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Terça-feira, 10/3/2009
O fundamentalismo headbanger
Diogo Salles

Muito bem, devo começar esta coluna me desculpando com o leitor. Sim, pois há um ano atrás, escrevi este post no blog do Digestivo, sobre o show que o Iron Maiden faria em São Paulo. Mas calma, calma. Minhas desculpas não se referem à crítica que fiz à banda, e, sim, ao meu erro de previsão. Disse, lá em fevereiro do ano passado, que a banda voltaria ao país dentro de "dois ou três anos". Voltaram depois de um. Um ano e treze dias, para ser mais exato. E para apresentar o meeesmo show da meeesma turnê que passou por aqui em 2008. É isso aí. Além da turma dos necrófilos, o rock também tem a turma "arroz-de-festa". Disputando riff a riff o troféu "Ray Conniff do rock'n'roll" com o Deep Purple (que, acreditem, também esteve aqui há poucos dias), o Iron Maiden chega mais uma vez ao Brasil, com os mesmos trejeitos, sotaques, timbres e mantras dos anos 80 (a década que não acaba nunca).

E minhas previsões estavam mesmo furadas. Só de sacanagem, disse que não tinha certeza se Roberto Carlos, o David Beckham da MPB (todo mundo aplaude, todo mundo acha lindo ― mas é só marketing) faria o especial na Globo. Como sabemos, o "rei" (rei de quê? Da cafonice?) fez seu especial de fim de ano na Globo... Aliás, aproveito para prever que, no final de 2009, ele fará outro especial. Espero acertar dessa vez...

Esse texto causou celeuma por aqui. Do editor reclamando de eu ter transformado o site numa Faixa de Gaza virtual, à ira dos fundamentalistas do Hamas metaleiro querendo me trucidar. Todo esse bombardeio me fez pensar até aonde um xiita pode ir para manter a aura de seu "Alá" imaculada. Se você olhar os comentários aprovados pelo moderador do site, não verá os xingamentos, os palavrões e os desejos de me esquartejar que chegaram por e-mail. E essa questão do fanatismo é muito maior, pois não envolve apenas fãs do Iron Maiden ou de bandas heavy metal, não. Se você acha que os fãs da Madonna ou do Michael Jackson são menos truculentos, está enganado. Qualquer analogia com as torcidas de futebol não estará muito distante. Para os fanáticos, não pode haver opiniões dissonantes. Críticas? Nunca. Nem pensar. Renunciarão a tudo e a todos em nome da preservação e da glória a seu "deus". Sinceramente, não sei dizer o quão tênue é a linha entre atitudes assim e a de Mark Chapman.

Mas os estratagemas variam. Dentre os bárbaros, tem também os que optam pela intimidação, usando o velho truque de desqualificar o autor. Com tacape à mão, apontam "críticas infundadas", "falta de informação" e "desconhecimento do assunto", deixando uma mensagem subliminar do tipo "não volte mais aqui". É como se apenas as pessoas que veneram a banda cegamente tivessem o direito de falar dela. Outros me classificaram como "tendencioso". Ora, por que eu não seria? Escrevo aqui uma opinião, não? Qualquer resenha (seja de discos, shows ou mesmo livros) é, de alguma forma, tendenciosa, pois trata-se da visão de quem escreve sobre a obra. A paixão fala tão mais alto a um fã que perde-se até a referência entre um texto noticioso e um texto de opinião. Mas há também aqueles que rebatem as argumentações. No caso, usou-se muito o exemplo do último disco de estúdio da banda (A matter of life and death), que teria uma sonoridade "muito distante" dos clássicos dos anos 80... É uma opinião, claro, mas quem tiver a curiosidade, ouça o tal disco e veja como a mesma fórmula de sempre está lá, intacta. Aos ouvidos de um fã, qualquer detalhe diferente na música, por mais ínfimo que seja, soará "novo", mesmo que a estrutura permaneça a mesma.

De volta ao fatídico post, mostrei-o, na época, ao meu amigo e crítico de rock Marco Bezzi, do Jornal da Tarde. Ele, que, por sinal, é fã de Iron Maiden, e também vive às turras com fãs dos mais variados matizes, disse o seguinte: "Achei legal e entendo o seu ponto de vista, apesar de não concordar. Mas não adianta: fã não entende ironia". Apesar de eu ter dado razão a ele, ainda não consegui compreender muito bem a questão, pois mesmo eu sendo fã incondicional de Jimi Hendrix, não vou querer assassinar a machadadas o cara que escrever uma crítica negativa a ele. Tampouco irei proibi-lo de continuar escrevendo sobre Hendrix. Apenas discordarei, como o Bezzi discordou de mim. Isso faz de mim (ou dele) menos fã?

Mas, para ir fundo nessa questão, volto ao ponto fundamental do meu texto, que ficou ofuscado pela polêmica: muitas bandas, quando encontram a fórmula do sucesso, se acomodam nela até o final de suas carreiras. Assim, a legião de fãs que se formou nos anos dourados se perpetua, já que fãs de metal são, em geral, conservadores. É aí que entra o Iron Maiden. Mas há bandas que preferem se arriscar em outras praias ― e, consequentemente, levar pedradas ―, como aconteceu tantas vezes com o Metallica.

Pode-se gostar de um ou de outro. Não há discussão de "quem é melhor" aqui (roqueiros têm essa mania). São apenas duas maneiras diferentes de se construir uma carreira musical. Há bandas que simplesmente não sobreviveriam sem experimentar diferentes sonoridades, pois as composições são feitas de dentro para fora do estúdio, com objetivos musicais. É o que o artista está sentindo naquele momento. É a necessidade de tentar algo diferente. Se os fãs gostarem, ótimo. Se não gostarem, paciência. É sempre nessa direção que se moveu o Rush, por exemplo. Do rock básico e despretensioso do início, eles partiram para viagens espaciais e discos conceituais. Mais tarde, migraram para uma abordagem mais acessível, onde os teclados dominavam as composições. Aos poucos, os teclados foram saindo de cena, até que a tríade guitarra-baixo-bateria voltasse ao front. Há quem goste só da fase mais pesada do início (Fly by night), há quem goste da fase mais progressiva (Hemispheres), há quem prefira os teclados (Hold your fire), há quem prefira a fase atual. E há quem goste de todas.

Situação semelhante viveu o Yes. Das viagens intergalácticas de Jon Anderson e Cia. nos idos dos anos 1970, o guitarrista Trevor Rabin chegou, no início dos 80, para trazer a banda de volta à terra. Mesmo o U2, uma banda essencialmente pop-rock, mudou muito. Começou com um rock colegial cru. Mais tarde, mergulhou no seio da América profunda, descobrindo o blues e o gospel. Nos anos 90 caiu na megalomania e na catarse tecnológica, até retornar ao básico com All that you can't leave behind. É comum no rock construir um caminho incorporando novos ritmos, para depois refazê-lo de volta até o ponto onde tudo começou. Gostando de uma fase ou de outra, sendo fã ou não, é visível quando há honestidade naquilo que o artista está lançando. É o músico entrar no estúdio querendo ousar, sem medo de procurar o desconhecido e, por consequência, ficar exposto a melodias de gosto duvidoso. É como se dissesse, em tom de desafio: "ei, tenho novas músicas para você, quer ouvir?".

No outro lado, mais reacionário, está a grande maioria das bandas de metal, que se recusam a sair da mesmice e seguem a cartilha à risca. Todo o conceito do disco já está pronto antes mesmo de ser composto. Os riffs soarão familiares, as letras falarão das mesmas coisas (mas de outra forma) e os solos encontrarão as mesmas escalas pentatônicas. Tudo é programado para soar óbvio, exatamente como o disco anterior já havia sido. Percebe-se quando já começam um trabalho pensando nas vendas, se os fãs vão gostar ou não, se a crítica vai descer o pau. É o disco sendo feito de fora para dentro do estúdio. É o artista jogando para a sua torcida e se tornando uma marionete de seu próprio público. E o convite à audição é um pouco diferente: "ei, tenho mais um disco de tudo aquilo que você já conhece e gosta".

Antes que gritem "generalista!", digo: há exceções. Nos dois casos. Nem todas as bandas de metal são necessariamente monocórdias. O Black Sabbath não foi. Tentaram coisas diferentes. Decepcionaram algumas vezes, é verdade, mas, a despeito dos eternos crucifixos e do tom sombrio, passaram por diversas encarnações. E nem todas as bandas que seguem fielmente um protocolo pré-estabelecido, são necessariamente repetitivas. Um bom exemplo é o AC/DC. Passaram a vida toda amparados na dinâmica de vocais gritados e guitarras demolidoras. Mas como eles conseguem, ainda nos dias de hoje, se reinventar e voltar ao topo como uma das mais importantes bandas de rock do mundo? Pergunte ao Angus Young...

Aos que me acusarem de oportunismo ou de perseguição ao Iron Maiden, sinto decepcioná-los, pois gosto da banda. Não de tudo, mas gosto. Sim, se você ainda não tinha percebido isso, volte ao post no blog (olha o link aqui de novo) e tire a prova. Não fiz nenhuma crítica no aspecto musical, de que eles não saibam tocar ou que são incompetentes no ofício (como são os indies e emos, por exemplo). Pelo contrário. Foram os melhores naquilo que se propuseram a fazer. Mas pararam no tempo. Ficaram datados. Esses são os fatos que um fã, cego que é, jamais poderá enxergar. Não há muito como negar que tanto o Iron Maiden quanto o Deep Purple (que eu adoro) têm vindo demais para cá para fazer (e ser) mais do mesmo. Acho ótimo que eles façam mais shows por aqui do que o Asa de Águia ou qualquer porcaria axé. E se eles gostam de caçar níqueis, e quiserem lançar um DVD "live in Carnalfenas", fiquem à vontade. Agora, não querer que alguém diga algo a respeito ou emita uma opinião... Aí já é demais. Se tenho a desfaçatez de blasfemar desse jeito, é apenas porque não sou um fundamentalista, que nega a realidade (e forja uma nova) em nome de uma doutrina.

Nota do autor
"O pessoal que curte heavy metal não tem a cabeça mais aberta desse mundo" ― Bruce Dickinson (sim, ele mesmo!), corroborando a tese exposta acima

Diogo Salles
São Paulo, 10/3/2009

 

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