dos homens, razão pela qual os gregos chamavam de phantasia essa forma de pensamento e de phantastikos os seres criados por tal faculdade. De outra parte, a partir do romantismo a imaginação seria a capacidade humana de apreender intuitivamente verdades além dos limites da razão, como dizia Ruskin. Mais do que uma simples faculdade que recebia, revivia e manipulava imagens, a imaginação era, segundo Kant definia na sua Crítica do Juízo, um poderoso agente para criar, por assim dizer, uma segunda natureza.

E quem era o portador dessa capacidade de criar e imaginar novos mundos? O gênio, evidentemente. E é sobre suas características que falaremos a seguir.

Na antiguidade acreditava-se que o poder do artista em criar coisas originais estava ligado a uma espécie de possessão e vidência exterior ao próprio artista. Ele era possuído por um poder estranho a ele, um demônio, que lhe comunicava uma mensagem divina. Com o romantismo isso muda, passando o artista já a não ser inspirado por deuses, mas rivalizando com eles na sua criação, a obra de um gênio. A ideia de gênio passou a ligar-se mais especificamente à atividade artística. A genialidade tornou-se uma condição natural a que aspiram todos os artistas.

E o que seria esse gênio? Um artista que possuía uma compreensão excepcional da suprema realidade ou, como diziam os filósofos idealistas alemães, uma manifestação ou encarnação do Espírito Absoluto?

Na base da ideia de gênio está também a ideia de originalidade. O gênio é essencialmente original. Quem não é original não pode ser nem gênio nem bom artista. Kant definiu bem essa característica: o gênio é o dom natural ou aptidão mental inata "que dá regras à arte". A originalidade é a propriedade fundamental do gênio. Por isso existe apenas um Beethoven, um Picasso, um Cézanne, um Da Vinci, um Rafael. Criaram seu próprio estilo, único e inimitável.

Sendo a originalidade a única qualidade necessária da grande arte e do grande artista, podemos dizer que a ideia que veicula originalidade e gênio é histórica, criada no século XIX, embora viesse caminhando lentamente desde a antiguidade. Mas pode ser usada para se pensar os grandes feitos do passado.

A palavra gênio aparece no século XVI, como ingenium, no sentido de "talento nativo", tal como era conhecida também na antiguidade como "dom". Ter a técnica apenas não basta, é preciso ter também um talento natural, algo que não se pode ensinar. Kant chamaria de gênio "a originalidade exemplar dos dotes naturais do indivíduo". Hobbes considerava gênio como dote natural excepcional ou talento inusitado (algo como aquele garoto que passou, aos 13 anos, em primeiro lugar no vestibular de química em Curitiba, sendo o mais novo universitário do país, ou Mozart compondo antes dos cinco anos de idade).

O gênio, então, pode ser definido como a faculdade de invenção, por meio da qual o homem se qualifica para realizar novos descobrimentos na ciência ou produzir obras de arte originais. Dessa noção deriva a de gênio como uma pessoa dotada de um sentido anormalmente potente de vocação, que trabalha incansavelmente por uma obsessão compulsiva, expressa na necessidade angustiada de dar vazão a capacidades latentes ― de ser ele mesmo ― ou descobrir verdades transcendentes e inexprimíveis, que só pode se concretizar numa forma de arte e pelos gênios.

Picasso traduziria bem essa noção, nos termos do que escreveu Christian Zervos sobre ele: "O seu único desejo tem sido desesperadamente ser ele próprio; com efeito, ele age de acordo com sugestões que lhe chegam de muito além de seus próprios limites. Vê descer sobre si uma ordem superior de exigências, tem a claríssima impressão de que alguma coisa o compele a esvaziar imperiosamente o espírito de tudo o que acaba de descobrir".

Vendo dessa forma, não podemos pensar, por exemplo, na noção de poesia como os gregos entendiam a palavra techne, um sistema de regras práticas decorrentes de princípios gerais que os artistas seguiriam. O gênio tiraria de si mesmo, da parte inconsciente de seu próprio ser, a sua obra superior. Segundo Wordsworth e Carlyle "o inconsciente é o sinal da criação; a consciência, quando muito, o da manufatura".

No século XX essa noção talvez tenha ficado um pouco passée, e a ela acrescenta-se novas particularidades Agora acreditamos que o gênio é aquele indivíduo que consegue mesclar o inconsciente ao trabalho, quase que como uma única força. Veja-se o que diz Stravinsky no seu livro Poética musical em 6 lições: "Toda criação pressupõe, em sua origem, uma espécie de apetite provocado pela antevisão da descoberta. Esse gosto antecipado do ato criativo acompanha a captação intuitiva de uma entidade desconhecida já possuída, mas ainda não inteligível, uma entidade que só se tornará forma definitiva pela ação de uma técnica constantemente vigilante".

Continua Stravinsky: "o importante para a lúcida ordenação de uma obra ― para sua cristalização ― é que todos o elementos dionisíacos que põem em movimento a imaginação do artista e que fazem brotar a seiva da vida devem estar devidamente subjugados antes que nos intoxiquem: é isto o que pede Apolo".

O caso Mozart
Mozart é a manifestação de um artista pré-romântico, ou seja, aquele que estava disposto a seguir a sua própria imaginação. Segundo Norbert Elias, no seu livro Mozart ― sociologia de um gênio, a vida de Mozart ilustra a situação do artista burguês outsider numa economia dominada pela aristocracia de corte, num tempo em que o equilíbrio de forças era muito favorável ao establishment cortesão, mas não a ponto de suprimir todas as expressões de protesto, ainda que apenas na arena, politicamente menos perigosa, da cultura.

Amadeus Mozart refletia o conflito trágico entre criatividade pessoal e uma sociedade que queria controlá-la. A sua decisão de largar o emprego na corte significava que, em vez de ser o empregado permanente de um patrono, ele desejava ganhar a vida dele como "artista autônomo", vendendo seu talento e suas criações como músico no mercado livre. Mozart queria ser mais que um subordinado e bem qualificado provedor de divertimento para a corte. Essa opção se baseia no conceito que o artista tinha de sua obra e de si mesmo, ou seja, no alto valor de sua música e de sua própria genialidade.

Mozart é um gênio. Mas o que o distinguia dos artistas da sua época?

Primeiro, sua capacidade de manipular os complexos instrumentos e códigos musicais de seu tempo antes dos sete anos de idade e o fato de Mozart se expressar em padrões sonoros com uma espontaneidade e uma energia que lembram uma força natural. Outra coisa é sua extraordinária facilidade para compor e tocar música conforme o padrão social do seu tempo e de avançar em proposições inusitadas.

Segundo Norbert Elias, Mozart se distinguia por sua capacidade não só de se expressar em combinações dentro da estrutura do seu próprio tempo, perfeitamente assimiladas, mas de ir muito além destas combinações conhecidas e dos sentimentos que despertavam. Ou seja, Mozart sabia dar rédea livre às suas fantasias, à sua imaginação (por isso desrespeitava os cânones da época), amparado num profundo conhecimento das estruturas musicais. Um amplo conhecimento musical e uma consciência altamente desenvolvida estavam indissoluvelmente ligados a sua criação musical. É o que fazia dele um gênio.

Voltando a Stravinsky, para concluir, ele retoma, apesar de seu apelo a Apolo, uma visão romântica da criação artística, de seu obscuro sentido: "Sempre encontraremos na origem da invenção um elemento irracional sobre o qual o espírito de submissão não tem poder, e que escapa a toda restrição". Mozart operava, também, principalmente dentro dessa clave. Se não fosse assim, teríamos centenas de Mozarts andando por aí.

Parafraseando Nietzsche: o homem comum é apenas uma ponte sobre o abismo que separa o animal e o gênio. E para dizer novamente com Kant, "gênio é uma mensagem lançada a outro gênio". Se é que me entendem.

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/2/2009

 

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