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Terça-feira, 3/3/2009
Máximas sobre a ideia de Universidade
Jardel Dias Cavalcanti


Monge Copista

Existe nos últimos tempos um certo ceticismo e uma desconfiança em relação à Universidade e ao conhecimento que se produz dentro desta instituição. Na base da crítica existem algumas ideias: 1) a de que a posse do saber não foi socializada, ao contrário, tornou-se um privilégio de uma oligarquia que tira proveito próprio da instituição universitária pelas vantagens sociais que esta lhe traz; 2) a ineficácia deste conhecimento na prática da vida social.

As máximas que redigirei abaixo têm a intenção de colocar algumas questões que, longe de querer invalidar o fato de que, sem dúvida, a Universidade explora um privilégio reservado a um pequeno grupo de homens e o conhecimento ali produzido muitas vezes fica engavetado e restrito aos eruditos, reafirma outro valor, o de que não é a vontade arbitrária dos dirigentes universitários que faz a Universidade, mas a busca da verdade, anseio humano anterior a toda instituição.

As máximas abaixo são um resumo de idéias de autores como Paul Ricoeur, Jacques Drèze e Jean Debelle, com alterações que julguei necessárias:

* Os homens da Idade Média imprimiram um princípio na consciência do mundo ocidental: a conservação e a perpetuação dos conhecimentos teóricos merecem ser confiadas a uma instituição especial (a Universidade). Esta instituição, associação permanente dos sábios e estudantes, se administra e perpetua, principalmente, a si mesma; deve abranger a totalidade dos conhecimentos que não dizem respeito à simples habilidade manual, mas que constituem o saber isolado necessário não só à vida social, como também ao desenvolvimento mais elevado da pessoa humana.

* Tão logo uma nação confia a uma instituição a tarefa de elaborar, de conservar e de perpetuar os conhecimentos, coloca-a, explicitamente, ou implicitamente, sob a ideia de Universidade. Ao mesmo tempo ela se livra de toda censura e se emprenha em criar um espaço para a liberdade acadêmica.

* É um direito da humanidade que a busca da verdade prossiga em toda parte, sem constrangimento. (Karl Jaspers)

* A Universidade é um lugar do ensino do saber universal; quanto mais ela se regionaliza, mais perde seu sentido verdadeiro.

* O scholar ensina não para fazer avançar a ciência, mas para consolidar uma educação; essa educação é liberal, não tanto por que a pesquisa da verdade deva se fazer sem constrangimento, mas porque o exercício da inteligência, sem ideia de lucro, contribui para a formação de uma personalidade independente, dona de si mesma.

* Os críticos da Universidade dizem: a procura livre da verdade é uma quimera, uma mensagem ou uma hipocrisia; é uma pretensão que nasce sempre em meio a uma cultura, que pertence ao dinamismo da sociedade de força e da dominação que a articulam.

* Em que lugar você deve se colocar para criticar as alienações da cultura e perceber que a cultura é uma tela de projeção ou uma máscara se não de um outro lugar, a Universidade, que será também definido pelo poder de se escapar das ilusões, dos preconceitos, das mentiras e, portanto, de procurar a verdade sem constrangimento?

* O direito de se buscar a verdade sem constrangimento não é, antes de tudo, um direito de alguns homens intelectuais e eruditos, mas um direito da humanidade enquanto tal.

* A busca da verdade não é um acidente da história da espécie humana, mas constitui a humanidade como humanidade; ou, para dizer a mesma coisa de outra maneira, a busca da verdade é suficiente para fazer da espécie humana outra coisa além de uma espécie animal. Graças a ela, a humanidade é inteiramente uma ideia em marcha, a ideia de um vivente que ligou sua sorte à sua relação com a verdade.

* A comunidade acadêmica não se constitui arbitrariamente: não procede de um contrato bilateral entre pesquisadores e estudantes, mas de outro termo que os liga, o direito da humanidade que a busca da verdade prossiga, em toda parte, sem constrangimento.

* Há tarefas às quais a Universidade se subordina: a precedência da pesquisa sobre todas as outras tarefas de ensino; ou antes, a definição do próprio ensino como pesquisa, diferente da instrução compreendida como aprendizagem das habilidades.

* Dizer que todo ensino universitário é pesquisa quer dizer que todo ensino, mesmo de iniciação, se ele é digno desse nome de ensino, apresenta o caráter de uma descoberta livre, realizada em comum e não na transmissão de resultados, que vai daquele que sabe para aquele que não sabe.

* A pesquisa não é somente o que se passa nos setores de estímulo; não é somente a descoberta e a inovação; é a própria mentalidade da Universidade.

* A liberdade acadêmica não é um privilégio de castas, nem da instituição como tal, nem dos professores como corporação, nem dos estudantes como organização sindical, corporativa, política ou ideológica; ela procede do direito da Universidade de prosseguir, em qualquer lugar, a busca da verdade.

* A liberdade acadêmica não poderia se limitar a um simples direito de extraterritorialidade, que permitiria aos docentes e aos discentes se subtraírem ao direito comum; a liberdade acadêmica não assegura nem imunidade, nem impunidade a respeito das leis.

* A liberdade acadêmica não poderia também se reduzir a um privilégio de casta, permitindo a uma oligarquia de se perpetuar sem controle, em favor da cooptação; a interpretação corporativista da liberdade acadêmica é uma traição tão abominável quanto sua redução ao direito de asilo para contestadores. Precisamente porque o direito da comunidade universitária se baseia na sua relação com a verdade e num direito da humanidade, e não é nem anárquico, nem oligárquico, nem corporativo.

* A liberdade acadêmica é definida positivamente pela responsabilidade a respeito do saber.

* O direito de contestação dos estudantes, a liberdade de expressão dos professores, no exercício de sua função, a autonomia pedagógica, administrativa e financeira da Universidade não são mais que expressões e órgãos da responsabilidade de uns e de outros a respeito do saber.

* Universidade: "solidão e liberdade" (como queria Humbold) ou uma instituição a serviço ou em relação com a sociedade em geral (concepção napoleônica de uma finalidade sociopolítica da instituição)?


Congresso na Sorbonne

* A contradição em que vive a Universidade: a mesma instituição deve, atualmente, satisfazer a duas exigências contrárias: assegurar a pesquisa livre e prover a nação com profissionais médios e superiores. Existe uma incompatibilidade entre o projeto de formar uma personalidade livre e o de prover a sociedade, tal como ela é, com quadros dirigentes.

* A função da Universidade é apenas promover a mobilidade social e promoção social, tal como a Universidade medieval, quando um homem humilde podia ascender até o topo da hierarquia eclesiástica por meio da cultura eclesial?

* A colação de grau e todo o sistema de exames e de concursos apareceu como uma maneira de competir com o capital e de restringir o poder do dinheiro; o recrutamento pelo exame cerceia, até certo ponto, o recrutamento pela fortuna e pelas relações sociais entre indivíduos da mesma classe. Ora, essa é a função que é hoje contestada por muitos estudantes e por uma parte do corpo docente. A criação de elites, a concessão feita pela Universidade aos seus diplomados de um status social invejável aparece para muitos como um fator de conservação social; a Universidade, que elevou ela mesma seu próprio status, aparece como uma engrenagem do sistema, como parte integrante do establishment.

* Pelo fato de ter se tornado um poder e que tem a seu encargo milhões de indivíduos, aos quais assegura a carreira e a situação, ela faz o papel de agência de recrutamento e de emprego e deve se reger pela demanda social, isto é, pelo estado de emprego e sobretudo pela configuração das funções sociais tais como o resto da sociedade a define... Por esse fato, pouco a pouco a Universidade é identificada com a sociedade, talvez com o governo. Numerosas Universidades têm hoje seus programas e atividades inextrincavelmente misturados aos da grande indústria, das forças armadas e do poder político.

* Fator de crise universitária: a dissociação da imagem e do conceito de cultura. Colocada na defensiva, a Universidade se dedica somente à ideia de interpretação do passado, enquanto a criação cultural prossegue adiante, em outras células sociais de estatuto não universitário. Os estudantes sentem fortemente este desdobramento entre uma cultura universitária, que tem, no entanto, a ambição de fazer progredir a inteligência e promover o conhecimento científico, mas onde a noção da mesma de cultura tende a tornar-se acadêmica, retórica, honorífica e uma cultura selvagem que se faz através da arte popular, o disco, o cinema e, sobretudo, pela aprendizagem, em comum, dos modos de vida, no interior do próprio "meio" estudantil, constituído em grupo social marginal e dissidente. Essa vacilação da imagem da cultura, seu desdobramento entre uma concepção "liberal" e uma concepção "radical", constitui um terrível perigo para a instituição universitária que se encontra atingida na representação que ela faz de si própria.

* O que acontece com o projeto universitário de uma educação liberal, se a função crítica emigra para fora dela? Pois a ideia de pesquisa e verdade, sem entrave e sem constrangimento, era e permanece como um projeto crítico, mas esse projeto é obscurecido a partir do momento em que a função de promoção social ameaça sujeitar a instituição universitária à estrutura social existente e a torná-la cúmplice da resistência à mudança de poderes atuais; o projeto crítico inicial é duplamente ofuscado se, além disso, a concorrência dos núcleos culturais extrauniversitários despoja a universidade de sua função crítica e criadora de vanguarda.

* A Universidade se encontra presa entre a pressão de uma sociedade que exige dela uma melhor adaptação não somente quanto à demanda de emprego, mas também quanto ao jogo social e quanto à imagem do êxito que a sociedade tende a impor ― e a pressão de uma juventude que lhe reprova a sujeição à ordem estabelecida e opõe ao seu conceito de educação liberal um conceito de contestação radical.

* Os movimentos estudantis são, eles mesmos, surpreendidos pelo dilema: são obrigados a provarem sua maturidade cultural, sacrificando assim seu apetite por atividades políticas gratuitas e sem influência; mas ao participarem, eles mesmos ingressam na "estrutura de poder"; ou recusam qualquer co-gestão, qualquer partilha de responsabilidade no quadro institucional e legal. Ou escolhem ser marginalizados e dissidentes, primeiramente, com o risco de se tornarem insignificantes, rotineiros e retóricos na contestação, em seguida, de reforçar as tendências repressivas da sociedade, suscitando lentamente um deslizamento para regimes políticos autoritários, talvez para um neofascismo devotado ao que os jovens intelectuais odeiam mais na sociedade de consumo.

* Rebater a crise universitária de modo construtivo requer algumas atitudes: a) reformular para nosso tempo a ideia liberal de universidade; fora da pesquisa, em comum, da verdade e dos direitos que se ligam a ela, não existe nenhum fundamento seguro para a Universidade; b) resistir à dependência utilitária e à contestação sob suas formas puramente destrutivas; c) se a universidade não permanece como lugar crítico por excelência, se ela não se mantém como o centro da inovação científica e cultural, ela será como um navio perdido, levada para uma direção, puxada para outra por uma juventude que exigirá dela que sacrifique o espírito de discussão ilimitada a posicionamentos doutrinários e partidários; d) não basta somente que se proponha tornar comum a ciência que se faz; essa noção só serve a quem entrou na pesquisa em busca de um título profissional; é também responsabilidade da Universidade preparar os homens para tomarem parte, de modo consciente, na aventura técnica, cultural, científica e espiritual para a qual é levada a humanidade.

* Ao invés da especialização das ciências e das técnicas, que tende a um esboroamento comparável ao trabalho manual, a Universidade deve visar uma iniciação que se dirija aos aspectos mais gerais da ciência moderna. É por isso que o ensino deve dirigir-se ao desenclausuramento e à desprofissionalização; oferecer aos estudantes opções múltiplas e combinações variáveis; multiplicar as pesquisas interdisciplinares; encorajar as instituições interdepartamentais, de maneira que as ciências especializadas possam sempre ser postas em perspectiva com relação ao movimento global da cultura. Poderá um médico ignorar a psicologia e as ciências sociais, numa época em que metade de seus pacientes estão doentes por causa de sua própria civilização?

* Contra o ceticismo social e a desconfiança dos estudantes é preciso que se diga: a despeito de todas as críticas endereçadas à Universidade e de seus compromissos com o "sistema", ela é a única instituição onde podem efetivamente se exprimir os espíritos mais críticos de nosso tempo.

* Se a Universidade conseguir inverter o velho poder hierárquico de alto a baixo e criar poderes de baixo para cima, lançará na sociedade autoritária uma faísca, que, cedo ou tarde, ateará fogo no conjunto das formas de poder. Ser reformista até o fim, para a Universidade, é ser, a médio e longo prazo, revolucionário para com a sociedade inteira.

* Deve-se instituir uma zona de permeabilidade entre o mundo universitário e o não-universitário, para que a cultura universitária e a não-universitária sejam confrontadas.

* De uma forma secundária, deve-se aprender a usar os mass media (que os professores têm a tendência a tratar com desconhecimento ou com desprezo), depois, de uma forma superior, aplicar uma crítica explícita ao mass media, questionando seus pressupostos econômicos, sociais, culturais e ideológicos.

* Não basta apenas que os homens de pesquisa sejam consciências críticas pelo simples fato de serem pesquisadores. Para a grande massa que só segue o trabalho criador de longe é necessário tornar explícita a função crítica do conhecimento em marcha, a respeito do campo total da cultura e da vida.

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/3/2009

 

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