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Terça-feira, 26/5/2009
God save the newspapers!
Rafael Rodrigues

O fim dos jornais impressos não vai apenas deixar jornalistas mais pobres, blogueiros mais ricos e a população mais burra. Vai também causar um efeito devastador na indústria do cinema e também no meio ambiente, porque haverá um aumento na procura por rolos de papel filme. E papel filme, como vocês sabem, é plástico. E o plástico demora de se decompor, fica anos e anos por aí, zanzando de um esgoto para outro, acumulando em bueiros e provocando enchentes.

Explico. Primeiro, a indústria do cinema. Vocês já assistiram a algum Beethoven (descobri agora que vai do 1 até o 5; eu tinha parado de contar no terceiro)? Salvo engano, em todos eles há uma cena que é quase o símbolo do filme. Mais ainda que o são bernardo que dá título à "pentalogia". É aquela cena em que o pai dos garotinhos que criam o Beethoven vai lá fora pegar o jornal, que ainda não foi entregue. Ele então fica esperando um pouco, enquanto toma sua xícara de café, porque logo, logo o rapazinho que faz as entregas passará por lá de bicicleta e jogará o jornal na entrada de sua casa. Mas Beethoven é uma comédia, e é óbvio que o rapazinho vai acertar em cheio a caneca do pai dos garotinhos, que ficará com o roupão (ou o terno) todo sujo de café.

Até aí, tudo bem. O fim dos jornais ― e, consequentemente, dos entregadores deles ― evitaria que um Beethoven 6 trouxesse pela milionésima vez esta cena (porque outros filmes de comédia estilo Sessão da Tarde a usam constantemente).

Mas há algo mais grave: o caso do papel filme, que seria utilizado para embrulhar peixes que hoje são embrulhados em jornais. Certamente Al Gore tentaria impedir isso, propondo a criação de gráficas que produzissem rolos de papel jornal, em vez de papel filme. Mas depois do trauma do fim e do desmonte das redações, quem se arriscaria a abrir uma gráfica que fosse gerar, justamente, papel jornal? Muito provável que uma aura de maldição recaia sobre as máquinas que hoje cospem as notícias que estão nas bancas algumas horas depois ― capaz até de, no futuro, existirem fogueiras santas para queimarem as máquinas!

Com o fim dos jornais, as novelas da Globo e os filmes brasileiros "de família" também precisarão ser reformulados. Aquela cena do patriarca sentando à mesa para tomar seu café da manhã, abrindo ostensivamente o O Globo para que o nome do jornal seja bem enquadrado pela câmera? Já era. No máximo um coroa tirado a moderninho portando um notebook anão e dizendo "Vem ver essa notícia no G1, filhão".

Bom, o futuro certamente não será tão ridículo quanto os parágrafos acima, mas parece que realmente não há saída para os jornais impressos: eles estão mesmo fadados à extinção. E isto acontecendo será uma grande perda para todos nós, porque notícias irresponsáveis e jornalistas sem escrúpulos há aos borbotões, mas as organizações que colocam seus jornais impressos nas bancas todos os dias ao menos filtram os profissionais que trabalham em suas redações. Nelas não há blogueiros idiotas que publicam qualquer coisa sem checar informações ou apenas reproduzem posts de outros blogueiros sem dar o devido crédito.

O ideal, mesmo, seria as plataformas virtuais e impressas conviverem pacificamente, sem isso de uma matar a outra. Mas, além de a morte dos jornais impressos parecer mesmo inevitável, por uma simples questão de evolução das coisas, há ainda a questão de pessoas, aparentemente sanguinárias e masoquistas, anunciarem, todo santo dia, que os jornais estão morrendo. É como se quisessem enterrar alguém que ainda está vivo, mas respirando por aparelhos. Por elas, esses aparelhos já teriam sido desligados, e o paciente estaria morto, a sete palmos do chão.

Mas se engana quem pensa que o problema se restringe a uma "briga" de plataformas, de meios. A questão do declínio dos jornais é bem maior que isso. Ler um jornal, hoje, significa "perder tempo". Vivemos a época do urgente, do dinamismo exacerbado, do tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Nunca antes na história deste mundo a frase "tempo é dinheiro" teve tanta representatividade e efeito ― ainda mais em tempos de crise. Nunca disputamos de maneira tão ferrenha os minutos nossos de cada dia. Tudo o que fazemos é religiosamente cronometrado, agendado, organizado e apertado nas 24 horas que temos por dia. Cada um de nós precisa salvar seu próprio mundo, como se fôssemos o Jack Bauer. Por conta disso, as pessoas simplesmente não querem parar para ler um jornal impresso, porque fica a impressão de que estamos "perdendo" tempo. Ora, imagine, ler um jornal impresso... Abrir suas páginas, ler notícia por notícia ― ou, vá lá, as mais importantes, porque realmente não dá pra ler tudo e nem todas são relevantes ―, descansar um pouco, lavar as mãos sujas de tinta e, finalmente, ir para o trabalho ― no caso de quem lê pela manhã ―, ou ir dormir ― no caso de quem lê à noite. Para fazer isso são necessários, no mínimo, 15 minutos, sem contar as eventuais interrupções. E quem tem quinze minutos hoje? Aliás, o que você está fazendo lendo este texto até agora? Não tem nenhum encontro marcado? Não precisa estudar? E o livro que você está lendo? E aquele filme que você alugou? Ah, tem também aquele vídeo engraçadinho no YouTube que uma amiga te passou pra assistir.

Essa "perda de tempo", na internet, não existe ― ou melhor: ela não é percebida. Justamente porque enquanto você lê uma notícia, a página do e-mail está carregando, o Twitter está abrindo, você pode falar com alguém no telefone ou pelo Skype, alguém te passa um link engraçado e lá vai você ver do que se trata, e tudo isso com várias janelas do MSN abertas, porque você não pode perder o contato com aquele amigo seu que mora no interior do Acre e que você nunca viu ― nem vai ver... A internet dá mesmo a sensação de dinamismo, mas, na verdade, perde-se mais tempo aqui justamente por conta das tantas atividades que alguns têm ou das tantas coisas que alguns acompanham. Conheço pessoas que têm 500 mil links para ler no Google Reader, por exemplo. Essas pessoas nunca vão ler todos eles, mas insistem em amealhar mais e mais.

Em Portugal um grupo de pessoas criou o MFJEP, Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago. A intenção deles é fazer com que cada cidadão português compre ao menos um jornal por dia. É uma ação interessante e, acima de tudo, barata. (Porque jornal é barato, você sabia?) Antes mesmo de tomar conhecimento desta notícia, tive uma ideia semelhante. O problema é que propor isso, aqui no Brasil, além de soar ridículo ― porque é ridículo ser romântico e ter um ideal, no Brasil ―, não daria certo, afinal, o brasileiro não se preocupa ou sequer se incomoda com as fanfarronices dos políticos em Brasília, quiçá com o destino dos jornais impressos.

Admito que tenho, sim, fetiche pelo papel, e não consigo imaginar um mundo sem livros, jornais e revistas impressos, o que me faz ser uma das pessoas menos indicadas para escrever de maneira sóbria e imparcial sobre o fim dos jornais de papel e a consequente ascensão e domínio dos veículos virtuais. Mas isso não me impede de afirmar e defender a tese de que, sem as redações tradicionais e sem os veículos impressos, o mundo da informação vai mudar ― e pra pior. Muito pior.

Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 26/5/2009

 

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