busca | avançada
133 mil/dia
2,0 milhão/mês
Sexta-feira, 13/2/2009
Trinca de livros e um bate-papo
Ana Elisa Ribeiro

Saí de casa, muitas vezes, disposta a desembarcar em uma livraria e cometer o haraquiri da conta corrente. Certa vez, mais do que isso, despenquei uma grana da poupança para a conta corrente da loja, via débito instantâneo, por causa de uma compra meio inflada em uma rede de livrarias aqui de Belo Horizonte. Sempre que vou a São Paulo, planejo um dia da agenda de visitante à Livraria Cultura, no Conjunto Nacional (isto não é jabá nem merchan ou o nome que tenha), já pensando em tirar a barriga da miséria (não sei se é bem a barriga). De vez em quando tenho pena de não existir Livraria Cultura ou FNAC em Minas; em outros momentos, dou graças a Deus por elas estarem bem longe.

No entanto, mesmo quando não planejo, pode calhar de me deparar com uma livraria, mesmo essas disfarçadas de papelaria (que por aqui sobram) e eu fazer uma compra meio além do que podem as finanças. E numa esbarradinha dessas eu achei uma série de livros que me divertiu no primeiro mês de férias, em dezembro de 2008.

Fui ao shopping mais próximo fazer nem sei o quê e, na hora de liberar o carro do estacionamento, resolvemos comprar qualquer coisa na loja de revistas, uma dessas cheias de DVDs, revistas especializadas, todos os jornais do país, bibelôs e uma arara da L&PM. Aí é que mora o perigo. A editora gaúcha teve a boa sacada de investir na produção de livros de bolso, há alguns anos. Lembro-me ainda do prazer de ver livros a dois reais. Sim, era esse o preço de vários títulos. Depois dos clássicos de domínio público, com textos integrais, vieram os autores contemporâneos, os Verissimos, o Millôr, o Scliar etc. O precinho foi subindo. Não se encontra mais livro por dois reais, mas os volumes continuam a bons preços, ao menos abaixo da média do mercado. Incluindo as tirinhas, coletâneas do Adão Iturrusgarai, do Garfield, do Hagar (tenho um tantão), do Laerte e por aí vai.

Enquanto o marido foi pegar revista e DVD de filme de zumbi, corri para mexer na arara da L&PM. Os títulos clássicos se misturavam com manuais de culinária e coletâneas estranhas, mas o importante é que topei com um título assim: Viver & Escrever (L&PM, 2008, 256 págs.), cuja capa preta apresentava uma lista sedutora com nomes de pelo menos uma dezena de escritores brasileiros. De relance, achei que fosse mais uma coletânea temática, mas não era. Eram entrevistas, looooooongas entrevistas que a editora Edla van Steen fez com uma turma enorme de figuras representativas de nossa literatura (grande parte deles mortos).

Peguei logo o livro e enfiei embaixo do braço, com medo de que alguém mais ali viesse disputá-lo comigo (aff... vê se pode?). No entanto, meus olhos deram com mais um deles: o número 2. Santa Maria, Nossa Senhora, são dois? Sim, com mais uma lista de uns dez nomões. Não, espera, atrás dele tem outro. Certifiquei-me de que eram trigêmeos e os enfiei todos embaixo do braço. (Minha irmã, quando queria garantir os salgadinhos da bandeja na festa, lambia um por um e ninguém mais pegava.)

1, 2, 3, Viver & Escrever, organizado por Edla van Steen, com depoimentos de Mario Quintana, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos, Nélida Piñon, Dias Gomes, Jorge Amado, Edilberto Coutinho, Ary Quintella, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Lêdo Ivo, Octávio de Faria, Menotti del Picchia (todos no volume 1); João Cabral de Melo Neto, Dyonélio Machado, Maria de Lourdes Teixeira, Plínio Marcos, Geraldo Ferraz, Raduan Nassar, Cyro dos Anjos, Luiz Vilela, J. J. Veiga, Osman Lins, Ivan Ângelo, Fernando Sabino, Décio Pignatari (volume 2); Vinicius de Moraes, Herberto Sales, Marcos Rey, Nelson Rodrigues, Luis Martins, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Jorge Andrade, Lygia Fagundes Telles, Adonias Filho, Autran Dourado, Moacyr Scliar e Henriqueta Lisboa. E meu fôlego já estava indo pras cucuias.

A lista está completa? Claro que não. Fiquei curiosa por saber dos depoimentos de outros tantos autores de nossas letras. Conheço todos os escritores que estão aí? Também não. Vários deles só conheci de nome. Alguns poucos conheci quase por acidente, quando algum livro me veio parar nas mãos. Vários deles, no entanto, povoam minha memória adolescente. Outra penca faz parte das minhas estantes até hoje. E há até os autores de alguns de meus livros de cabeceira. Importante mesmo era saber o que cada um deles pensava (ao menos na época das entrevistas) sobre a literatura, o ato de criação, o escrever & viver. Interessante comparar nosso círculo literário hoje com o de ontem (às vezes, de anteontem). Sentir o clima de cada autor, saber seus processos de trabalho.

Deu para experimentar um pouco de tudo nesta leitura. Fui voraz. Ataquei os três livros quase de uma sentada. Carreguei os volumes para cima e para baixo, para todo canto da casa. Ri e tive nojo. Fiquei incomodada com algumas coisinhas, mas o plano geral das obras deixa um gosto bom na boca.

São 39 depoimentos, organizados não sei ao certo com que critério, a não ser que cada livrinho tem 13 entrevistas. Os tamanhos delas devem ter ajudado a fazer a distribuição, já que todos os volumes têm aproximadamente 200 páginas (naquele tamanho pocket, 10,5 x 18 cm). As perguntas de Edla van Steen são mais ou menos as mesmas para todos os autores, o que dá ao livro uma previsibilidade que incomoda. No entanto, logo transformei isso em pesquisa: dá para comparar os mesmos aspectos em relação a todos os entrevistados. Os processos de trabalho, por exemplo, são divertidíssimos. Lá estão desde Nelson Rodrigues, que diz escrever de estalo, de supetão, quase sem revisão, até Ignácio de Loyola Brandão, que descreve um longo ritual de anotações e pesquisas até o início da escrita. A maior parte dos escritores afirma a dificuldade de se chegar ao texto simples, exato, justo. A reescrita é apontada por todos como necessária e trabalhosa. Autran Dourado é taquígrafo, então taquigrafa as idéias antes que elas se percam e depois bate à máquina para fazer releitura e correção. E assim vão mostrando que cada artista acha lá seu modo de operar, sempre em busca da expressão apropriada. Em muitos casos, os depoimentos são verdadeiras aulas de redação, especialmente para aqueles que pensam que o "lance" do escritor é ter facilidade para escrever. Errou. O negócio é gostar e ter ímpeto para perseguir uma expressão literária que dá muito, muito, muito trabalho.

Os climas das conversas também variam. A maior parte delas parece não ter acontecido tête-à-tête. Devem ter sido entrevistas respondidas por escrito, muito bem-pensadas, com jeito de escrita. Isso não desmerece o livro, nem a concepção do projeto, mas dá um arzinho preparado demais para algumas respostas, a depender do autor. Vários depoimentos são atravessados pela antipatia ostensiva do respondente. Cruz-credo, escritor afetado é dureza. Bem que na apresentação a organizadora alerta para a proeza de ter conseguido respostas nem sempre modestas. É comum que o autor se compare a escritores da literatura universal, faça afirmações curiosas e dê a si mesmo um tratamento que o distancia das pessoas comuns. Nhaco. Também é possível se apaixonar pela espontaneidade de uns e detestar a má vontade de outros para responder às questões propostas por Edla van Steen. A leveza de João Antônio e a surpreendente agilidade de Orígenes Lessa contrastam com a secura de Luiz Vilela e com a pompa blasé de Nélida Piñon.

Os casos que cada um dos autores conta também valem a compra dos três volumes. Os amigos, os inícios de carreira, a denúncia da podridão do meio literário, tecnologias, impressões sobre o mundo. Gratíssima surpresa ler as gentilezas de que era capaz João Cabral de Melo Neto. Reconfortante contar quantos autores importantes bancaram dos próprios bolsos seus primeiros (segundos e até terceiros) livros. Desmistificar a aura de artistas que não trabalham, não têm empregos e vidas comuns. Também é preciso ter estômago para ouvir aqueles casos de velho que, quando jovem, era o garanhão da vila. Que preguiça saber das prostitutas e das traições, sem ninguém ter feito a pergunta. Por outro lado, simpáticas as histórias de amor com esposas eternamente parceiras, às vezes também na escrita, não raro são as primeiras leitoras críticas do trabalho recém-feito.

Ao ler os três volumes de Viver & Escrever, é bom ter um lápis à mão. Frases lapidares acontecem aqui e ali. Verdadeiras máximas do que seja escrever "de verdade", viver disso, para isso e por isso. Não foi à-toa que a palavra "angústia" pipocou na obra. Escrever é uma necessidade, uma pulsão, não um plano. Só quem vive com escritor pode experimentar esses momentos de "idéia súbita". A escrita corre junto com o sangue, não é um elemento vinculado à admiração do ato de escrever ou à grelha dos horários do dia a dia. Quanta coisa pode emperrar a escrita... E quanto jeito os autores dão de libertá-la. Viver & Escrever merecem (os três) ser lidos em mesa de boteco. Se o leitor quiser, dá para se sentir parte do bate-papo, sem grandes esforços.

Para ir além











Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 13/2/2009

 

busca | avançada
133 mil/dia
2,0 milhão/mês